Por Filipe Masini
Ele deixa o seu corpo cair sobre a cama. Pesado. Pensamentos enevoados por conta do consumo excessivo de álcool e de comprimidos para dormir, três para ser mais exato. Do outro cômodo é possível ouvir risadas e gracejos que já não são mais direcionados a ele. Eles arrancam e levam consigo cada fio de esperança que ainda possui.
O pé-direito baixo do quarto cria uma atmosfera sufocante. Úmido e escuro, se assemelha à uma caverna. Nesta hora lhe vem o pensamento de que talvez uma caverna de verdade fosse mais acolhedora.
Os sons da felicidade alheia, produzidos sob medida, o torturam. Ele fica imóvel e uma sensação de torpor invade o seu corpo.
Com o dedo indicador, ele arranha as costas da sua mão para se certificar de que ainda sente algo. Tenta mudar, em vão, o foco de sua atenção para a dor. Diante de tudo, aquilo parece ser a única coisa real. Logo vai se formando um caminho rubro cada vez mais intenso. Ele se pergunta aonde aquele caminho o levará
Pela fresta da porta azul de madeira, um facho de luz invade o quarto. Segue sem distrações e se acumula bem no canto, onde a parede encontra o teto. Seus olhos, cada vez mais pesados, acompanham o rastro luminoso até o fim. Algo se destaca em meio àquela escuridão. Neste ponto, ele avista uma pequena aranha negra. Sua teia prateada se sustenta entre uma viga de madeira grossa e redonda e um antigo lustre de metal.
Ela – toda senhora de si – com a destreza de uma tecelã experimentada, vai pouco a pouco construindo a sua casa. Paciente, plácida e calculista. Ela tem uma missão e não há nada que possa atrapalhá-la, nem mesmo o tilintar insistente de taças de vinho ou do falatório que preenchem aquele lugar que antes ele considerava a sua casa. Enquanto isso, o seu mundo desmorona e ele vai mergulhando na própria escuridão do seu sono induzido.
Ele sente uma profunda inveja daquela pequena criatura. Ela está mais preparada para a vida do que ele. Na sua existência solitária, ela se fortalece. Através de uma disciplina rígida, cria para si um território impenetrável.
A sua visão turva cria um efeito ótico multiplicador e ele passa a ver duas aranhas. Percebe, neste exato momento, que tão desesperadamente queria ser dois, mas que jamais havia sido um. Esfrega os olhos com sofreguidão, como se ao fazê-lo, pudesse apagar tudo aquilo que está marcado com ferro em brasa na sua memória.
Sua cabeça pende. Já não tem mais forças para resistir à medicação tomada, menos ainda para enfrentar a realidade. Olha mais uma vez para a aranha, procurando respostas ou conselhos antes de perder a consciência. Ela o encara de volta. Estática, impassível e crítica. Nenhum pingo de compaixão foi visto naquele quarto.
Ele se entrega.
