por Américo Paim
Era a melhor contadora de histórias. Aqui mesmo, nessa sala de estar. Ao final de uma, me diria com seu olhar manso: “Meu filho, melhor que uma boa história, só saber contá-la. Aqui tem mais vida do que se vê” e emendaria um riso irônico, sem abrir a boca.
Ela sentada no amplo sofá com seu vestido estampado, pernas cruzadas, as mãos repousando sobre seu colo gostoso de avó, com a luz do meio da tarde tocando de leve seus cabelos brancos, meio que prateando-os. A voz firme, mas doce, dicção perfeita em tom de conselho, era um esteio para qualquer tormenta. Seus olhos negros profundos. Aqui lhe contei tanto e ouvi de volta uma vida inteira. A sala da vó Estela, meu amor para sempre. Ela morreu e essa casa, mais velha que ela, foi junto.
Que ironia estar à frente dessa venda. Como corretor nunca me vi nessa situação, de relação afetiva com o imóvel. Se pudesse, vendia a casa, mas guardava a sala de estar. De tantos trabalhos, esse será o mais difícil. E ainda tem seu último pedido, algo desconcertante. Mas, entendo o que ela quis e compartilhar comigo era a melhor opção.
Toda a família sabe que, por justiça, sou o único herdeiro, mas o primo segundo, o Honorato, não concorda, o que não surpreende. Só pensa em dinheiro, assim como seu pai e seu avô. A vida inteira ele só viu esse casarão em cifras. Nunca uma conexão diferente. Agora, com esse novo conjunto habitacional e a pressão da construtora para comprar a casa, sentiu-se à vontade para reclamar sua parte. Não fazia ideia do que vinha pela frente.
Quando ele chegou, eu estava sentado no lugar que sempre gostei quando estava com minha vó na sala de estar. Entrou, grunhiu uma saudação e sentou-se do lado oposto, na poltrona junto ao sofá. Ainda bem que não sentou no lugar dela.
– Então, Maurício, o que tem de novo a me dizer?
– Sempre direto ao ponto, não?
– Não vejo razão para preliminares. Só se eu gozar no final – falou, rindo agudo.
– É uma frase curiosa – sorri misterioso e ele, claro, não entendeu.
– Do que ri?
– Talvez entenda em alguns minutos. A vó Estela deixou claro o que queria em seu testamento, como verá na reunião com o advogado, amanhã. Mas, há um ponto de grande relevância, que só aparecerá de acordo com uma decisão que terá que tomar.
Sua reação não foi boa. Sentiu como se eu tivesse carta na manga. Não estava errado se assim pensou. Mesmo sem sermos inimigos, nunca o admirei, é verdade. Antes de continuar a história, porém, preciso compartilhar algo importante que Dona Estela me contou há muitos anos.
Seu Anacleto – avô de Honorato, minha vó Estela e os gêmeos Tancredo e Hermenegildo seriam os herdeiros legais do casarão, propriedade de Seu Ambrósio, pai deles e meu bisavô. Os gêmeos morreram ainda jovens, em acidente de barco, em 1930. Não tinham filhos ou relacionamentos. Seu Anacleto, perto de se casar, em 1938, pediu dinheiro ao pai para empreender um negócio de fábrica de peças para bondes. Assim aconteceu, mas acordaram que ele abriria mão da sua parte na herança do casarão, que ficaria para Dona Estela. Foi acordo de cavalheiros, sem papel, mas do conhecimento de minha vó. Logo depois que Seu Ambrósio morreu, em 1955, confirmou-se que Seu Anacleto não era nada cavalheiro. Além de negar o acordo, passou a pressionar Dona Estela para que vendesse, porque seus negócios não iam nada bem. Ela discordou e resistiu. Antes de morrer, Seu Anacleto contou sua versão da história para o filho e esse a repassou a Honorato, que a assumiu como verdade. Volto à conversa.
– Vai me contar ou vou ter que pagar? – debochou.
– Sempre o dinheiro. Não se apresse. É uma revelação de importância. E é oportuno que seja aqui, nessa sala.
– Fale logo! Está ganhando tempo? Essa sala velha e empoeirada vale tanto quanto sua conversa mole.
– Leia esse papel – entreguei-lhe uma folha de ofício dobrada, ignorando a provocação.
Eu deveria ter filmado a sua reação. Leu, levantou-se e releu. Aqui e ali, me olhava e passava a mão na testa franzida e suada. Mudou de desdém para preocupação, com rapidez. Ao fim de alguns segundos em silêncio, virou-se com a arrogância habitual.
– Acha que vou acreditar nesse papel forjado? Isso não tem valor legal.
– Se não notou, é uma cópia autenticada. O original está em segurança, com o resto da documentação do testamento de minha vó.
– Aquela velha estava caduca. Inventou a história e o documento.
– Não ofenda a memória dela. Quem é você para isso? E aí, vai pagar para ver?
Com raiva, largou o papel sobre a poltrona em que estava e foi à janela. Acendeu um cigarro. Estava desnorteado. No lugar dele, eu ficaria, se lesse isso:
“A quem interessar possa, declaro que o senhor Anacleto Rodrigues Ferrão não é meu filho biológico. Assumi a responsabilidade por sua criação atendendo a pedido de pessoa amiga, que, em seu leito de morte me confidenciou a existência do recém-nascido, fruto de relação considerada inadequada por sua família. Sua genitora faleceu no parto. Eclâmpsia. Em respeito à sua privacidade e por conta da reconhecida e infeliz associação do nome de sua família a atividades consideradas ilícitas e reprováveis, não declinarei aqui o nome do amigo ou sua filiação.
Atesto que escrevo isso de próprio punho e livre de qualquer coação.
Outrossim, ratifico que sempre tratei Anacleto como se meu descendente fosse, sem distinções, apesar do fato descrito acima. Minha esposa, já falecida, era a única pessoa a conhecer os fatos, até o dia de hoje.
Itabuna, segunda-feira, 7 de março de 1938.
Ambrósio da Cunha Ferrão”.
Como meu primo segundo permanecia em silêncio, a fumar de forma aflita debruçado à janela, voltei a falar-lhe, com o resto do terremoto.
– Tem mais que deve ouvir – falei com voz firme.
– O que mais pode ser? – seu olhar era grave, mas parecia resignado.
– Nessa mesma sala está escondido um papel com nomes e sobrenomes dos envolvidos no episódio. Seu avô foi concebido aqui mesmo nessa sala de estar, em uma madrugada, após uma festa, como meu bisavô apurou depois, com riqueza de detalhes. A localização desse documento me é desconhecida, mas está em um desenho, de posse do advogado do testamento. Será utilizado se isso for em frente. A decisão é toda sua.
Diante de seu silêncio, apesar de seus olhares que alternavam cólera e desolação, continuei.
– Você não tem direito a nada do casarão. Se quiser, colocamos tudo às claras e o passado de seus ascendentes será exposto. As consequências são imprevisíveis.
– Você é um porco chantagista! – berrou.
– Sempre os gritos. Agora, eu lhe digo: não tenho tempo a perder. O que vai ser, Honorato?
– Desgraçado! – respirou fundo e saiu, em silêncio irado.
A resposta estava dada.
Sentei-me na poltrona tradicional, de frente para o sofá da vó Estela. Refleti sobre a história toda e, de súbito, entendi o que ela sempre me dizia sobre aqui ter mais vida do que se vê. Melhor que uma boa história, só saber contá-la. Sorri irônico, sem abrir a boca.
