por Filipe Masini
O ônibus faz o retorno em uma via secundária para entrar na rua principal do bairro. Conforme vai seguindo, percebo que nada mudou. É como se o tempo não tivesse passado desde a última vez que estive aqui. Tudo ainda está igual, menos eu. Com um movimento brusco, o ônibus para e é o sinal para todos descerem.
Há muito anos não voltava às minhas origens. Este pequeno distrito no município de Magé, nada tem de interessante, apenas um nome pra lá de curioso – não nos apressemos, voltaremos a este assunto mais tarde. O maior orgulho dos moradores é ser o lugar onde o Garrincha nasceu. De resto, a vida aqui não tem grandes acontecimentos. Da praça pra igreja; da igreja pro botequim; do botequim pra casa – nem sempre nesta ordem. Os dias passam invariavelmente desta forma.
Pego a minha mala no bagageiro e desço. No momento em que meus pés tocam o chão, vem em minha memória um filme de tudo que se passou em minha vida até então. Lembro bem daquele dia, quinze anos atrás, quando parti rumo ao Rio de Janeiro. Tinha comigo apenas uma mochila, uma nota de duzentos reais no bolso e um sonho: me tornar ator.
Desde criança, eu era fascinado pela televisão. Quando todos lá de casa se reuniam em torno da velha tevê, que ficava mais tempo passando estática do que a programação do canal, eu pensava: “um dia será minha vez de estar ali”.
Entretanto ao chegar na Cidade Maravilhosa, me dei conta de que não seria tão maravilhoso como imaginava. Após vários testes, percebi que se tratava de um jogo de cartas marcadas. Alguém conhecia alguém e esse alguém devia um favor para um outro e, assim, fui colecionando “nãos”. Apesar dos braços abertos do Cristo, o Rio de Janeiro não recebia nada bem quem vinha de fora. A realidade bateu na minha cara de mão aberta, sem dó. As coisas foram ficando difíceis e me vi obrigado a aceitar o que aparecia, pois precisava pagar as contas que se acumulavam. Recorrer à família estava fora de questão.
As circunstâncias foram me levando a produções cada vez mais alternativas e de baixo orçamento, até que recebi a proposta que mudaria minha vida. Pouco tempo depois, já era o principal ator de uma pequena produtora de filmes pornô chamada “Virginal Filmes”. Não foi fácil, mas trabalhei duro para conquistar o meu espaço. As pessoas diziam que eu tinha um talento enorme. O clima era muito bom entre todos da produtora, formávamos uma grande família (talvez não no sentido tradicional da palavra). Fazíamos de tudo por lá: desde atuar, limpar e arrumar o set, produção, figurino. Costumávamos brincar que éramos “paus e bocetas pra toda obra”. Meu currículo era repleto de clássicos como: “Jorrada nas Estrelas” e “O Senhor dos Anais”. Já estava até me aventurando a escrever roteiros. O primeiro foi “A Canoa”, uma história sobre um náufrago que participa de uma cerimônia em uma tribo indígena só de homens.
Mesmo bem sucedido e de ter realizado meu sonho de trabalhar na televisão, nunca falei para a minha família sobre a minha carreira. Eles jamais entenderiam… Todos eram católicos fervorosos e conservadores, sobretudo minha avó Maria. Quando me perguntavam como estava indo o trabalho, eu desconversava e dizia que meus projetos estavam em fase de produção e, por contrato, não poderia dar maiores detalhes.
Ando em direção à casa de minha família. Minha mãe me ligou há umas duas semanas dizendo que o Alzheimer da vó Maria tinha evoluído muito e que seria bom eu visitá-la, enquanto ainda estava lúcida. Evitei ao máximo a situação, não queria ser confrontado sobre as minhas experiências no Rio. Apesar de ator, sou um péssimo mentiroso.
Chego no portão da casa e bato palmas para chamar atenção. Minha mãe aparece de imediato e corre em minha direção.
– Juninho! Você veio, meu filho! Estava com tanta saudade. Sua avó não para de perguntar por você.
Respondo apreensivo.
– Também, mamãe. Feliz de estar aqui. Cadê a vovó?
– Deixe suas coisas no quarto e vá lá na varanda, ela está sentada na cadeira de balanço. Não se assuste, hoje ela está um pouquinho agitada.
Chego na varanda, após deixar minha mala no quarto. O meu nervosismo faz as palmas das minhas mãos quase pingarem. A sensação é que estou entrando em uma sala de interrogatório e sou culpado pelo crime.
– Oi, vó. Aqui é o Juninho, seu neto.
– Juninho? Que Juninho?
– Juninho que mora no Rio, que é ator.
– Ah, meu neto famoso!
– Não diria famoso, vó.
– Famoso sim! Eu vi até cartaz seu.
– Cartaz meu?!
Percebo nesta hora que a doença está avançada e não adianta argumentar.
– Tem feito muito filme? Conta pra sua vó.
– Eu participei de alguns projetos recentemente. Um era sobre um anel poderoso capaz de controlar todos os homens. O outro se passava em uma nave espacial com uma tripulação de seres humanos e alienígenas.
Ela fica em silêncio e seu olhar vazio se perde no horizonte. Estou um pouco aliviado de não ser confrontado ou ter que me explicar, mas é triste ver a minha avó deste jeito. Fico sentado ao seu lado compartilhando a mesma paisagem.
De repente, ela vira para mim com um olhar diferente.
– Meu neto, você pode pegar no armário do meu quarto aquele casaquinho bege? Deve estar na gaveta. Estou sentindo frio.
Respondo que sim e vou em busca do seu casaco.
O seu quarto é relativamente pequeno, mas muito arejado. Uma luz bonita entra pela janela e ilumina a coleção de santos e imagens religiosas que fica em cima de uma cômoda grande. Um crucifixo de madeira, acima da cama, vigia todo o ambiente. Abro a porta do armário e, após alguns minutos, localizo a gaveta e dentro dela, o casaco dobrado. Assim que o pego, meu mundo cai. Vejo, repousando como um tesouro precioso, um cartaz. Em primeiro plano, apareço caracterizado de hobbit. Atrás de mim, duas elfas se enroscam e um mago segura seu imenso cajado. Na parte debaixo, em uma tipografia à la Terra Média, está escrito: “Virginal Filmes apresenta: O Senhor dos Anais, estrelando Juninho Tripé”
Chego na varanda, ainda perplexo com a recente descoberta. Entrego o casaco para ela e, com os olhos sorrindo, ela diz.
– Meu neto, tenho tanto orgulho. Depois de Garrincha, você é o cidadão mais ilustre de Pau Grande!
Em seguida, seu olhar volta a ficar vidrado.
Se o restinho de consciência dela foi usado para fazer uma última piada ou foi só coincidência, jamais saberei.
Com um sorriso no canto da boca e uma tonelada mais leve, respondo.
– Sim, vó. Eu sei.
