Silvia Argenta
A vista do quarto do hotel me distrai. Olho pela janela e admiro o Mediterrâneo do sul da França antes de retomar o ensaio sozinha. O céu está limpo e o brilho do sol reflete na água, que se mistura entre o azul-turquesa e o verde claro. Daí que vem a inspiração. Quando danço, me sinto livre e potente com a mesma energia e explosão das ondas que quebram na beira-mar.
O dormitório é amplo, e, como hóspede frequente, fui presenteada com uma sala anexa, onde mantenho meu ritmo de criações na frente do espelho que ocupa uma parede inteira. Apesar do dia lindo, está frio e é melhor eu me proteger. Procuro minha echarpe e não encontro. Continuo o treino solitário assim mesmo.
1, 2, 3, 4. Corrida, jogo de cabeça, giro. 5, 6, 7, 8. Salto, mãos para baixo, chão. Faço a contagem dos passos mentalmente de forma automática. Não preciso de nenhum instrumento para me ajudar. No espelho, me observo. Cabelos meio soltos, pés descalços, túnica branca. Não tenho nada de uma bailarina convencional. Apesar da espontaneidade da minha dança, meu único rigor é o ritmo porque ele permite o encaixe perfeito dos movimentos corporais com a música. No início do século XX, tudo que se espera de mim é a adequação às regras, mas essa não é minha natureza.
A camareira entra no quarto sem avisar. Peço a ela que procure a echarpe. Mesmo me movimentando, o ar frio que entra pela janela desperta todos os pelos do meu corpo. Respiro fundo. Encho meus pulmões de ar para retomar a concentração. Me debruço sobre a barra de exercícios e me olho no espelho. Bem de perto. Assim, cara a cara.
Do outro lado, vejo a empregada do hotel. Reconheço minhas cinco décadas de vida nas rugas da pele do rosto e nas mechas grisalhas do cabelo dela. Ela se abaixa para procurar a echarpe embaixo da cama e me identifico com os trejeitos e movimentos, todos bem alinhados e ao mesmo tempo fluidos.
Quando ela me diz, com a voz igual a minha, que não encontrou a peça de roupa, meus pelos se arrepiam ainda mais. Viro para tirar a prova e é ela mesma. Ou eu mesma! Nossos olhos se encontram. Até nossas expressões são parecidas. No bolso do uniforme branco impecável, há um nome bordado: Angela Duncanon, meu nome de nascença. Quem é essa mulher? Ao perceber meu espanto, ela vem na minha direção. A postura não é de uma criada. Se aproxima e mantém o ritmo dos passos, atravessando o espelho. Ela não perde tempo.
– Darling, do lado de cá é preciso aprender que as coisas têm outro ritmo.
– Até onde sei, é tudo refletido. O que faço aqui se repete aí.
– Você está enganada. O tempo é criação humana, assim como suas coreografias. Se o reflexo não é criação humana, não há motivo para o espelho repetir.
Não me contenho e entro na onda do papo sem pé nem cabeça. Levanto o braço direito e Angela permanece estática. Viro uma estrelinha e ela se joga no chão. O meu reflexo desaparece.
– Por que essa novidade agora?
– Estou aqui para te preparar para um novo tempo.
– Quem é você?
– Eu sou você.
– Me prove que você é eu.
– Ao saber da morte dos filhos, eu e você nos deitamos na banheira, mergulhamos e tentamos ficar sem respirar o maior tempo possível. Eles morreram afogados no rio Siena… tadinhos!
– Como você sabe disso?
– Fizemos a mesma coisa quando éramos crianças e descobrimos que o pai morreu num naufrágio.
– De onde você vem?
– O último marido se enforcou depois de ser internado por alcoolismo. Nesse dia, tomamos tudo que tinha no bar de casa.
– Não me sinto bem.
– Faz frio. É bom se agasalhar.
– Sei disso, vou pegar o casaco.
– Vai ensaiar de casaco? Melhor pegar a echarpe.
– Não sei onde ela está. Você mesma procurou e não encontrou. Isso que ela é vermelha. Presente de um amigo, que a pintou a mão. Ontem à noite a usei numa festa, mas tenho certeza de que trouxe para o quarto.
– Tão colorida e ainda assim não consegue ver?
Não consigo ver, não consigo entender, não consigo raciocinar. Machucada por me lembrar de tantos episódios tristes da minha vida, decido abandonar a conversa e voltar ao ensaio, agora acompanhada. Nessa nova experiência, não posso projetar meu corpo nem meus desejos para o reflexo do espelho. Devo apenas sentir os movimentos. A melhor sensação que existe é a do corpo liberto, sem projeções. Enquanto volto a contar o ritmo da música e a executar a coreografia, Angela, do outro lado, continua a procurar a echarpe.
Treino durante toda a manhã, até perder o fôlego. Meus amigos me esperam para almoçar frutos do mar num restaurante próximo daqui. Saio da sala e entro no quarto para me arrumar. Encontro a echarpe pendurada no cabide. Estranho porque eu havia procurado ali. Ao retornar para a sala, não encontro Angela no espelho. Meu reflexo volta a ser como antes. Definitivamente, tomei vodka demais na noite de ontem.
Na frente do hotel chega minha carona. O tempo firme me anima a tirar o casaco, apesar do frio. Sento no banco e ajeito a echarpe em volta do pescoço. Assim que o carro dá a partida, sinto um tranco e sou arremessada para fora do veículo. Sufoco. Queria agir como os pescadores que se jogam no mar e voltam à superfície para poder respirar. Viro presa. A força igual à dos tentáculos de um polvo me estrangula e caio na rua. A echarpe, enroscada na roda traseira do conversível, colore de vermelho meu pescoço e o chão de paralelepípedos. Me debato como um peixe fora d’água. Minha visão se fixa no céu anuviado. Meu corpo de bailarina faz o último movimento como Isadora Duncan. O tempo congela.
