Uma chance de encontrar uma saída

Por Susy Freitas

 

Muitas décadas atrás, David Graeber cunhou termos opostos que, se combinados em determinadas características, descrevem o meu trabalho hoje. São eles: merda de emprego e emprego de merda. O primeiro engloba toda sorte de trabalhos ruins e pouco reconhecidos; e o segundo, aqueles que não tem utilidade nenhuma e existem num mar de burocratização e nonsense. Uma diferença entre eles é que a merda de emprego é mal remunerada, enquanto o emprego de merda enriquece muita gente (o que não é o meu caso). Posso dizer então que tenho uma merda de emprego de merda, uma profissão inútil, que paga mal e cuja existência talvez torne o mundo um lugar um pouco pior. Mas minha sorte está prestes a mudar.

Quando entrei na Jetzt, acreditava que muito trabalho e pouco dinheiro era normal, um status condizente com a posição de uma iniciante recém aprovada no Programa de Instrução Teórica e Prática do curso para Comissários de Voo Extrafísico. Me sentia sortuda por ter conseguido a vaga logo depois de ter sido aprovada nas avaliações finais da Agência Nacional de Projeção Astral e recebido o certificado médico obrigatório na mesma semana. Quatro anos depois, vi que fui apenas otária. A verdade é que em breve qualquer robô conseguirá fazer o que faço.

“Algum problema, comissária?”, pergunta um memorionauta que parece ter quase cem anos. “Quando vamos partir?”.

“Nesse exato instante, senhor”, respondo bem alto com um sorriso para que ele escute e veja. Então, ajusto um último conector na base de minha nuca, limpo a garganta e dou início à ladainha de praxe para um grupo de mais ou menos 12 pessoas. “Senhoras e Senhores, boa noite. Eu sou a Senhorita Castañeda e, em nome de toda a equipe, dou as boas-vindas a bordo do Jetzt 1704. O Comandante Timóteo e eu temos o prazer de recebê-los para o voo 2112, com destino à Lembranças de Infância. Solicitamos a sua atenção para os procedimentos de segurança que serão exibidos neste momento. O encosto de seu leito deverá permanecer na posição horizontal durante todo o voo. Os passageiros que desejarem utilizar a saída de emergência deverão solicitar auxílio mentalmente através de chamada desta comissária. Em caso de uma inesperada catalepsia projetiva de longa duração, nossos comissários estão aptos a atendê-los, de acordo com as normas da ANPA. Tenham todos uma excelente viagem!”.

E assim as luzes esmaecem e as máquinas iniciam os procedimentos, tudo igual a todas as vezes, de novo e de novo e de novo. Cada memorionauta recebe sua dosagem de sedativos, injetados num processo automatizado nas baias, enquanto Timóteo, na cabine, finaliza os últimos ajustes de personalização da experiência nos computadores de bordo. De certa maneira, os passageiros parecem bebês em incubadoras agora, entregues aos nossos simuladores e prontos para reviver suas memórias.

Ao contrário dos jovens, que rendem bilhões às empresas de simuladores de realidade alternativa, os passageiros da Jetzt são uma espécie em extinção: eles buscam lembrar, lembrar indefinidamente. Voltam à infância, a um abraço no colo da mãe, à cumplicidade dos primeiros amigos da escola ou aos esconderijos nas brincadeiras com os irmãos. Retornam a esses momentos e pedem que passem muito devagar, que nossos sistemas expandam a sensação de tempo, que os purifiquem, e ficam nessa memória da memória por sessenta minutos ao custo de quantias cada vez mais módicas. Meu trabalho é atentar para o conforto e segurança da viagem, entrando com eles em seus passados e oferecendo toda a assistência em momentos delicados, seja no aspecto físico ou psicológico. Sou como uma extra num grande plano, impossível de ser identificada ou sentida, a menos que solicitem uma mudança em minha marcação de cena.

“É uma geração de crentes”, resumiu Timóteo logo quando começamos juntos na empresa, ainda lembro, do outro lado da sala, com o olhar. “Acreditam que estão em contato com alguma forma de realidade objetiva, que voltam no tempo”.

“Nunca enxergam as lacunas da memória”, concordei na época. “Veja só a viagem do 009. Ele não percebe que a mãe não tem pés. O rosto dela não é tridimensional porque essa imagem dela é de uma fotografia”.

“A traição das imagens”.

“Embala-se no colo de uma aberração”, continuei. “O quarto só existe até os limites da composição. No fim das contas, sabe-se lá se é uma lembrança de algo real ou a confusão de uma mente senil.”.

Hoje enxergo os grupos de idosos e sinto que ainda conservam uma doçura antiquada. Por isso lembram. Querem voltar às próprias ruínas, acreditam que estão com os pés na realidade aqui. São como crianças, e não cínicos como os jovens, a quem a memória é não apenas dispensável como desprezível. Em máquinas de simulação cada vez mais brutalizadas, afundam-se em suas cápsulas, assistidos por inteligências artificiais que lhes permitem uma gama infindável de simulações. Tornam-se astros da música, pedófilos, o que quer que lhes dê na telha e registram seus feitos na Grande Rede, em busca de influência e dinheiro, dia após dia, noite após noite, como zumbis. Se são gordos, lá dentro ficam magros. Se não magros, querem ser plantas ou, por vezes, sequer seres sencientes. Odeiam o que quer que captem pelos próprios sentidos sem estarem ligados a uma máquina. Já os velhos sequer solicitam que as viagens sejam gravadas, mesmo com o serviço sendo oferecido gratuitamente. É como se sonhassem, só que liga e desliga.

