Baixa frequência

por Américo Paim

Sábado. Paulo seguiu com a família rumo a Guarajuba, para passar o dia com amigos. A casa, ampla e bonita, ficava perto da praia, que ele gostava, mas seus amigos a achavam muito cheia e barulhenta. Na casa havia uma grande piscina e era comum ficarem por lá mesmo, sem praia, a petiscar, beber, papear, tudo cheio e barulhento. Foi e não foi assim naquele dia.

O cachorro da casa, Touro, um labrador retriever, era a prova que o apocalipse pode habitar um bicho. Grande e desastrado, sem noção do seu tamanho ou do estrago causado quando se deslocava, tinha um hábito: tomar banho na piscina. Não é o que parece. Não é entrar com alguém. Se queria, corria e se jogava. Bem assim.

A piscina entulhada de pessoas entre comes e bebes e ouviu-se: “Touro, não!”. Só deu tempo de ver o cão correndo, mas, à frente dele, mais rápido, duas iguanas! Os três mergulharam sem cerimônia! “Que cachorro barril, velho”, pensou Paulo, que não sabia que iguanas também gostavam de mergulhar e que permaneciam submersos por longos períodos! 

O impacto do mergulho foi hilário. Copos voando, gritos, choro, pulos em pescoços, correria para sair e Touro, de um lado a outro, à procura dos lagartos que nadavam velozes, roçavam nas pernas dos desesperados humanos e ampliavam o caos. Paulo hesitava entre ajudar ou rir. “Entrou água no programa na piscina”, veio o pensamento. Quase todos ficaram com medo ou nojo de entrar de volta. Ele até quis, mas foi proibido com olhares repressores. “Tenha medo”, murmurou para si.

Com todos fora, Paulo, agradecido àquela aparição réptil, aproveitou e se isolou, a observar e admirar os lagartos, identificando-se com eles. Se movimentavam de forma graciosa, elegante, em silêncio. Eram verdes, porque jovens ainda, assim apurou no Google. “Quando mais velhos, os machos ficam bem maiores e a cor muda aos poucos para um cinza definitivo”, leu. “Essas mudanças de cores funcionam como avisos. Seria tão bom se assim fosse com humanos. Se eu pudesse, também trocaria de cor a cada mudança”, imaginou.

Os bichos não emergiram logo, desconfiados. Enfim, foram à borda, metade do corpo fora e a outra dentro da água.  Quando assim, contemplativos, observadores atentos, transmitiam uma majestade que se impunha no ambiente, como dissessem que a vontade deles imperou. Quanto mais os olhava, mais Paulo gostava. Um deles criou coragem, correu e subiu em uma das árvores do jardim, protegido à distância por Paulo que, de forma instintiva, o acompanhou no trajeto, repetindo a conduta em seguida, quando o outro saiu e se perdeu, feliz e seguro, na mesma árvore. Touro, agora preso em sua corrente, via tudo de longe e latia agoniado.

No carro, de volta para Salvador, o incidente foi o assunto. Ia tudo bem, até que seu filho, com a mão por baixo do banco, apertou o calcanhar da mãe, toda medrosa de bichos, no meio do papo lagarto. Ela gritou, com raiva, verde que nem iguana e soltou fogo pelas ventas, que nem touro bravo. As risadas de Paulo, submersas como as iguanas, quase silenciosas e em baixíssima frequência, só eram audíveis por cães.

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