A forma do espaço

 

Prosseguindo nossa investigação sobre o espaço como determinante para psicologia do personagem — bem como uma espécie de condutor e ao mesmo tempo amplificador do conflito —, vamos ler alguns contos de Vilma Arêas, 84, fluminense de Campos de Goytacazes.

Vilma só escreve um livro de contos a cada dez anos (escrevi um perfil dela aqui), todos de concisão extraordinária. Ela tem um olhar muito agudo para os contrastes sociais, em especial a opressão que sofre a mulher em pequenas cidades do interior, em subúrbios ou mesmo em locais sofisticados como a academia (ela foi por anos professora na Unicamp). É especialista em Clarice Lispector, de quem foi amiga, e em Ana Cristina Cesar, de quem foi professora.

Seus textos falam por elipse; é preciso prestar muita atenção para captar as nuances e sutilezas dos conflitos. Seus livros mais recente são Vento Sul (Cia das Letras), de 2011, e Um Beijo Por Mês (Luna Parque, Prêmio Jabuti 2019).

Do Vento Sul, temos na história de amor de “O rio” um reencontro em uma cidade distante com um homem que está sempre em fuga, tão em fuga que só se materializa num bar, num nome ou num sonho. Em “Habitar”, a narrativa de uma casa que vai sendo “despovoada”, destituída de seus habitantes, acaba por construir a memória de um homem abandonado. Em “Lugar comum”, o título brinca com a situação clichê do homem casado que tenta seduzir sua funcionária mais nova, mas, por conta de uma particularidade anatômica, deixa o caso suspenso em uma paisagem idílica. Por fim, na obra-prima “República velha” o espaço é uma fazenda do século 20 que ainda vive com pressupostos do século 17 – machismo, opressão, colonialismo, racismo, casa grande & senzala.

Do Beijo, temos o conto de onde foi tirado o título ao livro, “Como se fosse eu”: ali, o espaço é o confinamento instável de um táxi. A falta de visão da narradora, a conversa surpreendente e o espaço móvel em que ela se trava tira do chão as convicções da personagem, até aparecer o final imprevisível.

Em todos os contos, a narrativa, que tangencia o realismo fantástico e o psicologismo lírico, usa a descrição do espaço como matéria-prima para a criação dos personagens

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PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer.

Inspirada(o) nessas leituras, seu desafio é:

• narrar, na primeira pessoa, um conto em que o lugar seja o fator preponderante desta história.

conflito necessariamente terá a ver com a revelação de um segredo que se relaciona com este lugar.

O personagem pode:

  • pertencer a este lugar;
  • vir de um outro lugar para este; 
  • estar provisoriamente neste lugar.

Use somente uma das seguintes combinações.

O lugar pode ser:

– uma cidadezinha do interior
– o quarto do(a) namorado(a)
– uma vila de pescadores
– um cômodo nos fundos de uma casa
– um subúrbio arruinado
– uma fazenda próspera
– a guarita de um moderno edifício

O protagonista irá se relacionar com:
– um(a) namorado(a) ciumento
– um(a) parente obsessivo(a)
– um(a) chefe(a) violento
– um(a) criminoso(a) apaixonado(a)
– um(a) animal perdido(a)
– um(a) velho(a) com Alzheimer
– uma criança surdo-muda

O protagonista poderá ser:
– músico(a)
– banqueiro(a)
– agente secreto
– jardineiro(a)
– corretor(a) de imóveis
– professor(a) de balé
– ator(atriz) pornô

Em mais ou menos 7 mil toques.

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