Um bom pai

Ian Perlungieri

– Quinto.

– Eu disse quarto, porra. Quarto. – e sai. O iPod fica no ouvido, mas a mão que não segura o aparelho parece que me atacaria se não estivesse ocupada carregando uma sacola da Tiffany.

– Perdão, senhor.

Mas ele dá as costas para mim e segue seu caminho. Faz um comentário maldoso sobre minha condição mental para a pessoa com quem estava no telefone e dispara com passos firmes para longe do elevador. Fico ali dentro, sentado e encarando os botões. Enquanto as portas se fecham, ouço as batidas das Black Boots dele contra os degraus da escada de incêndio.

Respiro fundo e lembro do meu pai. A situação me é familiar. Não duvido que ele já tivesse me contado alguma história semelhante, de algum ascensorista imbecil que tenha errado o andar dele. Ele estaria com um Samsung no ouvido e carregando uma sacola da Hering. A mesma grosseria, mas com outras marcas.

O elevador dá o seu leve tranco e sobe. Ali dentro eu, Deus e agora meu pai, que não sai da minha cabeça. Ele era um bom pai, mas grosso. Grosso com os garçons, com os funcionários públicos, com as recepcionistas. Ele seria grosso com as empregadas se tivéssemos uma. Grosso com os funcionários da padaria, da farmácia, do banco. Grosso. Grosso com os ascensoristas.

– Sobe.

Paro no oitavo andar. Troco um sorriso com uma mulher que invade o elevador em silêncio. Ela carrega uma Louis Vuitton nos ombros, mas veste um falso Gucci, provavelmente do Brás. Está muito parecido com o original para ter sido comprado na Vinte e Cinco. Questiono se meu pai teria orgulho de mim. Ele nunca foi grosso com a família, mas estou em um elevador quatro horas por dia. Pelo menos não visto falsos Guccis. Assumo minha posição e uso a roupa da empresa. Fora daqui, faço meu papel e uso coisas sem marcas vindas da Feira da Madrugada.

Mas admito que estou em fase de negação. Não importa. Se não dividíssemos o laço de pai e filho, eu seria só mais um qualquer. Mais um idiota. Mais um ascensorista imbecil. Ele era um bom pai e fingiria se orgulhar de mim quando, na verdade, o seu maior desejo era o de ver o filho engenheiro, médico ou doutor. Ele adoraria me tratar como o rapaz da Tiffany fez. Ele adoraria ser o rapaz da Tiffany. Ele me chutaria o suficiente para eu ficar sem ar, mas não com tanta intensidade para que eu não manchasse de sangue as suas Black Boots.

– Moço?

Viro-me para ela a tempo da pouca luminosidade refletir o Apuro Vinho da Risqué em seus lábios. Ela mantém o sorriso, embora agora parecesse um tanto constrangido. Ela aponta para o teto do elevador. Ali, em meio às luzes artificiais, a mancha escura de uma goteira, que pinga em um intervalo regular de sete segundos e umedece, aos poucos, o carpete sobre o qual eu, Deus, meu pai e a mulher do falso Gucci nos encontrávamos. Levanto-me do meu banco e encaro a mancha quando o elevador dá o seu leve tranco e paramos no décimo primeiro andar. A mulher do falso Gucci sorri para mim pela última vez e desce deixando-me ali sozinho com aquela goteira.

Fico parado por vinte e um segundos observando as três gotas seguintes deixarem suas marcas no carpete antes de pegar o meu banco e posicioná-lo próximo da mancha no teto. Subo nele e toco na parte úmida, sem entender como um prédio na Avenida Paulista teria uma irregularidade como aquela. Nossa, a ira dominaria meu pai se ele se molhasse no elevador da Avenida Paulista. Lógico que sobraria para o ascensorista.

O banco balança sob meus pés algumas vezes quando tiro a camisa da empresa. Me equilibro e tento usar a parte de dentro do uniforme para secar o teto. Ali era o meu elevador. Minha responsabilidade. Se a goteira, em seu intervalo rítmico de sete em sete segundos, pensa que vai invadir meu elevador sem a minha permissão, ela está muito enganada. Esfrego minha camisa contra a mancha dizendo para ela que eu não era imbecil. Ela sim é que é imbecil. Mancha imbecil. Goteira imbecil.

O elevador dá o seu leve tranco e um dos meus pés perde o apoio do banco. Recupero o equilíbrio pressionando minha mão contra o teto e sinto a viscosidade da mancha em contato com a pele pela primeira vez. Sem a camisa como agente intermediário, meus dedos ganham uma nova camada densa, como se eu o mergulhasse em um barril de banha suína do Delícias de Porco.

Fungo o indicador afetado quando as portas do elevador se abrem. Ali fora, um idoso exibindo uma Montblanc no bolso de seu Armani me encara com certa surpresa. Seu silêncio diz tudo e volto a esfregar o teto com força.

– Pode entrar, senhor. Já estou terminando aqui.

O cheiro do meu dedo me lembrava o cheiro químico de sangue, mas misturado com Habib’s e CPTM. Acredito que seja o mesmo cheiro que eu exalava quando voltei para casa após pisar em falso no vão entre o trem e a plataforma. Meu pai reaparece em minha mente. Ele era um bom pai e acredito que ele nada falaria se ele sentisse meu cheiro naquele dia. Muito pelo contrário, ele daria todo o apoio que o imbecil do seu filho não merecia.

O idoso do Montblanc não parece gostar muito de ter que pressionar o botão do térreo sozinho. Somado a isso, o som repetitivo da camisa da empresa sendo esfregada no teto nos incomoda. A ele, a mim, a Deus e ao meu pai. Entre o sétimo andar e o sexto uma das gotas cai em seu Armani e ele desiste de nós, pressionando o botão do sexto andar. O elevador dá o seu leve tranco e para. O idoso do Montblanc desce sem me encarar, mantendo seu silêncio estrondoso.

Admito que estou em fase de negação. Desço do banco e desisto de secar a mancha. A goteira mantém seu ritmo de queda junto ao elevador enquanto recoloco a camisa, agora com um rasgo após tanto esfregá-la no teto. Não apenas não consegui fazer meu trabalho como também destruí a camisa da empresa, a melhor marca que eu tinha. Não me permito pensar no que meu pai diria se me visse naquela situação.

Paro no quarto andar. De frente para mim, o homem da Tiffany abalado, agora sem a sacola e com uma roupa sem marca. Pelo volume em suas calças, o iPod jazia em seu bolso. Ele entra no elevador.

– Cara, desculpa. Eu fiquei sabendo de uma notícia meio merda e acabei descontando em você. Desculpa mesmo. Eu sei que isso não justifica o jeito que eu falei contigo, mas nossa. Desculpa, de verdade.

Ele estende a mão para mim e diz o seu nome. Trocamos um sorriso honesto, sem manchas ou marcas, daqueles que só o meu pai sabia dar. Me lembro de meu pai. Um bom pai. Um ótimo pai.

Links:
Livro Eu Nunca tinha Passado por Aqui
Curta Ao Som da Chuva

Currículo Ian Perlungieri

Deixe um comentário