Por Susy Freitas
O relógio marca quase meio-dia. A banca avaliadora se desfaz numa das salas, entre avisos de pagamento de mensalidade nos murais coloridos e apertos de mãos que encobrem estômagos roncando, desaparecendo nos corredores vazios. Marcas permanentes de pincel repousam nos cantos do quadro branco. Da janela, ouve-se um único garotinho lá embaixo, na quadra, cobrando pênaltis imaginários.
Permanecem na sala apenas a candidata à vaga e seu possível coordenador, um ao lado do outro, separados pela linha invisível que divide as filas de carteiras. O sol é fustigante, mas o ar-condicionado cria uma bolha de proteção para ambos. Ele esfrega o indicador através dos lábios rosados da pasta que envolve o currículo dela, abrindo-os com cuidado, enquanto ela segura firmemente o cabo VGA que utilizara para conectar o notebook ao datashow e apresentar a aula da fase prática na entrevista.
― biancaribeiro1998@gmail.com é o contato, correto? Não tem o telefone aqui.
― Posso anotar pro senhor ― a professora se aproxima, já com uma caneta em mãos, arrastando a cadeira sentada mesmo, com a força das pernas, sem emitir som algum, como se fossem uma coisa só, uma coisa rígida e fria. Escancara a pasta e anota o contato logo após seu nome completo ― Pode ligar em qualquer horário, não tenho nenhum impedimento.
― Que é isso, não precisa chamar de senhor. Erivaldo tá ótimo. ― ele rebate, sentindo o perfume de seus cabelos castanhos seguros num coque frouxo. É cheiro de talco, como o de mulheres mais velhas, o que ela mesma parece ser, embora não seja. Bianca escreve devagar, o torso inclinado permitindo a visão de parte da clavícula, a sugestão de seios diminutos logo abaixo, ocultos por botões tartaruga que fecham a camisa azul. É magra, e essa magreza acentua ainda mais seus olhos fundos, seu maxilar duro e a boca grande demais.
― Não consigo ― ela responde, levantando os olhos em direção aos dele por um segundo ― É um costume difícil de perder.
― Os alunos costumam te chamar de senhora? ― Erivaldo pergunta, imaginando-a com aquele mesmo olhar, fitando os olhos de algum pré-adolescente tirando dúvidas com ela durante a aula. Dependendo do humor do garoto, uma mãe, irmã, amante ou algoz. Em todos os cenários, olhos nos olhos, para mostrar que o vê, que o ouve, que ela está lá. Técnica e cuidado. Ele brinca com os cadarços da bota, que pendem no cruzar das pernas. A barriga força um pouco os botões da camisa de botão cinza. Assim que percebe o efeito, tenta endireitar a coluna sem mover o ombro esquerdo do lugar.
― Sim, o tempo todo. Até tentam usar o você, mas não conseguem. Depois de um tempo, sou só mais uma pra eles ― e fecha com um sorriso estranho, como se falasse de outra coisa.
― Acho improvável isso ― Erivaldo passa do cadarço para a barba, cujos fios grisalhos ele intercala entre acariciar e arrancar. As repetições o consomem, desviam seu olhar de Bianca, permitindo que ela possa analisa-lo naquela fração de segundo. A manga da camisa um pouco repuxada, revelando a diferença de cor do braço metade bronzeado, metade pálido. As veias nas mãos de dedos roliços. Um fio de barba cinza na camisa cinza. Coisas tenras e aleatórias.
― Se eu for contratada ― os ombros enfim descolam-se, reabrindo o vão entre eles. A caneta deita no braço da carteira ― vou provar pro senhor ― Tudo nela é lento e tudo nele tremula graças a uma perna chacoalhante, uma sinfonia de tiques da qual ele é o maestro.
A professora caminha até a janela, seguindo as batidas secas da bola na parede da quadra lá embaixo. O sol a deixa amarela, os cabelos ganham um contorno vermelho inesperado. A curva de suas costas desenha uma silhueta sensual que se inclina sobre o batente. Tal como faria algum dos adolescentes daquela mesma sala, Erivaldo entorta-se na cadeira para disfarçar o volume inconveniente entre as pernas. Bianca vira a cabeça para ele.
― Eu gosto da escola assim, vazia ― e aponta para a carteira de cigarros no bolso da camisa de Erivaldo ― Acho que não tem problema, né?
Ele olha para um lado e para o outro, as pernas cruzadas espremidas uma contra a outra.
― Se você não contar, eu não conto ― ele rebate, dando uma risadinha que morre solitária no chiado intermitente do ar-condicionado recém desligado. A tentativa de trazer equilíbrio à dinâmica dos dois falhara, mas Bianca não se importa. Acena para ele, chamando-o para perto da janela que seus dedos longos abriram com leveza. As pequenas ondas que eles fazem no gesto são como uma corrente que aproxima Erivaldo.
― O senhor gosta de ser coordenador? ― ela pergunta, colocando um dos cigarros na boca e puxando um isqueiro preto do bolso da saia de linho. É a primeira vez que ele vê a aliança no anelar direito dela.
― Não, e não sou muito bom nisso ― Erivaldo responde, numa sinceridade que o assusta a si próprio ― Mas ninguém mais queria o cargo. O salário não compensa o tanto de trabalho.
Os indicador de Bianca se dobra sobre os demais dedos ao segurar o cigarro, com um rígido polegar planando acima deles, diferente de como Erivaldo maneja o seu, com todos os dedos retos e relaxados. Uma pessimista e um sonhador. Ela solta a fumaça devagar após longas tragadas, assistindo ao jogador da quadra partir com sua bola debaixo do braço, a mãe tomando dele a mochila e passando a mão em sua testa suada. O coordenador tem o fôlego mais curto e, a cada três segundos, bate as cinzas que nem chegam a cair no chão do pátio lá embaixo.
― Os pais dos alunos são intragáveis, só querem que os moleques decorem conteúdo de concurso. Temos que tratar os garotos-problema como se tivessem déficit de atenção, mas são apenas uns moleques esquecidos, entupidos de remédios tarja preta pra não encher o saco em casa. Somos obrigados a entrar nesses grupos de pais de Whatsapp também. Todo dia acordo com aquelas figurinhas idiotas de Nossa Senhora mandando saudações e denúncias de comunismo em alguma aula. É isso de um lado, e do outro a direção vendendo aquele blábláblá de ― e faz as aspas com os dedos, as cinzas se espalhando pelo chão ― competências e meritocracia que você viu na outra fase da entrevista. Disciplina e rivotril, esse devia ser o lema dessa escola. Tenho de me fazer de doido pra algum professor implementar algo que faça essa garotada pensar por si mesma.
Bianca passa os pés nas cinzas de Erivaldo no chão, escondendo-as debaixo da mesa ao lado da janela. Nuvens escuras atravessam o sol a pino, gerando um céu de cores confusas. Elas têm pressa, atravessam antes de conseguirem escurecer a sala, partem rumo ao rio. O sol vence e tudo na escola está em suspenso de novo.
― Me parece que o senhor está fazendo tudo certo então ― Bianca decreta, com um grande sorriso de dentes amarelados na boca fresca do mentol.
Uma rajada de vento entra sem avisos na sala. A pasta com o currículo de Bianca cai no chão, e os percevejos frouxos lutam para manter os avisos fixos no mural. De tudo, são os lábios rosados e úmidos de alegria que prendem Erivaldo. Ele estende a mão livre até eles, enfia o indicador lá dentro. Ela o encara, esfrega a língua por toda a extensão do dedo. Os cigarros se consomem nas mãos, na altura dos quadris. A próxima entrevista será apenas duas da tarde.
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