Ian Perlungieri
Uns fios de cabelo no bolso e nada de carteira. Me apalpei enquanto ela, de brincadeira, me acusou de heresia por não conhecer Jesus. Estávamos nós dois sentados no restaurante quando ela balançou a cabeça em um incrédulo não como se estivesse alongando o pescoço. O sorriso cético, buscando no celular a foto do Messias. Eu transpirava, com os dedos apressados correndo pelos bolsos. O sorriso nervoso, buscando a carteira. Ela desviou o olhar, notando meus movimentos tortos:
– Quer que eu pague? – e tirou um cartão de crédito da bolsa em seu colo com a maior facilidade.
Falei que não precisava, que preferia pagar com dinheiro, que me recusava a pagar com cartão como Hendrix se recusava a tocar guitarra de modo convencional. Meus dedos afundaram nos bolsos como Hendrix se afundou no vômito e como ela havia se afundado na taça de vinho algumas horas antes. Ela nem notou meu desespero:
– Como é que alguém não conhece Jesus? – seus olhos voltaram a focar no aparelho, retomando sua busca individual em um sorriso que mesclava surpresa e graça.
Separados pela vidraça que dá para a rua, um menino preto com a roupa rasgada olha para mim. Ele une os cinco dedos de uma das mãos como se imitasse uma coxinha e faz um movimento de vai-e-vem com o punho diante da própria boca. Há história em seus olhos. Seu cabelo é escuro e está com uma folha grudada nele. Me incomodo. O garçom grita alguma coisa com o menino.
– Sério que você nunca viu essa foto? – e ela apontou para mim a foto de Jesus no celular, daquelas em que Ele parece chorar.
Respondi que não, não conhecia. Eu fui de uma família do interior que abominava a religião e se recusava a debater a respeito. Apenas conheci Deus pela mania dos pais de falar “graças a Deus” para cá, “graças a Deus” para lá. Era uma casa sem Deus, mas cheio de “graças a Deus”. O Deus de Schrödinger. Ele só existe para quem abre a caixa, mas passei a vida toda dentro dela. Existindo e não existindo. Ela riu:
– Mas e na escola? Não tinha igreja onde você morava, não? Tipo, nem quando você veio pra cá… – ela guardou o celular na bolsa e voltou a focar em mim.
Ela fazia perguntas demais. Os cabelos brancos perdidos em minha cabeça deviam estar se espalhando em razão do estresse. Falei que deviam ter mencionado, mas que eu era um aluno desatento, com mais apetite pelas palavras dos livros do que as dos colegas. Para falar a verdade, talvez eu já tivesse visto o rosto de Jesus antes, mas era só mais um rosto. E o ignorei.
Me levantei parcialmente do assento em busca da carteira no bolso de trás do meu jeans. Eu sei que notaria se ela estivesse ali por conta da pressão em minhas nádegas, mas a racionalidade estava prestes a desaparecer como aquele maldito objeto de couro.
– Que bizarro, meu. Nunca achei que ia conhecer alguém que não conhecesse o rosto de Jesus. Tipo, só se eu fosse pruma tribo perdida na África, sabe?
Mastigo meu frango enquanto o menino preto ainda olha para mim. Continua com uma das mãos em forma de coxinha, mas agora usa a outra mão para bater na vidraça que há entre nós. Parece me chamar, como se eu o conhecesse. O garçom grita alguma outra coisa.
– Mas nem em música, nada? Filme? Você nunca ouviu falar e ficou com uma curiosidade de ver como Ele era?
Odiei aquelas perguntas burras. Eu não havia acabado de dar uma boa justificativa sobre meu desconhecimento? Falei novamente que, se havia visto o rosto Dele, a imagem não havia sido registrada em minha cabeça. Repeti isso enquanto meus dedos repetiram todo o seu percurso, dos bolsos do casaco até os bolsos das calças. Notas fiscais de restaurantes diferentes, algumas moedas, os fios de cabelo. Nada de carteira.
– É que vocês são tão parecidos, né? – e tirou o celular da bolsa para me mostrar a imagem outra vez.
Eu ainda estava concentrado em minha procura, mas o que ela disse me chamou a atenção. De fato, a barba bem aparada e os olhos claros nos tornavam bem parecidos. O cabelo longo e castanho também favorecia a comparação. Eu já havia me impressionado com uma imagem que eu tinha visto de Tiradentes e pensei no quanto éramos semelhantes, mas era a primeira vez que me comparavam com o filho de Deus.
– Você é Jesus. Igualzinho.
Sim. Igualzinho. Eu ofeguei em minha terceira ou quarta busca pelo objeto e ela pareceu tomar consciência da minha ruína particular. Ela tirou o cartão da bolsa outra vez. Estive prestes a gritar com ela como Torrance fez com sua família, mas o garçom nos interrompeu. Ele falou que um menino havia encontrado minha carteira e me entregou. O dinheiro ainda estava nela. Olhei para a porta e vi um menino preto.
Sorri. O incômodo vai embora, pois finalmente me lembro de onde conheço aquele menino preto. É daquele outro restaurante, da vez que perdi a carteira. Pago a conta e saio. Na calçada, o menino preto tenta fugir da polícia, sem sucesso. Passo por um dos policiais e o cumprimento com um balançar de cabeça. Ele nem nota o sangue seco no porta-malas do meu carro. Me olho pelo retrovisor e dou graças a Deus por ser Jesus. Estico o pescoço como se estivesse alongando-o para olhar o lado de fora, onde os policiais batem com alguma coisa no menino. Fico sem entender o que gritam. Sem pressa, tiro meu casaco e o jogo no banco de passageiros. Em seu bolso, minha carteira e fios de cabelo.
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