Sementes do Jardim

Sempre gostei de plantas. Prefiro plantas às pessoas. Plantas me demandam pouco . Não sei dizer se virei jardineiro por isso ou se me interessei mais pelas plantas, já que virei jardineiro. 

Quando me chamaram para cuidar do jardim de Dona Anita, eu era jovem. Não tinha experiência. Seu marido, Sr. Antônio, ainda era vivo e foi ele que me deu a notícia que minha mãe, sua cozinheira, fora atropelada. Ela nunca mais voltou do hospital. Foi assim que me acolheram no quartinho dos fundos da casa, onde minha mãe trabalhou por tantos anos.

 Gabriela, filha do casal, devia ter a minha idade. Quando pequenos brincávamos juntos no mesmo jardim, enquanto minha mãe preparava o almoço de domingo. Me mudei para sua casa na mesma época em que ela foi estudar no exterior. Só voltou, anos depois, quando Seu Antônio faleceu. Já estava casada, mas preferiu vir sozinha para o Brasil para se despedir do pai. Não ficou por muito tempo. O suficiente para as nossas brincadeiras de infância ganharem outros contornos. Vidas distantes em um jardim que exploramos juntos. No princípio eu estava tão enterrado quanto as cabeças de cebola cultivadas na horta. Sentados nas raízes da seringueira, fomos revolvendo o passado, regando, sem pressa, amadurecendo. O Chorão nos acolhia no seu interior, formava um abrigo, e o mundo se escondia.  A relação foi breve e interrompida. Ela teve que retornar. Mal nos despedimos. Não tínhamos o que dizer. Plantei o vaso que ela deixou na mesa da sala de jantar. 

Dona Anita começou a envelhecer mais rápido do que as floradas da Jabuticabeira. Sua doença embaçou os passarinhos e as folhas que varria acompanhavam a textura da sua pele. Ainda assim, colhia flores para enfeitar a mesa e sua tolha de renda branca.

Um dia ela voltou. Sem aviso. Chegou verão em pleno julho e trouxe luz para a casa, agora tão escura, e um filho pelas mãos. Ele devia ter uns 7 anos. Nos encontramos de longe, no nosso jardim. Andava sozinho, devagar, catando as pedrinhas que eu gostava de colecionar. Escutei minha mãe me sussurrar para não guardar lembranças no bolso. Mantenha, no jardim, o que é do jardim, me disse ela. Foi como um vulto. Esse recém-chegado me remeteu a sentimentos que já tinha podado. Evitei ver Gabriela e seu filho. Espiava, escondido, pela janela, enquanto ele brincava na sala com sua avó, sentada na sempre cadeira de balanço. Aos domingos, Gabriela o deixava em companhia de Dona Anita com a desculpa de que iria à missa.  Um pretexto para deixar algo brotar. Nunca descuidei do vaso, das flores ou da janela. Demando pouco, mas de sementes eu entendo. Gosto de acompanhar seu crescimento. Também fui concebido no jardim.

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