E a leitura continua

Fábio Kalvan

Um pontinho preto passa, aterrissa e desvia os olhos de Jô do livro para o braço esquerdo. Eles se olham e se encaram. Ou Jô assim crê, pois a um míope sempre falta certeza. Além do que não sabe se aquilo tem olho. Imagina que sim. Lembra-se então de tê-lo visto antes zanzando para lá e para cá. A inconstância da trajetória, o voo a meia altura, o silêncio nos deslocamentos. Mosquito? Pernilongo? Eis mais uma coisa que Jô não sabe. Mas se é pequeno, tem várias pernas, voa e, é provável, pica, então é tudo mosquito, está decidido.

E agora, Jô? Asfixiá-lo com um jato de inseticida? Ou deixá-lo viver? É, poderiam conviver. Afinal, se Deus existe e tudo é criação Dele, então seriam irmãos de mesmo pai, o mosquito feito ali pelo quinto dia, Jô no seguinte. Porém, se Deus não existe e tudo quanto há é fruto de acasos cósmicos, então são ambos produtos longínquos do mesmo Big Bang. Há decerto distâncias evolutivas, biológicas e psíquicas entre eles, porém de um jeito ou de outro têm a mesma origem e o mesmo direito à vida, não é?, Jô se pergunta. E os destinos, serão compartilhados também? O paraíso, o inferno, uma vida pós-Detefon? Ou o que lhes resta é encarar juntos a solidão e a miséria da existência? Jô hesita prudente: não deveria matar o bichinho de uma vez? O corpo zebrado e a atividade àquela hora do dia não deixam dúvida, é o mosquito da dengue. Febre alta, cefaleia, dores musculares, manchas pelo corpo, isso se tudo correr bem. Mas não está de que ele carrega mesmo a doença. Ainda que sim, quem garante que vá picar o dono do braço sobre o qual descansa? Todos temos direito à presunção de inocência, Jô filosofa. E ambos querem a mesma coisa, tocar a vida, o mosquito a dele, de poucos dias, Jô, a sua, de algumas décadas mas que seria resumida com folga em duas ou três semanas, olhe lá. Cada um na sua, na paz.

É quando então uma coceirinha tira Jô do devaneio. É ele, o mosquito, espetando o bico de agulha no braço roliço. Todo escrúpulo desvanece e o som do tapa ribomba pela sala. Jô retoma a leitura.

Deixe um comentário