por Bruno Vicentini
O dia mal começou, um dia como qualquer outro, mas eu já me sinto cansado. Ontem o Brasil perdeu a copa, eliminado pela França nas quartas, gol de Henry, categórico. Ouço alguém dizer no café da rodoviária que vão fechá-la, desativá-la, Vão derrubar a rodoviária, Qual rodoviária?, Ué, como assim qual, esta, vão derrubar esse teto aí, em cima da tua cabeça. Mas… será possível. Seu Miro tá desolado, nem veio trabalhar hoje, imagina, são mais de dez anos aqui, não aceita ter que fechar a lanchonete. Quem diz isso é o funcionário. Três escutam no balcão, quatro comigo. Eu, mais distante, só ouço, não tomo parte na conversa, apenas um café com leite. É verdade, acabei de ler no diário, diz um. Mas como assim derrubar, pra quê, o que vão construir no lugar?, diz outro. O jornal não disse? Não, isso não disse. Vão esperar pelo menos a gente terminar o café? Risos, nervosos. Saio em direção ao meu ateliê, que também fica aqui, numa das salas comerciais, exatamente entre o letreiro que diz Tabacaria Veneza e o que diz Osvaldo Barbeiro, perto do terminal de embarque número onze, o último, então eu também devia rir de nervoso, ou estar tão preocupado quanto o coitado do Miro, devia talvez arrancar os cabelos que já não tenho, desesperar-me, mas na verdade sigo tranquilo e ao chegar percebo que a minha placa precisa de outra reforma, talvez de uma nova pintura. Lembro de quando a instalei, sozinho, animado. Parece que foi ontem. Lembro de cada vez que substituí a placa por uma nova e cada uma dessas vezes também parece ontem. Corro a porta de metal e acendo a luz, pensando em como meu trabalho se tornou insuportável. Nenhum alfaiate gosta de fazer ajustes. Ajuste sempre é urgente, a pessoa prefere comprar um terno pré-fabricado, que a deixa parecendo um espantalho, e então trazer pra eu resolver, Veja bem, a festa é agora, neste fim de semana… o senhor não pode me deixar na mão! Ora, não me diga, uma festa no fim de semana, quem poderia imaginar. Eu não me lembro da última vez que costurei um traje completo, do zero. E eu me lembro de tudo.
Continuo cansado. As eleições municipais acabaram de ocorrer, as primeiras diretas desde os anos sessenta. Estou pendurando a nova placa, que diz Leal Alfaiataria e Ajustes Finos, quando dois homens param embaixo da escada. Um deles é o candidato que venceu o certame, mas que ainda não tomou posse. Opa, cheguei cedo demais? Um sorriso insuportável, a cara de quem entende que o mundo é seu por direito. Não é o meu candidato. O outro deve ser seu leão de chácara. Tão franzino que só pode estar armado. O prefeito finge ser o que não é, um homem do povo, vindo até aqui pra fazer roupa. Faz parte da nova estratégia política da tão falada abertura. Os passageiros da rodoviária espiam de longe, curiosos. Eu desço, entramos, o leão fica na porta. As pessoas vão chegando mais perto, como se fosse urgente descobrir a cor do novo terno do prefeito. Transformam a vitrine do meu ateliê num gigantesco aquário, dois peixes dentro, pensando bem o prefeito tem mesmo uma cara de peixe. Ele folheia rápido o mostruário que eu lhe entrego, escolhe um pano azul petróleo. Uma cor pavorosa, mas que ele sabe que está na moda. Combinamos a entrega e ele sai, direto para os braços de seus eleitores, sem perguntar preço, sem deixar um cheque, nada.
