Parabéns pra você

por Américo Paim

– Fique à vontade para começar.

– O senhor não me entenda mal, mas nunca fiz esse negócio de terapia. A empresa que me mandou, depois do que aconteceu.

– Fique tranquilo. Relaxe e me conte o que houve.

Ele pediu e falei do meu jeito. Talvez alguma coisa tenha sido diferente, mas foi assim. Não sei no que vai dar.

Isso tem um ano. Lembro bem que tava em casa, tomando uma, e era domingo. Pensava na vida. Tudo em ordem com a saúde, mesmo depois das duas crises de estafa, e o cafofo todo pago. Faltava uma nega, mas eu tinha esperança. Ainda muito novo, papá. Só dois problemas, tudo com dinheiro.

Primeiro, fui muito burro porque emprestei tanta grana pro pilantra do Roberval. Me pegou no coração mole, com aquela história de doença na família. Sumiu no mundo. Nem a polícia achou o desgraçado. Que sofra dores atrozes, não vou mentir. Dizem pra não desejar, pois volta pra você. Porra nenhuma. Arda no inferno, mizeravão.

Também tinha um porém no trabalho. A empresa mandando embora os colegas carteiros. Eu achava que ia ficar porque aguentava as caminhadas, mesmo sem ser mais um garoto. A verdade é que ninguém mais escrevia carta. Tudo por e-mail, WhatsApp. Era 2015 e eu teimei que precisava mudar de profissão. Mas, fazer o que? Não tive muita chance de estudar. Recomeçar? Com que dinheiro?

Minha cabeça ainda fervia na segunda, quando cheguei na agência. Peguei meu lote de cartas para entregar em Brotas. Como sempre, separei o bairro por região. Tudo normal, menos um envelope: carta pro Jardim da Saudade. Nunca tinha feito isso. Era rota de um colega, que foi despedido. No fim do dia, fiz a entrega. Na boca de ir embora, vi um casal com roupa de malhação. No cemitério? Perguntei a um funcionário e ele disse que acontecia direto. Fiquei matutando aquilo. Eu gostava de correr. Pensei bem: lugar sossegado, tudo em silêncio, pouca gente, mais seguro. Por que não? Decidi testar no dia seguinte.

Cheguei depois do expediente, umas cinco da tarde. Calor de verão. Algumas pessoas andando e outras na corrida. A área é grande. Tinha completado umas três voltas inteiras, quando ela apareceu. Vinha rápido, da direção contrária. Juro que não tinha percebido. Só vi em cima. Perto de passar por mim, ela reduziu e parou na minha frente. Uma moça jovem, bonita, com rabo de cavalo, short branco e uma camiseta rosa. Devia ter uns vinte e pouquinhos, no máximo. Foi logo falando:

– Oi, tudo bem? Posso correr junto com você? É raro ter companhia.

– Oxe, bora – falei meio gago da surpresa.

Continuamos a corrida. Passamos pelo crematório, junto do heliponto. Cemitério chique. Perto da nova ala em construção, muitos minutos depois, arrisquei uma conversa.

– É bom correr aqui, né?

– É um lugar de paz e sossego.

– Só tem que tomar cuidado com esse piso de pedra. É meio perigoso pra torcer o pé. Fora isso, é beleza.

– O piso não me incomoda.

– E tem o vento! Bom demais! Refresca o calor.

– Eu não sinto calor, só frio.

– É minha primeira vez treinando por essas bandas. Você já tinha corrido aqui antes?

– Estou sempre por aqui.

– É mesmo? Vem muita gente todo dia?

– Sim, todo o tempo tem pessoas aqui.

– Podemos parar um pouquinho naquele banco? – apontei.

– Ali?

Tinha me dado um cansaço. Achei que o ar meio que esfriou logo depois que sentamos. Como nunca liguei muito pra frio, voltamos a falar.

– Eu não canso fácil – puxei um papo.

– Nem eu. Posso ficar horas correndo.

– Meu preparo está bom. Sou carteiro, sabe?

