Um malbec maravilhoso

Fábio Kalvan

Sei que fui entrando na sala sem bater e joguei o relatório na mesa, impossível não ver as linhas de pincel atômico circulando o valor dos pagamentos realizados. A rigor, uma salinha, pouco maior que o território necessário para uma mesa, um gabinete e um armário. Já havia entrado outras vezes sem bater, por motivos outros, mais furtivos.

“Fica calmo, Roberto. Não é para tanto”.

Nada me irrita mais que essa frase… se antes eu desejava dizer que havia descoberto o esqueminha dele, depois eu queria é pegá-lo pelo pescoço.

“Não? Como não? E meu nome envolvido nisso”.

Sentia o sangue que abrasava meu rosto. O frio das mãos e do estômago discordava do calor do corpo, que vinha de dentro para fora e que me fazia sentir as primeiras gotas de suor a descer pelas costas. Era nervosismo mas também aquela merda de ar condicionado central, sempre desregulado: ou a gente morre cozido ou morre congelado. Pelo jeito hoje era dia de morrer ao ponto.

“Eu revisava os termos, conferia os valores e atestava as notas fiscais e depois você ia lá e mexia nos valores? É isso? Caralho, sou o fiscal do contrato e a merda vem para cima de mim”.

“Sim, eu sei, Roberto, mas as alterações são com minha senha, então meu nome também está registrado”.

“Eu posso perder o emprego, ser preso. Porra, como você tem coragem? E como a besta aqui nunca percebeu nada?”.

“Pois é, também não sei como não desconfiou logo de cara. Você já foi melhor”.

Faltou pouco para meter a mão na cara do filho da puta e no risinho de pouco caso. Segurei-me e troquei a violência pelas mãos na cintura e por um vai e vem de bicho preso, não mais que dois passos para lá e para cá. Carlos sentiu o ar pesado, se levantou e colocou a mão sobre meu ombro.

“Relaxa, só estava brincando, desculpa. Você está certo, isso não se faz. Ainda mais te colocando no rolo. Não é certo mas eu fiz. Pronto, confessei. Mais calmo?”.

Trabalho há quatro anos sob a chefia do Carlos e nunca tivemos problema, pelo contrário. Sempre o achei correto, dedicado e eficiente, mas faz uns três meses que comecei a desconfiar. Pedi ao João, do financeiro, que gerasse um relatório dos últimos pagamentos e constatei o trambique. Fiquei atordoado pensando nas consequências (processo administrativo disciplinar, sindicância) mas sobretudo porque não é esse o Carlos que eu conheço. Ou é?

“Esse meu ‘segredo’ tem um ano mais ou menos. É certo? Não, claro que não. Mas também não acho certo ficar tanto tempo sem reajuste, o salário diminuindo. E levando pancada do governo, da imprensa, como se fôssemos o mal do Brasil. Um dia o dono da terceirizada veio aqui, ficou com uma conversa estranha, pediu agilidade nos pagamentos. Resolvi ajudar. Todo mês ele me repassa a diferença que eu embuto nos pagamentos. É isso. Cansei de ser o santinho no meio da putaria que é esse país”.

Pela janela eu vi uma brisa nas árvores, pessoas saindo do prédio, correndo para aproveitar o restinho do dia. Mas na salinha o calor não cedia.

“Mas pode dar uma merda desgraçada. E se o tribunal de contas pega? Não é porque outros fazem que você deve fazer. E aquele seu papo de princípios, retidão?”.

“Menos, Roberto, não me venha dar uma de virgem imaculada. Primeiro que ninguém vai pegar nada, esse valor não vai chamar a atenção. Depois, apenas estou repondo minhas perdas, digamos assim. Você consegue levar uma vida decente com o que ganha?”

“Mas uma coisa não justifica a outra. Só porque ganha pouco vai sair roubando por aí?”

“Foda-se, Roberto. Eu não vou consertar esse país, já desisti. Um país projetado para não funcionar, nisso sim somos bons. E essa sua visão do bem contra o mal, aprendida em grêmio estudantil, está meio ultrapassada, desculpa dizer. Todo mundo tem seus pecados, é meio santo e meio safado. Você mesmo é bem safadinho quando quer, que eu sei”.

“Não começa, Carlos. Você está roubando dinheiro público na cara dura. Não conhecia esse seu lado cínico e inconsequente”.

“Bem-vindo à realidade, Beto. Não sou cínico, só realista. Um realista desanimado, que quer um padrão de vida digno. Gosto e mereço certos confortos de vez em quando, não acha? Você acredita que com meu salário eu ia conseguir comprar aqueles vinhos?” Inspirou e continuou: “E uma inconsequência de vez é quando é bom, não é?”.

O roxo da tarde começava a tingir a parede atrás de Carlos e a sala, mesmo com a luz burocrática eterna, assumiu aspecto de teatro de sombras. A temperatura lá fora devia ter caído, mas minhas mãos continuavam úmidas e senti um desânimo sobre os ombros. Os sons que atravessavam as divisórias me diziam que não havia mais tanta gente na repartição.

Carlos saiu de trás da mesa, se aproximou e colocou uma mão no meu braço enquanto a outra ajeitava a gola da minha camisa. “Sei que não está certo, mas é uma ninharia, não vou enriquecer. Não vai dar problema”. A voz dele havia perdido a acidez de pouco antes mas meu semblante devia denunciar a preocupação. “É só para uns mimos. Vai dizer que você não gosta?”.

“Mimos ou não, pode dar merda. Eu não sabia que seu dinheiro vinha disso. Preferiria não ter sabido… Taí algum mérito na ignorância”.

“Vai, desfaça essa cara e pare de filosofia. Se bem que essa tensão toda te dá um charme. E você sabe o quanto eu gosto de pessoas charmosas”, ele disse com um sorrisinho besta. “Não sei você, mas essa conversa me deixou exausto. Precisamos relaxar. Vem, Beto, vamos lá para minha casa…”.

“Cacá, você tem que parar com isso”.

“Parar com quê?”, perguntou enquanto apagava a luz e saia pisando seguro. Fiquei na sala, enfim na penumbra, sozinho com o último olhar que ele derramou sobre mim e com o zumbido do computador.

Agora estou aqui, deitado, ruminando toda essa merda e olhando para os detalhes do gesso no teto desse quarto que achei estiloso desde a primeira vez que nele entrei, ainda mais à luz do abajur aceso. No criado-mudo, duas taças e um malbec maravilhoso pela metade, como a indicar um trabalho interrompido por coisa melhor ou mais urgente. Cacá dorme gostoso, todo nu, ao alcance de minha mão. Além de tudo, tem isso: o desgraçado é muito gostoso.

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