Por Susy Freitas
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O espaço em branco me aguarda nomear o rosto na foto. Eu.png, na falta de algo melhor, ainda atordoada pela descoberta de que minha exata cópia, salvo a aberração do ângulo do olho esquerdo, ilustrava, como autora, um artigo propondo uma espécie de releitura da Conspiração Judaica pela Dominação da Alemanha.
O artigo, por sua vez, era citado numa reportagem sobre fake personas em sites de extrema direita. Na Eu.png, Emily Bay encara a câmera com as curvas das minhas pálpebras. Um pouco afastadas entre si, entregam não uma falha de composição, mas meu rosto feito de carne, membranas e alguma autenticidade. Já a boca tem uma camada de cor que dá ao meu rosto de sardas suaves um aspecto saudável. Acima dela, as narinas bem abertas, como que buscando transcender a máquina. Nosso cabelo molda-se para trás sob o efeito de uma brisa petrificada.
O que mais aprecio em Emily Bay é seu caráter incisivo. A cassação de direitos básicos dos judeus surge num vocabulário preciso, como que para assinalar que tudo que dizia era tão óbvio que pouco prescindia da linguagem. As frases são curtas por opção, prevalecendo o ponto em detrimento da vírgula, como no início do artigo em questão: Começara pelo medo. Isso dá à construção um peso dramático extra ao constatar que não há liberdade, igualdade e fraternidade na natureza, ao contrário do desqualificado ideário judeu que moldou a nefasta Revolução Francesa.
Minha dissertação já pisa no terreno da aprendizagem de máquinas, e as aplicações da StyleGAN2 para gerar fotos fakes não me é novidade. A novidade é que, dentre outras combinações que não a dos meus pais, lá estava a minha face, dando forma a ideias sombrias com uma paixão que me falta em tudo. Muito cedo foi tarde demais em minha vida, mas não para Emily Bay.
Seus artigos abarcam da questão judaica para a epidemia da transexualidade no Ocidente – este último, apenas para frisar a excelente escrita, termina com Estamos juntos na vergonha de sermos obrigados a viver a vida. Cada texto seu é mais absurdo que o outro e, por isso mesmo, mais convidativo. Li tudo, restando-me, ao final, seu currículo no LinkedIn. Além disso, nada mais existe de Emily Bay além de mim, e minha vida se resume a rodar simulações de softwares para finalizar a pesquisa do mestrado. Eu não estou interessada.
Passei a ficar horas no thispersondoesnotexist.com. Aperto o F5 aguardando a combinação que, por milagre, bateria pessoas num liquidificador até que Emily Bay se revelasse novamente. Sem resultados, faço outra busca, dessa vez por imagens, a partir da foto salva no computador. E qual não é minha surpresa ao descobrir que não apenas eu sou Emily Bay, como também Marguerite Duras, morta no dia em que nasci: 3 de março de 1996.
Marguerite é escritora, então compro seus livros, várias edições, algumas em francês. Devoro-os. Como Emily Bay, ela lida com as palavras como se fossem seu algoz. Estava presa e liberta por elas, numa Síndrome de Estocolmo linguística. Sua cinécriture, porém, finca-se no tema da incomunicabilidade, o que confirmo ao baixar seus filmes. Demoro um tempo até parar de confundir sua voz com a de Jeanne Moreau ao cantar India Song. Detesto-a.
O cerco se fecha, ou melhor, expande-se. As palavras de Marguerite muitas vezes se confundem com as de Emily Bay, e eu as identifico em postagens antigas das minhas redes, embora sempre com sentidos diversos. Por exemplo, no trecho O rosto está entregue ao sono, está mudo, dorme como as mãos. Mas o espírito continua a aflorar à superfície do corpo, ele o percorre inteiro, Emily aborda a falta de encaixe das pessoas trans em sua noção de binarismo puro, Marguerite descreve um detalhe da doença da morte e eu o trago, com os devidos erros de digitação, num tweet de 2017.
Mas ao debruçar-me sobre Marguerite, Emily Bay dissolve-se, torna-se nada além de uma sombra da qual eu sou a sombra. Ao contrário de nós duas, Marguerite oferece algo novo: um ciclo completo, de nascimento, vida e morte, da fotografia ao lado da mãe ao rosto de rugas retratado amplamente por décadas. Coincidência ou não, Emily Bay desaparece da web pouco tempo depois da revelação da escritora. É como se jamais tivéssemos existido. Marguerite, por sua vez, tem mais de sete milhões de menções no Google, o que me mantem ocupada a ponto de abandonar a dissertação.
A única coisa que me incomoda em Marguerite é que, ao contrário de Emily Bay, ela se recusa a adentrar no século XXI. Seu rosto em preto e branco predomina, ainda que experimentos cinematográficos como Le Camion a mostrem em cores, já idosa. É o impulso que faltava para me dedicar à criação de deepfakes. São tantos os aplicativos disponíveis hoje, e de tão fácil uso, que a decisão apenas escancara minha apatia. Meu desejo é uma completa mescla entre nós duas, além da aparência e da memória.
Começo por brincadeiras simples, como a composição de gifs a partir de Le Camion. É assim que eu, jovem, posso adentrar em cena com Gérard Depardieu. Com um pouco mais de prática e melhores aplicativos, recrio pequenos trechos do filme em que leio, em português e com minha própria voz, o script que eles estudam no longa. Dominando as ferramentas, mudo o enfoque para algo mais ousado: filmo a mim mesma em tarefas como lavar louças ou cantarolando uma canção das paradas de sucesso e coloco em mim meu rosto de Marguerite quase ao fim da vida. Num deles, a escritora dubla New Rules, da Dua Lipa. Mas não estou satisfeita. Nunca. Nunca.
As latas de energético se acumulam na lixeira, junto com os copinhos de iogurte. São minha única refeição em dias. As prateleiras curvam-se sob o peso dos livros e da poeira. Uma única luz brilha no quitinete de vinte por vinte: a tela do computador no qual costuro um cuidadoso deepfake de Marguerite num gang bang com seis senhores russos. Vestimos nada além de um cardigã bege e meias três quartos vermelhas. O sangue flui vivo nas bochechas coradas, mas os olhos têm um aspecto morto. A boca parece gritar sem ruídos. Um vulto passa para o banheiro. Seria Emily Bay?
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