
A primeira pergunta é: quem coloca o nome da moda num gato? Dar nome de gente em bicho exige sensibilidade aguçada, mesmo quando se escolhe nome de astro de rock. Dinorá, Teodoro, Gilda, por exemplo, combinam com bichanos. Alice, Carolina, Lucas, não. Gil, Gal, Bethânia também não. Mas o gato de Nazareth se chama Valentim. Em plena segunda década do século XXI, em que o filho mais velho do vizinho da frente se chama Enzo, o filho do meio do vizinho de baixo é Théo e o recém-nascido do vizinho de cima, que chora todo dia pontualmente às 6h, Martim. Mas isso tudo eu descobri bem depois.
Eu estava indo dormir na casa do Josué pela primeira vez. Ainda nem tínhamos assumido que era namoro. Ele é quem dormia lá em casa, mas naquele final de semana a Nazareth, sua irmã mais nova, ia viajar. E uma semana antes de viajar, ela adotou um gato. Gênia.
Eu saí da aula de balé – um desses empregos que a gente arruma de maneira aleatória em tempos de crise financeira ou confusão mental – e segui pro prédio dele em Pinheiros, daqueles baixinhos, poucos apartamentos e sem elevador. Ele mesmo desceu para abrir e fiquei aliviada de ele ter chegado do trabalho antes de Nazareth. Imaginava ela descendo a escada e abrindo a porta com uma tesoura na mão e chapéu preto de feltro, já que nem toda bruxa anda de vassoura. Eu a conhecia pouco. Ela até que falava uma quantidade agradável de palavras por minuto, não era do tipo caladona, nem cansativa. Mas tinha um papo que te envolvia para prestar atenção nela, nas histórias dela.
Quando Josué abriu a porta do apartamento pra mim, vi um vulto cruzar a sala em direção ao quarto. Dei uma leve empinada para trás, naqueles dois milésimos de segundo que o cérebro leva para processar a informação.
_ É o Valentim, o gato novo da Nazareth. Vou pegar ele pra você ver. Gordinhoooo!
_ Deixa ele lá, eu tenho medo.
_Ele é bobão.
Mal deu tempo de deixar a mochila encostada na lateral do sofá e Josué veio com o bicho, uma bola cinza de pelo, olhinhos azuis vesgos. Ele sentou na mesa de centro, de frente pra mim, e queria colocar ele no meu colo. Desviei. Nunca tinha pegado um gato na vida, atravessava a rua se algum aparecesse. E a primeira coisa que vi quando ele fez que ia esticar o braço com o bicho foi a unha pontuda pra fora, pronta pra desfiar minha meia-calça rosa claro com mais eficiência do que as farpas da madeira de pinho da mesa.
Naquela noite Josué e eu saímos para comer pizza, tomamos vinho e trouxemos uma garrafa extra para casa. Josué ligou as luzes coloridas da varanda do quarto e ficamos na rede. Eu bebia também para fazer sossegar meus pelos do antebraço, atentos ao ar de outono que ressecava as narinas. Uma das coisas que mais gostava naquele apartamento era o piso de caquinho vermelho ali na varanda, que gelava o pé mesmo com meia. Ficamos deitados na rede cinza, conversando, bebendo, com o cobertor nas pernas. Pegamos no sono sem acordar com torcicolo no meio da madrugada, como só os casais em começo de namoro conseguem.
Devia ser umas 7 horas quando o Josué me pegou no colo. Eu acordei, mas deixei ele me levar pra cama. Depois que ele puxou o edredom, virei de lado e tentei voltar para o mesmo sonho. Escutei ele indo na cozinha e adormeci. Não sei exatamente quanto tempo se passou até que eu virasse de lado e percebesse que ele não estava lá. Talvez tenha sido por volta das 7:40. Fiquei com preguiça de me levantar mesmo assim. Acordei 8:30h com Josué abrindo a porta. Dava para escutar ele chegando porque a porta do quarto dele tinha a maçaneta quebrada. Mesmo batendo, ela não prendia. Tinha que colocar um pano no meio ou prender por dentro com o aparador. Tínhamos fechado à noite, mas ele deixou aberta quando saiu de manhã. Levantei, coloquei o casaco e fui até a sala. A entrada da cozinha ficava ao lado da porta de entrada. Josué estava encostado na pia, olhando para o fogão como se esperasse o café ferver, mas ele nunca preparava o próprio café.
_ Você saiu?
_ Sim. Vim beber água mais cedo e não achei o Valentim. Ele não estava na cama da Narazeth, nem no armário, no meio das roupas. Nem dentro das gavetas. Aí balancei a ração e nada. Ele tinha chorado a noite inteira, raspando a porta. Mas a gente tinha travado ela. Você não ouviu?
