Escala

Ian Perlungieri

Do lado de dentro, as lágrimas saíram.

Dobrei meu corpo rente à porta fechada e fiquei no escuro, fungando. O escuro é frio, mas meu rosto queimava, com lágrimas deixando o interior dos meus olhos para trilhar pela minha face em busca de luz.

Doía. Minha desculpa foi a de que viria no depósito para buscar a minha primeira flauta, daquelas voltadas para crianças e compradas em feira. Claro que ninguém contestou.

Domingo. Para alguns, o primeiro dia da semana. Para mim, o sétimo. O último. Aquele dia em que você apenas gostaria de descansar, mas possui uma cara de semibreve. Um gosto de borra de café. Um cheiro de visita inconveniente. A prima dele, o marido dela e o perfume que eles compraram em Paris resolveram vir aqui em casa e ele foi logo falando para eu colocar sutiã.

Dono da razão, eu nem quis argumentar. Não que eu seja submissa, mas já havia um pacto silencioso entre nós e, por mais que eu estivesse em minha casa, no meu espaço, eu sabia que estar no mesmo ambiente com o marido dela e sem sutiã o incomodaria. Eu o amava e queria evitar qualquer conflito.

Doce ilusão. Mal se acomodaram no sofá, já iniciaram as trocas. As trocas de cheiros, o café se misturando com o perfume de Paris. As trocas de histórias, ele falando do meu último concerto, a prima falando do seu último ménage. As trocas de olhares, o marido dela olhando para minhas pernas, ele olhando para os peitos da prima. Sim. Sem sutiã, a prima não se importava em deixar seus peitos dançarem diante dele, que mal sabia disfarçar.

Dominei a raiva como pude até a prima soltar uma história antiga, de que ela já havia se envolvido com ele. História, essa, que eu não sabia e traía aquele pacto silencioso que eu acreditava que havia. Em seguida, veio a desculpa e o depósito.

Repetia que talvez ele já houvesse me contado a respeito, mas eu sabia que me lembraria se fosse o caso. Não. Ele omitiu uma informação importante sobre seu passado, mas se ele escolheu esconder ou apenas esqueceu, o que mais eu poderia não saber?

Relacionamentos são difíceis. Exigem confiança e paciência que devem ter saído do meu corpo aos poucos durante os ensaios da flauta. Resgatar esse espírito é que é difícil depois de tanto assoprar.

Reflito sobre minha situação e decido vestir um sorriso até a prima e o marido irem embora. Depois, falo com ele sobre meu incômodo e tomamos uma decisão juntos.

Restava, agora, encontrar a flauta naquele depósito estreito e cheio de caixas. Acendi a luz, limpei as lágrimas do rosto e parei de buscar autoconfiança para buscar minha flauta.

Resistia, com dificuldade, aos pensamentos que me invadiam tanto quanto o pó, que dançava de acordo com as reviradas das caixas. Ele colocou a mão em mim quando notou que o marido olhava minhas pernas. Que hipocrisia. Sobre o que eles estão conversando na sala? Quantas vezes ele e a prima já se relacionaram? Será que eles estão se relacionando agora?

Respirei fundo como se não respirasse por sete dias e encontrei. Não a flauta, mas as caixas dele. As memórias dele.

Relevei o pacto silencioso de que não deveríamos mexer nas caixas um do outro e a abri.

Mi

Minha curiosidade ultrapassou os limites, que eram os durex que lacravam a caixa.

Mirando o interior dela, apalpei cada objeto como se minhas mãos exigissem reconhecê-los também. Provas antigas, livros velhos, um desenho que ele fez para mim. Um retrato do passado que eu conhecia sem vestígios do passado que eu procurava.

Misturada em um calhamaço de papéis, porém, eu encontrei. Cartas. Cartas de amor antigas cuidadosamente ocultadas dos olhos menos atentos.

Migalha a migalha, fui unindo informações, juntando pistas. Fiz uma leitura dinâmica dos textos das cartas e descobri os detalhes daquele relacionamento que ele tentou omitir. Descobri quantas vezes beijaram, quantas vezes transaram, como foi, quem terminou e o porquê.

Mistério resolvido. Encontrei o que procurava. Não uma traição recente, mas uma traição antiga. A traição de escolher de modo consciente não contar algo para a pessoa que ama. A traição de cuspir no café do outro e nada dizer, imaginando que, uma vez que a ação foi cometida no passado, não haveria consequências.

Minutos significativos devem ter passado, pois ouvi um grito lá da sala perguntando se vou demorar.

Miserável.

Falei que já ia e encontrei a flauta logo em seguida.

Soltei meus cabelos.

Larguei meu sutiã, apaguei a luz e saí. Voltei para Paris.

Sim. Eu sei. Agi além de qualquer escala.

Links:
Livro Eu Nunca tinha Passado por Aqui
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