Ian Perlungieri
Quarta-feira
Hoje a mãe repetiu que eu devia ser que nem minha irmã e eu perguntei qual delas. Suzana, Samantha e Silvete também estavam no quarto e riram bastante. É lógico que ela tava falando da Sandra.
Ain, a Sandra faz isso, a Sandra faz aquilo, a Sandra traz dinheiro para casa, a Sandra é a única que me respeita.
A Sandra nem volta pra casa sempre. Ela fica mais dando pro namorado do que qualquer outra coisa enquanto a gente faz todo o trabalho daqui. Limpa, passa, cozinha, lava. A vagabunda nem arruma a própria cama. Só levanta em cima da hora e sai. Nem um obrigado por ajeitar as coisas dela.
Que saco.
Meu sonho essa noite foi com a Suzana. Uma mistura de vídeo do Tik Tok com filme de terror. A gente estava dançando uma coreografia juntas quando a música parou. Depois, nós saímos do celular e tentamos achar a mãe, mas a gente não a encontrou. Descobrimos que ela estava dentro do celular o tempo todo. A mãe e Sandra. Eu e Suzana tentamos entrar de volta no celular, mas a gente não conseguia.
Amanhã vou em uma entrevista de emprego. Quem sabe eu não faço que nem a Sandra, né?
Quinta-feira
Hoje foi um inferno. Eu tava indo para a entrevista quando a mãe ligou e me mandou ficar em casa porque a Sandra tinha esquecido um documento e estava sem a chave. Insisti para a mãe que precisava ir para a entrevista e que não era problema meu, mas ela não quis saber. E mãe é mãe.
Fiquei lá esperando a bonita que demorou ainda meia hora para chegar e nem agradeceu direito. Ela foi direto pro banheiro enquanto o namorado ficou na porta esperando. Pelo menos eu me permiti fazer um pouco de graça. Eu já tinha perdido a entrevista mesmo e precisava me divertir um pouco. Ele é ciumento e perguntei se ele e Sandra tinham se divertido no final de semana. Ele ficou todo perdido e respondeu que ela estava trabalhando. Eu desconversei, mas a cara dele já foi o ó. Mesmo que eu não tenha visto o arranca rabo depois já valeu a pena ver aquela cara de tacho.
Agora alguém também estava odiando a Sandra.
Meu sonho essa noite foi com a Samantha. A gente estava em uma sala de aula que estava cheia de flores, como se misturasse uma escola com um jardim. A professora falava sem parar, mas numa língua que a gente não entendia. Sandra estava lá também. Ela fazia o que a professora mandava e eu e a Samantha levávamos várias broncas. A professora chegou a nos ameaçar com uma régua de madeira enquanto a Sandra sorria e fazia um anjo de neve na grama.
Amanhã vou fazer o de sempre. Limpar, passar, cozinhar, lavar. Ver se arrumo o quarto da mãe e coloco aqueles incensos que ela gosta.
Sexta-feira
Hoje a mãe perguntou se a Sandra tinha mandado alguma mensagem, já que ela avisa quando vai dormir no namorado. Olhei meu celular e nada. Nem no grupo da família, nem no grupo das irmãs e nem no grupo das irmãs sem a Sandra. A Suzana e a Samantha também pareceram preocupadas, mas fico sem entender o porquê.
A Sandra não é esse anjo todo. Ela deve estar por aí. Talvez tenha brigado com ele e esteja chorando na casa de uma amiga. Ou eles se reconciliaram e foram pro motel. Bom, seja o que for eu já tô até vendo que não vão reclamar quando ela reaparecer. Nem uma chamada de atenção, nem uma ameaça, nada.
A mãe nem notou o incenso no quarto dela.
Meu sonho essa noite foi com a Silvete. A gente comprou uma casa juntas e estávamos começando a mobiliar tudo. Tudo era verde. O guarda-roupa, a cama, o sofá. A gente pensou em comprar um telefone verde também, mas depois desistimos porque não tínhamos mais ninguém com quem falar.
Amanhã vou comprar umas roupas novas para a mãe. Uma das camisetas dela rasgou hoje e ela está precisando mesmo renovar o guarda-roupa. Elas não sabem, mas eu ainda tenho um pouco da mesada que a nossa avó nos dava.
