O tempo andava enquanto se balançava
Helô Mello
O tempo andava enquanto se balançava. No jardim, a jabuticabeira. Na casa, o menino, de vez em quando. Na árvore, sem flor, o mofo se instalou. O menino, no chão, esparramava os brinquedos. Ela acompanhou o seu crescimento, assim como a sua velhice. O tom cinza invadia o laranja pálido. Seus olhos, turvos, buscavam encontrar repouso, no pouco que enxergava pelo vidro dos óculos ou da janela. Era uma aproximação muda. Poucos momentos a tiravam dessa troca. O mofo também a envolvia.
Despertou quando pegaram o álbum de retrato esquecido em alguma caixa abandonada. A luz cortou a lombada. Há tanto tempo no escuro, custou a se situar. Habituada com o silencio inodoro, qualquer movimento era brusco. A capa, de madeira entalhada, foi aberta sem pudor. Um barulho de papel ressecado. O pó escorrendo pelas laterais. Um desequilíbrio no que estava acomodado. Sentiu a pele descolando. Ruídos tensos. Havia delicadeza no gesto lento. O sol querendo invadir a relação secreta. O ar penetrava de leve. Estavam prensados. Um tomou conta do outro. Ele a invadiu, sorrateiro, manso. Agora impossível separá-los. Tudo se apagou. Adormeceu.
O sono, dessa vez, não foi tão longo. O dia revelou uma experiência úmida. Nuvens pesadas filtravam seu corpo. Os movimentos eram de outra cadência. Sentia um leve tremor ao ser carregada, espremida entre a página e o antigo papel esgarçado. Da antiga jabuticabeira, restou algo, grudado na sua pele. Se transformaram em uma única imagem. A fusão, em tons de preto e cinza, eternizava o momento que se consumiam. A mão se aproximava. Não saberia dizer se ele a reconheceu. Será que veio ao seu encontro? A sua imagem agora estava exposta. Hoje, mais pálida, embolorada e imóvel, carrega as lembranças junto a cadeira, enquanto o tempo se balança.