Gosto de trabalhar sozinho, acompanhado apenas pelo rádio, um Zenith velhinho, mas que eu comprei novo, com o dinheiro das primeiras calças, logo que voltei a ser alfaiate e percebi que não gostava do silêncio. O aparelho envelhece comigo, fiel. Eu preciso de poucas coisas além de minha máquina de costura, tesoura, giz, linha de carretel. Perto do meio-dia resolvo conhecer a lanchonete nova da rodoviária, que é a mesma, a antiga, estão chamando de nova só porque trocou de dono. No caminho, passo por três garotos que andam de skate, um deles segura uma filmadora na mão esquerda, segue de perto os outros dois, que se jogam, um de cada vez, em direção ao corrimão da escadaria, tentam deslizar por sobre o longo cano. Correm, têm pressa, querem registrar uma manobra perfeita antes que o estardalhaço que fazem chame a atenção do segurança do terminal, que invariavelmente chega para tocá-los dali. Eles ainda tentam negociar uma última tentativa, mas acabam aceitando e somem. Amanhã voltarão e o expediente todo vai se repetir. Na lanchonete, reconheço logo o novo dono, atrás do balcão, cara de dono. Ele se apresenta, Prazer, Zulmiro. Você trabalha aqui na galeria? Sim, alfaiate, lá no fundo, quase a última sala. Ele me alcança um cardápio. O dono anterior não tinha cardápio, não precisava. Seu Miro, que ainda é Zulmiro, começa a reclamar dos garotos, Porra, que barulheira do caralho, esses filhos da puta tão aqui todo dia, eles não cansam, não? Ninguém toma uma providência, não tem homem nessa cidade? O dia que um delinquente desses se arrebentar em cima de uma velha eu quero ver. Seu Zulmiro, se você quer ver isso o problema é seu, eles não são delinquentes, são bons garotos. Delinquentes são aqueles riquinhos de Brasília que tocaram fogo num índio, só pra ver queimar o coitado, o senhor viu a notícia? Os skatistas amam essa rodoviária, eles amam esse chão, você nem sabe o que é isso. Eles já estavam aqui quando você chegou e vão estar aqui quando você for embora. Zulmiro não entende nada e sai, me deixa falando sozinho. O rádio da lanchonete toca a música da novela das oito, que diz que tudo à minha volta é triste e aí o amor pode acontecer de novo pra você palpite.
O nosso ônibus chega pelo terminal três, onde param os ônibus que vêm do norte pioneiro. Tudo parece novo e brilhante. Ela segura forte na minha mão pra descer os últimos degraus, com a outra mão protege os olhos do reflexo do sol, espera eu ir buscar as malas. Trazemos no rosto o riso besta dos recém-casados. Surge uma aglomeração, ela se encolhe, com medo. O povo cerca uma dupla de calças largas e camisas com franjas coloridas, pedem autógrafos, aparece até uma máquina fotográfica. Eu digo a ela, sabichão, que aqueles dois são Tião Carreiro e Pardinho, Eles se apresentam numa rádio da cidade, sabia que foi aqui que o Tião inventou o pagode, você conhece? É um novo toque de viola, diferente de tudo. Você gosta de viola? Em vez de responder, ela sorri, passa a mão nos meus cabelos. Nós vamos ser felizes aqui, bem. Você vai ver. Na carta meu tio disse que tem emprego pra você. Nem precisava ter trazido essa máquina e a tesoura, já sei, podemos vender, você não vai mais precisar de nada disso.
Alguém tem a bizarra ideia de uma cerimônia de demolição. A solenidade atrasa e começa num fim de tarde, já quase na hora de parar as máquinas. Pouca gente vem ver, por isso é fácil me aproximar do prefeito. Toma. Ele de alguma forma entende que aquele terno azul, empoeirado, fora de moda, não pode ser um presente. Mas isso é tudo que ele entende. Um dos garotos skatistas, o da filmadora, também está lá, é agora um homem com uma criança nos ombros. Ele me reconhece e sorri, mas eu não consigo sorrir de volta, estou exausto. Passei três anos, desde que fecharam a rodoviária, sonhando com o som de uma bola de demolição colidindo com a frente do prédio, mas isso não se faz mais. Agora basta uma retroescavadeira. Vou embora sem ouvir ruído algum.