Sábado
Hoje eu cheguei e tava tudo uma correria. Eu já podia imaginar que seria assim por conta dos seguidos status da Suzana no Whats. Eu vi um só, em que ela tava pedindo ajuda para encontrar nossa irmã. De novo esse inferno.
Pior foi quando cheguei em casa. Samantha já tinha ligado para a escola e até Silvete estava ligando para Deus e o mundo. A mãe tava chorando no quarto. Ficava querendo me contar que o namorado da minha irmã também tinha sumido e tava toda desesperada. Eu falei pra mãe ficar tranquila, que ela logo ia voltar. Dei a camiseta nova para ver se animava a mãe, mas ela nem quis experimentar. Só continuou chorando e usando a camiseta para secar o rosto.
Fiquei puta, mas tentei disfarçar. Nem uma pergunta sobre como consegui o dinheiro para a camiseta. Nem um elogio por ter poupado. Nem um nossa, a sua irmã gastava tudo assim que recebia. Nem um parabéns.
Que merda.
Meu sonho essa noite foi com a mãe. Estávamos sozinhas perdidas numa espécie de floresta. Ela estava com fome e queria comer um cogumelo, mas eu lembrava de ter visto no National Geographic que aquele cogumelo era venenoso. Eu avisei isso pra ela e implorei para que procurássemos alguma outra coisa. Ela comeu mesmo assim.
Amanhã vou descobrir onde aquela maldita está. Queria poder bater nela por ela ter feito a mãe chorar, mas tenho certeza de que acabariam me xingando se eu fizesse isso. Todo mundo preocupado com ela. Mimimi.
Domingo
Hoje eu tava saindo para comprar pão quando vi a polícia. Foram comigo que falaram primeiro sobre a Sandra. Encontraram o corpo dela em um beco do bairro do namorado, mas ele ainda estava desaparecido.
A mãe desabou. Todas desabaram. A polícia ainda ficou ali enquanto elas choravam e eu fiquei em um canto. Não sei se eu estava em choque ou o quê. Fiquei pensando que não podia ser real. Só podia ser um tipo de sonho. É lógico que a Sandra está bem. Ela sempre está bem.
Meu sonho essa noite foi verde. Tipo, ele começou tudo preto, como se eu estivesse no escuro. E aí, foi ficando verde. Eu só vi o verde e escutava gritos de mulheres. Mas não eram os gritos da minha mãe. Eram mais agudos. Quase uma sirene.
Amanhã vou acordar e descobrir que hoje não existiu. Que hoje é um sonho. Vou acordar e a mãe vai estar usando a camiseta que eu dei para ela.
Segunda-feira
Hoje eu descobri que não era um sonho. O velório da Sandra teria que esperar porque o corpo ainda estava no IML. Parece que ela foi esfaqueada.
Em casa foi um inferno. Minhas irmãs não paravam de chorar e a mãe quebrou tudo que tinha no quarto dela. Rasgou a camiseta nova. Sujou tudo que eu tinha me esforçado tanto para limpar. Ninguém perguntou como eu estava. Ninguém falou comigo direito. Nem pessoalmente e nem nos nossos grupos. Eu até mandei um sticker no grupo que éramos só as irmãs e comentei que poderíamos deletá-lo, já que agora nenhum dos grupos tinha a Sandra.
A Sandra nem está aqui, por que estão dando essa atenção toda se ela não está aqui? Ela nunca esteve aqui.
Meu sonho essa noite foi com a Sandra. Ela estava em um caixão, mas eu era a Sandra. Eu não conseguia me mover, mas vi todas ao redor de mim. E chorando por mim. E tocando em mim com carinho. A mãe chorava demais e usava a camiseta que eu tinha dado para ela. E o cheiro do lugar era do incenso que eu coloquei. E estávamos no nosso quarto, comigo no centro. E, de dentro do caixão, eu sorri. E eu estava muito feliz.
Amanhã vou
Links:
Livro Eu Nunca tinha Passado por Aqui
Curta Ao Som da Chuva
Currículo Ian Perlungieri
