Por Liu Lage
Seis horas da manhã, uma fazenda do século dezenove, um casarão colonial. A névoa dava um clima de filme, um suspense. Os latidos se misturavam à voz do Major, dono da terra, explicando as armas a serem usadas . “Esses dois aqui ó, é da faca, ó. O Juninho ganhou uma pra ele estreiá hoje.” E logo avisa que “a menina” não vai filmar ninguém no rosto, não pode filmar nenhum rosto. Carla continua filmando, os rostos, todos falando com um sotaque difícil de entender.
Os cachorros, miseráveis e amontoados em duas carrocerias. Eram vinte e cinco no total, olhavam para a menina e uivavam. Alguns com uma coleira GPS. Segundo Juninho, o dono da matilha, “os porco aqui são menos corrido, não são porco caçado. Mas lá na nossa região, o porco é caçado, lá cê num pega um porco saindo seis hora da manhã, cê vai matá ele lá pelas quatro hora da tarde, com trinta cachorro em cima, nói pelejano numa moto. Lá ês tem asa na canela.”
A luz baixa da manhã, perfurava as árvores e iluminava a estrada de terra, por onde seguiram no jipe. Eram cinco homens armados, dois com espingarda e três com uma azagaia cada. E Carla, com a sua câmera.
Juninho, um trabalhador rural, humilde, tem o mesmo olhar dos cachorros, um tanto miserável. Assim que saem da sede, ele se justifica, “nóis, controlador ambiental, além de fazê um bem pra natureza, nóis é muito criticado ainda. Porque na verdade, o que nói faz, é um bem pra natureza. Se ocê vê o estrago que o porco faz aí, acabano com as nascente tudo, cê num acredita.”
Chegando no começo da mata, todos pulam do jipe e o Major logo se coloca. “Aqui é o meu parquinho. Quem manda sou eu. A menina vem comigo. É o seguinte, presta atenção no latido dos cachorro, se ês tivé tocano os porco, é um latido, depois que pega, é outro. Mais uma coisa, a fêmea é que tem a carne boa. O macho, cachaço, não presta pra cumê.” Como poderia ser diferente? A fêmea foi feita pra ser comida mesmo, Carla imagina o pensamento do Major.
Os cachorros saem correndo pra dentro da mata, verde e úmida. O GPS indica o caminho e o som dos latidos. A menina não consegue acompanhar o grupo, o caminho é estreito e escorregadio. Depois de um tempo correndo por entre as árvores e os cipós, os bichos aparecem, num bando enorme. E ela ali, sozinha, com os porcos. Como se não bastasse a situação, um porco a encara, com um vapor saindo das costas, o olhar selvagem e feliz. Na mesma hora, ela foca a imagem em sua lente. O encontro dura o instante de um tiro e o bicho cai, tremendo. Era uma fêmea.