– Ah, uma profissão bonita. Conecta as pessoas.

– Pois é, mas acho que vou ter que mudar de trabalho. Isso tá me tirando o sono!

– Eu não tenho problemas com o sono, mas por que vai mudar?

– As cartas estão sumindo. Tudo eletrônico agora. Quer ver? Recebe muitas cartas?

– Não recebo ou escrevo há muito tempo. Nem sabia que ninguém mais escreve cartas.

– Tá vendo? Preciso achar logo alguma coisa pra fazer. Vão me mandar embora.

– O que gosta de fazer?

– Já pensei nisso. Eu levo jeito com serviços de casa, consertar coisas. Talvez conseguisse trabalho nessa área. Indicaria alguém para falar sobre isso?

– Não preciso disso há muitos anos.

– Mas, conhece quem precisa?

– Creio que não. Minha vizinhança é silenciosa. Ninguém tem o hábito de conversar.

– Entendo, mora aqui em Salvador?

– Moro aqui.

– Mudar de ramo assim, de uma hora para a outra, vai ser de lascar.

– É sempre uma opção, se você não está feliz com o que faz.

– Sabe de alguém que fez isso?

– Foi o meu caso.

– Sério? Tão jovem assim?

– Pois é. Acredite em mim. A vida é curta. Não é para perder tempo.

– O que você fazia?

– Eu era manicure em um salão na Avenida Sete, ali no Relógio de São Pedro.

– Ah, na cidade.

– Eu estava muito desanimada. Nada acontecia de interessante e eu nem era tão boa assim no trabalho. Aí vi um anúncio em uma revista sobre um curso para modelos.

– Ah, logo vi! Você é muito bonita!

– Obrigado, devo estar bem conservada. Já são alguns anos.

– Tá ótima! Mas, e a carreira de modelo?

– Ia bem, mas foi interrompida, de uma hora para outra. Houve um acidente.

– Como assim?

Nesse momento, se levantou. Ela me pareceu pálida, mas não com aquela cara de fraca ou cansada. Ela nem suava! Disse que precisava ir. Foi meio estranho, mas, raciocinei que todo mundo tem sua vida ou que eu tava perguntando demais. Bonitona daquele jeito, devia ter amigos, um namorado, alguém pra dar atenção. Mesmo assim, joguei um agá.

– Podemos continuar nossa conversa outro dia, então?

– Sim. Pode ser amanhã, mas não aqui. Vou lhe mostrar.

Caminhamos até uma cerca de metal. Lá embaixo, naquele mar de sepulturas, me apontou uma placa branca, junto da calçada.

– Nos encontraremos lá. Se esquecer a placa, grave aquela sepultura que tem um bonsai, aquelas árvores pequenininhas, sabe? Tá vendo?

– Combinado – fingi que sim, mas, além de estar longe, eu nem sabia o que era bonsai.

– Amanhã é uma data especial para mim – falou com um olhar esquisito e se despediu.

Fiquei sem entender a história da data e tomei o rumo da saída. Pouco depois, lembrei que não sabia o nome dela. Me virei, mas ela tinha vazado. Devia ter descido a escada para a rua de baixo, onde tinha uns carros estacionados. Me piquei.

No dia seguinte, cheguei um pouco mais cedo. Fui ao lugar marcado e achei a placa. Como tinha tempo, resolvi matar a curiosidade da árvore nanica. A sepultura era perto e igual às outras, com uma placa no chão e algumas flores. E o tal bonsai. Até aí, tudo bem. Acontece que tinha uma foto na pedra e inventei de olhar mais de perto:

Cristiane Lima dos Santos (*18-04-1970; +25-02-1994)

Achei coincidência ser a mesma data daquela quarta-feira. Mas, quando olhei a foto, me apavorei: a moça do dia anterior! E era o aniversário dela! Me tremi todo, véi! Ainda tava besta, morrendo de medo, aí ouvi uma voz de mulher cantarolar atrás de mim, meio arrastado:

– Parabéns pra você…

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