Silvia Argenta
Faltavam cinco minutos para acabar o expediente. Cinco minutos. O plano era ir até o vestiário do térreo para tirar o uniforme, colocar a roupa e pegar o ônibus que passa todos os dias às 18h23 no ponto do outro lado da rua do prédio onde trabalho. A vida no modo automático não me dá opção a não ser fazer tudo como planejado no dia anterior. A possibilidade de imprevistos na minha rotina é zero. Mas faltavam cinco minutos.
A porta do elevador se abriu no décimo andar, e um homem entrou de cabeça baixa e nem me cumprimentou. Eu, sentada numa banqueta na frente do painel de botões, já sabia da resposta, mas mesmo assim perguntei. “Térreo, né?”. Ele não se deu ao trabalho de abrir a boca. Só arqueou uma das sobrancelhas e balançou levemente a cabeça. Ok, recado entendido. Aumentei o volume do fone de ouvido porque já tinha começado a tocar “Me Chama”, me virei para o painel e apertei o T.
Posso dizer que nem vejo a luz do sol. O dia todo fico no sobe-e-desce da caixa prateada, seguindo o mesmo caminho e apertando os mesmos botões. Meu médico já me avisou que minha vitamina D está baixa, que preciso compensar essa deficiência de alguma forma, que isso, que aquilo. Falou inclusive para eu fazer mais atividades ao ar livre. Pff… Que mané conexão com a natureza. Vou fazer o quê? Quero é ganhar meu dinheiro e pagar minhas contas.
Ele não entende. Meu trabalho é iluminado pelos meus passageiros. A maioria das pessoas me trata bem, dá bom dia, agradece quando chega ao destino. Falamos de novela, de política, da cor das minhas unhas. O mês de julho é o mais animado porque ganho vários presentes de aniversário. Chocolates, flores, canecas. Mas o que mais gosto são as caixinhas com cinco sabonetes da Natura. Fico cheirosa.
Por conta dos mimos, nem me importo com quem não percebe ou despreza minha existência, afinal Deus tem mais para dar do que o diabo para tirar. Só respondo quem é mal-educado. Não deixo barato. Uma vez um senhor pediu para ir ao subsolo. Expliquei com toda a paciência que Deus me deu que o prédio não tem garagem subterrânea. “Aperta o botão aí, minha filha, e para de me enrolar”, ele disse. Eu falei que no nosso prédio não tinha o caminho para o inferno, mas que se ele fizesse questão eu podia providenciar. Rapaz, a vontade era de puxar ele pelo pescoço e esfregar no painel para ele me mostrar onde estava o S, só que não deu tempo porque os outros passageiros conseguiram acalmar o homem.
Fora os bonzinhos e os sem noção, tem os que passam reto sem nem me olhar, tem os que me olham e não cumprimentam e tem os que me lançam olhares cheios de julgamentos. Quero nem saber o que pensam. Peço para onde querem ir, aciono o botão e me concentro no meu sonzinho. Só acho estranho esse tipo de comportamento com quem trabalha no prédio e me vê todo santo dia. O homem-da-sobrancelha-arqueada era um desses. Sempre de terno, pasta executiva e gel no cabelo, tinha os olhos sedutores e o semblante fechado. Para feio não servia.
Faltavam cinco minutos para eu ir embora e só estávamos nós dois no elevador. Ele ficou no canto oposto ao meu, bem embaixo do papel colado na parede prata sobre a dedetização do prédio no final de semana. No meu ouvido, “tá tudo cinza sem você, tá tão vazio”. Fechei os olhos para sentir a música e me deixei levar. Devo até ter dançado sentada. Quando acabou o refrão, me dei conta de que o tempo de descida estava maior do que o habitual. Do décimo ao térreo, dariam cinquenta segundos, mas já fazia mais de um minuto que tinha apertado o botão.
Conheço todas as manhas e os barulhos do elevador. Não sei nem dizer em quantas ocasiões fiquei presa por problema técnico, falta de luz, o diabo a quatro. Encaro tudo na santa paz, mas dessa vez ele estava funcionando normalmente. O único porém era o tempo. Senti um cheiro cítrico e virei para trás. O homem estava descascando uma laranja e me perguntou: “Vai uma vitamina C aí?”. Eu ri. Que caô era aquele? Eu precisava de vitamina D, não C. Tirei os fones e me levantei. Olhei para cima e o teto tinha sumido. A velocidade da descida era constante, e o céu estava cada vez mais longe. Aos poucos, o prata das paredes frias da minha caixa de trabalho se transformou em tons cada vez mais quentes.
Descemos por mais um tempo, o elevador parou e a porta se abriu. Eu nunca tinha visto aquele ambiente e não me mexi. Fiquei com medo de ter chegado ao quinto dos infernos. Não queria sair do meu canto claustrofóbico sem escapatória. O homem-que-para-feio-não-servia saiu e me chamou. Mesmo desconfiada, acompanhei. O lugar era aconchegante e me senti bem. Ele pegou na minha mão e começamos a passear, sem nenhuma palavra. A essa altura, eu já tinha me esquecido do ônibus pontual.
Fiquei feliz de estar ali. Caminhamos um bocado pelas ruas cheias de gente. Compramos milho de um vendedor ambulante, paramos num barzinho para tomar cerveja, conversamos, nos beijamos. Ficamos com o diabo no corpo. O calor desse fogo todo estabilizou minha vitamina D. Certeza. O ânimo do encontro jogou a apatia de tantos anos para escanteio. Não me importava se era paraíso ou inferno. Era bom e, pela primeira vez, vi o sorriso do homem-estabilizador-de-vitamina. Mas nós dois tínhamos de acordar cedo no outro dia. O cheiro cítrico voltou. Ele abriu a pasta executiva e pude ver que não guardava papel nenhum ali. Estava tomada por laranjas. Me deu uma para eu comer no caminho de casa. “É para manter a imunidade. O diabo não é tão feio como o pintam”, falou.
Trocamos telefones e nos despedimos. Revigorada e cheia de vitaminas, voltei para o elevador, apertei o T, fui para o vestiário e troquei de roupa. Sentada no banco do ônibus da madrugada, fiquei olhando pela janela os prédios passarem na velocidade da luz. Encostei a cabeça no vidro e nem me importei com os solavancos por causa dos buracos da rua. Aonde está você, me telefona, pensei. Sorri agradecendo por não ter cabulado os últimos cinco minutos do expediente porque, se abracei o capeta, queria mais. No fone de ouvido, Marina cantava: “nem sempre se vê mágica no absurdo. Cadê você?”.