“Eles não notam, nunca notam”, completa Timóteo agora, orgulhoso de nosso voo atual, mais uma vez enviando sua voz pelo arremedo de telepatia que as máquinas nos proporcionam. “É bonito, não?”.

“É mórbido”, respondo. “Parecem todos mortos. São tão velhos”.

Timóteo se vangloria por pilotar as simulações da Jetzt de forma a construir preenchimentos personalizados para as falhas da memória selecionada com uma aparência bastante orgânica. Devido à natureza sensível de consumo das viagens, ele ainda não pode ser substituído por uma inteligência artificial com sucesso, ao passo que a minha função, essa sim já é exercida por robôs nos países de ponta. Aqui, os velhinhos gostam de saber que alguém de carne e osso está ao seu lado, fazendo todas as verificações adicionais necessárias para um voo tranquilo.

“Pronto”, decreta Timóteo. “Eles chegaram na altitude correta. Vamos começar?”.

“Sim”.

E iniciamos nossa rota paralela. Enquanto Timóteo garante a solidez da viagem de nossos memorionautas, vasculho outros cômodos, não na Jetzt, mas através dela, fundo na mente de nossos passageiros. Coleto senhas institucionais, dados bancários e materiais de chantagem diversos de alguns deles, sempre um seleto grupo dentro do grupo, algo difícil de rastrear, eu diria impossível, uma vez que não é uma máquina que invade esses cantos chave, mas dedos muito delicados numa agradável massagem.

O 006, por exemplo. Aposentadoria polpuda, empreendimentos na área naval em nome da esposa, uma casa secreta nas Keys onde passa uma temporada com amante e filho Danny de sete anos sob o pretexto de cuidar dos negócios com um parceiro na Flórida. Vejo a tudo como flashes, e ao mesmo tempo, como o cinema, mas no fundo é apenas uma sensação: isso acontece, isso aconteceu. Encontrar as informações certas é como bater carteiras, no fim das contas. Por vezes, atento a detalhes que são como clipes ou papeis de bombons nos bolsos dessas lembranças, apenas pelo romantismo da situação, mas ao fim do dia, Timóteo recebe o relatório de nossa pequena ação terrorista. E, até o fim do dia, a conta bancária do 006 estará limpa.

Continuemos. A 003, nossa próxima vítima, não oferta tantas possibilidades, mas eu só descubro quando mergulho. Ela me faz lembrar que um dia de trabalho é sempre um dia de trabalho. Seus tesouros consistem no carrinho verde do filho, falecido há 8 anos fazendo vruuuum! no pátio da escola antes de voltar para casa, ou o seguro de vida que mantém escondido do marido até hoje, confidenciado apenas para a filha mais nova. Seus pequenos dramas e traumas inconclusivos encapsulados num raio. Eu poderia criar uma tempestade, azucrinar esse voo. Cinco ou quatro comandos mal executados e um dano cerebral permanente. O fim da 003. Mas passo para o próximo passageiro e depois outro e outro, até o décimo segundo. Sinto o sono de alguém que não sou eu.

Dias depois, encaro o horizonte sob o luar. Encaro algo que parecem ondas, mas não; o banzeiro espuma branco na extensão da areia da praia cada vez menor. Lá longe, a cheia já consumiu a paisagem, e árvores e pernas de palafitas foram engolidas por sua sede descomunal. Sentados à mesa de jantar de um jungle hotel, eu e Timóteo ardemos do sol de mais cedo. Uma chance de viver, uma chance de encontrar uma saída.

“É o que Graeber gostaria”, diz Timóteo.

“À libertação!”, e brindamos nossa gim tônica em taças estilizadas que suam e escorregam nos dedos. O garçom traz nosso tambaqui ao molho de cupuaçu e ervas, e o aroma cria sua própria rota através do Rio Negro. O crime compensa.

Três e quinze da manhã, quinta-feira. Desligo os equipamentos e retiro o capacete da cabeça. Os delírios cotidianos da Srta. Castañeda continuam na próxima simulação. Abro o micro-ondas com cuidado, para que mamãe não acorde e me ralhe. Lá dentro há um rastro de molhos e casquinhas de pizza que geram uma versão do quadro de Pollock que vi na aula da Artes semana passada. Opto por engolir folhas do salame fatiado da geladeira. Da janela da cozinha ainda fechada, vejo entre as cortinas uma nuvem maciça de fuligem e poluição sobre a cidade em arritmia que some e reaparece conforte o vento irritante do refrigerador. Meus dedos estão salgados. Tenho nojo. Daqui a algumas horas, tenho aula.

Deixe um comentário