por Américo Paim
“Senhor, peço perdão. Eu só queria uma lembrança daquele time maravilhoso. Se soubesse das consequências, não teria feito. Peço a gentileza de comparecer, às 15:00h, ao jogo de futebol no endereço descrito, para mais informações”.
O pacote sobre a cama de hotel tinha esse bilhete com letra trêmula e um par de chuteiras da minha época, bem desgastadas, tudo embrulhado em papel de pão. Era um dia especial. Voltava à minha cidade após vinte e cinco anos, para uma homenagem, com os ex-colegas. Por que ir àquele jogo na várzea?
O motorista do táxi do hotel, já um senhor, me reconheceu. Sabia tudo da minha carreira. Eu me dividi entre sua conversa e reconhecer a cidade. Era 1981 e Budapeste mudara. Em meia hora, chegamos ao campinho.
Nas velhas arquibancadas de madeira, esperei, refletindo. Envelheço e cada vez mais me volta o pirralho louco por futebol, nascido e crescido em Kispest. Foi por isso que vim. A vida arrodeia, mas volta. No campo, os meninos descalços ou com sapatos velhos, uns com camisas grandes demais. Bola surrada, traves sem redes, a cal quase invisível sobre a terra batida, tudo como no meu tempo. A bola e as crianças felizes.
Logo no início do jogo, o choque. Um dos garotos me assombrou. Gestos, corpo, liderança, a categoria com a canhota, tudo parecia comigo. Parecia, não, era igual. Antecipei, sem errar, suas jogadas! Quando fez um gol, levantou os braços bem alto, inclinou o tronco para trás e virou-se à espera dos abraços, eu me levantei, no susto: ele era eu! Até o cabelo penteado para trás! Me prendi ao menino, sem lembrar mais porque estava ali. Fim de jogo, fui a ele.
– Você é muito bom! Joga inteligente, parabéns! Qual o seu nome? Quantos anos tem?
– Miksa Balogh. Tenho dez anos, senhor.
– Alguém lhe ensinou a jogar?
– Não. Fico vendo o jogo dos mais velhos. Ali, perto de onde moro – apontou.
Atordoado, via a minha vida a cada informação dele. Pobre, nasceu e foi criado no subúrbio, casa humilde, respirando futebol. Até as comidas preferidas eram as mesmas. Aceitei, louco: estava diante de mim mesmo! Só me estressei assim que disse o que queria ser.
– Vou ser médico.
– Não quer ser jogador?
– Desisti. Meus pais não gostam. Só meu vô me fala para jogar.
– Então! Que tal jogar em um grande time e na Copa?
– Até já sonhei em fazer um gol na final da Copa. O senhor jogava quando era menino?
– Sim, sempre! Eu amo o futebol! Você conhece a história do “time de ouro”?
– Não, senhor.
– Há muito tempo, aqui na Hungria, montaram um time com os melhores jogadores do país, que ganhou muitos campeonatos. A seleção, baseada nesse time, ficou tão forte que passou quase quatro anos sem perder, ganhou a Olimpíada e o apelido de “time de ouro”! Foi até a final da Copa do Mundo.
– Ganharam a Copa?
Meus olhos marejaram. Lembrei. Entramos confiantes, fizemos dois gols (o primeiro foi meu) e, aí, desconcentramos. Eles viraram, levaram nossa taça. Ainda ouço o apito final.
– Não – falei baixo, doído.
– Ah, já sei! – disse, olhar arregalado. É o “milagre de Brina”! Meu vô me contou!
– O milagre de Berna, uma cidade na Suíça, corrigi, constrangido. Assim chamaram e acho que foi mesmo. Nosso time, quer dizer, a Hungria, era muito superior aos alemães. Seu vô estava lá?
– Tava! Ele contou que até pegou para ele as chuteiras do craque da seleção. Foi em um dia de treino. Não lembro o nome do jogador. Me disse que perdemos por isso, por culpa dele. Ficou triste por causa do que fez, mas não foi por mal.
Agora era eu o surpreso. Recordei o sumiço da chuteira, entendi tudo, mas, como fui me bater com Miksa? Sem pensar muito, abri o pacote que levara e lhe mostrei.
– São essas?
– Sim, sim! Por que estão com o senhor? – falou, entre excitação e desconfiança.
– É uma história complicada e sem importância, deixa para lá. Não se ganha a Copa só por causa de uma chuteira. Tem muito mais coisa.
– Não, senhor, foi importante! Se ele estivesse com a chuteira, seria campeão.
Seus olhos molharam e compreendi. Aquela foi uma derrota de todo o povo húngaro. Aquela injustiça do destino precisava de uma causa. A chuva forte no dia, o goleiro deles inspirado. Eu mesmo me prendi aos gols perdidos e ao meu segundo, no fim do jogo, anulado. Mas, as chuteiras, que ironia, foram um diferencial para os alemães. As reguláveis da Adidas, uma novidade. Se equilibraram melhor no campo molhado. Precisava mudar a minha cabeça, ou melhor a de Miksa. Perguntei por seu avô. Me disse, triste, que estava trabalhando. Propus lhe ensinar uma jogada e ele topou na hora. O drible ”drag-back”, que fazia desde criança, surpreendeu os ingleses no memorável jogo em Wembley. Não fiquei surpreso como aprendeu fácil e quando me contou que já pensara na jogada. Convencido que a minha história iria se repetir, continuei a estimulá-lo.
– Miksa, você vai jogar em uma seleção tão boa quanto o “time de ouro”, ganhar a Olimpíada, chegar na final da Copa. Vai fazer gols nas finais! Se der tudo dentro do campo e se concentrar, será campeão do mundo!
– Campeão do mundo! – os olhos brilharam. Bem, preciso ir agora, está tarde – falou, preocupado.
– Só mais uma coisa. Já reparou que, às vezes, você percebe a jogada muito rápido, antes mesmo que ela aconteça?
– Sim. Não é assim com todos? – falou, pensativo.
– De jeito nenhum! Mas, aprenda a controlar isso. Pode evitar que fique em impedimento e valer um gol na final da Copa. Aconteceu em Berna.
– Sério? Vou me lembrar. Bem, até logo.
– Leve isso – falei, passando-lhe o pacote.
– O senhor ainda não disse como está com as chuteiras de meu vô! – me disse, chateado.
– Não se preocupe. Ele vai entender. Apenas diga que nossas contas estão mais do que acertadas. Qual o trabalho do seu vô?
– Ele dirige táxi em um hotel na cidade. Qual o nome do senhor? Ele vai perguntar.
– Ferenc Puskás – lhe disse, satisfeito.
– Sabe, acho que vou ser jogador de futebol mesmo! – sorriu de volta o meu sorriso.
Apertei a sua mão, ou nossa mão, e nos despedimos. Lá se foi o menino, com nosso andar, carregando bola, chuteiras e muitos sonhos na cabeça.