_ Não. Acho que dormi pesado por causa do vinho. Cadê ele?
_ Não achei ele em lugar nenhum, aí olhei na janela e vi o corpo na garagem. Quando eu vi, chamei e ele nem se mexia. Como que esse gato pulou do segundo andar e conseguiu se estatelar no chão? Fui correndo no veterinário aqui do meio da quadra. Ele quebrou a pata. A Nazareth vai me matar, falei que ia cuidar do gato.
Vai mesmo. Vai furar sua barriga e te empurrar da escada, pensei. Que ideia, adota um gato, viaja e não coloca tela no apartamento antes.
_ O pior é que ela vai querer colocar tela em tudo. Na sala, nas sacadas, na lavanderia. Vai acabar com a vista do apê. Já não basta morar em apartamento, em pleno centro de São Paulo, ainda tem que parecer prisão ou casa com criança.
_ Tela não é tão ruim.
Tentei consolar. Mas só conseguia pensar que Nazareth colocaria a culpa em mim: eu tinha que namorar o irmão dela e vir dormir aqui bem quando ela decide adotar um gato? E o Josué tinha que trancar o bicho fora? Claro, né, qual o problema do bicho que eu não gosto ficar soltando pelo na minha cara, rasgar minha meia calça, derrubar o vinho, quebrar taça, fazer bagunça.
_Vamos tomar café. Depois a gente busca ele e vê o que faz.
Na casa do Josué não tinha comida. Nem para o café da manhã. Pão, suco de caixinha, chá de saquinho. Nada. Fomos até a padaria, cada dia mais cara e a cada reforma mais cafona. Na volta pegamos o Valentim. O gato estava com cara de drogado, acabado. Tinha uma pata imobilizada e um dente quebrado. O colocamos no canto do sofá e passamos o resto da tarde e do final de semana ali, olhando pra ele.
Eram umas 17h de domingo quando Nazareth voltou. Eu não me dei conta de que Josué não tinha nem ligado, nem mandado mensagem pra contar do acidente. Não sei porque acabei ficando lá até tão tarde. Talvez pela sensação de liberdade de estarmos sozinhos num apartamento que era maior do que o meu.
Josué estava deitado no meu colo, no sofá, enquanto eu tinha as pernas dobradas para um mesmo lado em V quando a porta de entrada começou a ser destrancada pelo lado de fora. Nos reajeitamos na posição e Nazareth entrou. Toda de preto.
_ Valeeentiimmm! Psssssiu!
Ela já ia passando rumo a seu quarto sem nos ver ali, no meio da sala, de costas para a porta.
_ Oi gente, vocês estão aí? Cadê o Valentim?
_ Tá aqui no sofá com a gente. Ele teve um acidente.
Engoli o riso e Josué me olhou.
_ A gente tava dormindo, ele tinha miado a noite inteira. Aí de manhã eu escutei que ele parou, procurei e não achei ele. Quando olhei pra baixo, ele tava lá na garagem. A gente deixou a janela da sala aberta, não imaginei que ele conseguisse pular até o parapeito sem nada para pegar impulso por perto.
_Meu deus, e machucou. O que é isso na perna dele?
_ Ele quebrou a patinha e o canino.
Se no sábado não tinha comida na casa de Josué, no domingo também não. A gente não tinha almoçado. Descemos na padaria para tomar café por volta do meio-dia. Lá pelas 15 horas eu já estava com fome de novo e Josué lembrou que tinha comprado um cookie de uma colega de trabalho. Quando ele dividiu o biscoito ao meio, avisou que tinha maconha na receita. Aceitei, era só um biscoito de chocolate.
Nazareth continuou:
_ Valen, deixa eu ver esse dente.
_ Imagina se vocês colocam, agora, um dente de ouro no lugar do canino quebrado do Valentim?
Nazareth fingiu que não me ouviu, mas o Josué completou:
_ E umas correntes de ouro com um pingente redondo com V de Valentim. Ele já tá com a perna quebrada, vai virar um gato maloqueiro.
_ Com um boné ele vai virar o gato rapper.
Eu e Josué ríamos e Nazareth pegou o gato no colo e levou pra cama. Como se não fosse a imagem mais engraçada que pudesse se dar. Eu e Josué continuamos a rir. E cada vez mais. Nazareth não tinha humor.
A tarde acabou com um intenso arrebol. Eu só fui bem recebida de novo naquele apartamento quando Nazareth foi morar sozinha e eu e Josué nos casamos, seis meses e 8 dias antes do Martim nascer e começar a derrubar brinquedos de madeira sobre nossas cabeças.
