Silvia Argenta
Fazia mais de uma década que o Opala 77 não entrava na garagem. Meu avô estacionava o carro na rua e nunca se preocupou em protegê-lo. Não se importava de ter de caminhar vinte metros para atravessar o gramado e entrar na casa, mesmo com chuva, vento ou neve. Minha esposa é mais importante, dizia. Com o tempo, o azul metálico original do possante desbotou, assim como a memória da minha avó.
A garagem, nos fundos da casa, estava tomada por todo tipo de cacareco. Anos e anos de acumulação de objetos dos mais diversos, a maioria inúteis. Já nem dava mais para abrir o portão com tanta coisa guardada. Minha avó entrava pela lateral, onde deixou um vão livre estratégico para poder abrir a porta. Às vezes alguma coisa caía no chão e a porta emperrava, mas com um empurrãozinho ela dava um jeito.
Levou para a cidade pequena o hábito de quem morou a infância e boa parte da vida adulta no sítio, guardando de tudo para um eventual caso de necessidade. Apesar da quantidade de coisa, havia uma certa organização. Ela montou prateleiras para catalogar os itens no que ela chamava de “despensa”. Ao lado, a churrasqueira, que em outros tempos reunia os filhos e netos, estava lotada de caixas vazias. A garagem, trancada à chave, acabou virando um território particular, onde o restante da família só podia entrar se ela autorizasse. Ninguém questionava a matriarca.
Dentro de casa, cada objeto tinha seu lugar. Minha avó era impecável e até compulsiva com limpeza e arrumação. A exceção era quando eu e meus primos nos reuníamos e animávamos a casa com as guerras de almofada e correria por todos os cômodos. Enquanto os netos extravasavam toda a sua energia infantil, ela preparava os melhores quitutes que já havíamos comido. Não tirava o sorriso do rosto quando via todos sentados à mesa redonda da copa, movendo o suporte giratório com as comidas.
Desde criança, percebi que ela tinha um comportamento diferente dos outros adultos. Vaidosa, comprava muitas roupas e sapatos. Quando queria usar algo, nunca sabia onde tinha guardado e lá íamos nós procurar nos armários da suíte, dos quartos de visita e dos corredores. Muitas das vezes não achávamos, e ela acabava vestindo as mesmas roupas de sempre. Dizia que só tiraria a etiqueta do que não usou quando tivesse alguma ocasião especial, que nunca chegava, ou, quando chegava, se esquecia da promessa.
De vez em quando, ela encucava que precisava ir à despensa para usar alguns dos objetos guardados. Entrava na garagem, ficava horas remexendo nas coisas e voltava sem nada nas mãos. Um dia, ela me chamou para ajudá-la a reunir todas as bandejas de presunto. Vazias, as embalagens de isopor tiniam de brilhante depois de terem sido lavadas e secadas diversas vezes. Fiquei feliz com a ideia de que ia jogar fora, mas ela só queria mudar de prateleira. Passamos uma tarde toda nessa função.
Já adulta, numa visita, descobri que a coleção de hábitos exóticos havia aumentado. Guardava o relógio de pulso no pote de açúcar, escondia mamão no meio das roupas, acordava de madrugada para cozinhar chuchu e deixava a boca do fogão acesa quando decidia voltar a dormir. Meu avô precisava esconder as chaves das portas para garantir que ela não sairia de casa durante a noite. Ninguém na família ousava falar sobre o assunto. Só contavam os causos rindo. E eu ria também.
As conversas com minha avó não rendiam como antes porque ela mudava de assunto bruscamente ou não completava mais o raciocínio do que estava falando. Deixou de usar as roupas elegantes, não ia mais à igreja e abandonou os jogos de palavras cruzadas. Uma vez, ela olhou para a sala e perguntou quem estava ali. Respondi que era o marido dela, com quem estava casada havia mais de cinquenta anos, e ela disse que eu estava enganada. “Não, ali só tem um velhinho”.
Ficava brava com os gatos que apareciam no quintal pedindo comida. Saía correndo, arremessando o chinelo em cima deles. Só reagia bem quando brincávamos de bolinhas de sabão no jardim. Ficava maravilhada olhando para cima esperando a próxima leva. O brilho do sol refletia nas bolinhas e iluminava ainda mais os seus cabelos brancos. Também gostava quando eu tocava algo no piano. Ao ouvir música clássica, fechava os olhos e se deleitava. O rosto de expressão endurecida tomava uma feição de placidez, com um leve sorriso, e o corpo rígido, sentado no sofá, se entregava ao som e amolecia.
Curiosa, fui até a garagem sem pedir autorização para ela. As paredes estavam manchadas com muitas infiltrações. As lâmpadas eram fracas e iluminavam pouco. A organização não era a mesma de antes. Também me pareceu que não havia tantas coisas quanto na época de quando eu era criança. Depois eu soube que meu avô estava tirando os objetos aos poucos, sem ela perceber, durante a siesta. Devagarzinho, na mesma velocidade que o cérebro dela eliminava as memórias.
Ela entrou na garagem. Achei que ia levar uma bronca, mas ela pediu para brincar de boneca antes que o pai dela descobrisse que estava escondida ali. Perguntei se ela se lembrava do seu nome. De pronto, respondeu: me chamo Insônia. Meu coração apertou. Nos sentamos em cima de umas caixas. Ela olhou as próprias mãos e passou os dedos em cima da pele, sentindo a textura das rugas e manchas. Depois, pegou uma escova e penteou meu cabelo como fazem as irmãs pequenas. Me beijou no rosto e deu o abraço mais longo de que me lembro. Nos afastamos e, naquele olhar, ela me contou que sabia de tudo.
