Silvia Argenta
20 de outubro de 1997
Ainda cedo comentei com Jeannie sobre como estava disposto. Ela fez um café da manhã caprichado, com panquecas e o bacon escondido no meu preferidíssimo eggs benedict. Depois de algumas semanas, enfim consegui completar uma refeição. E estava uma delícia. Em troca, enchi o pescoço dela de beijinhos. Ela entrou de férias para fazermos pequenas reformas no apartamento. Temos de pendurar novos quadros, ajeitar a maçaneta do quarto, trocar o chuveiro por outro melhor. A cada dia, encontramos mais serviços para fazer. Às vezes sinto um pouco de culpa porque olho para Jeannie e penso em Sarah. Há uns vinte dias, liguei para ela, mas não me atendeu. Hoje eu queria fazer uma nova tentativa, só que passei mal. Senti uma tontura por volta das 15 horas, quando me abaixei para pegar o alicate na caixa de ferramentas. Jeannie se assustou e ligou para o hospital, que mandou uma equipe de emergência. Resultado: acabei internado novamente. Já me acostumei a ser manipulado pelos enfermeiros. Tiraram várias amostras de sangue e amanhã já devem sair os primeiros resultados dos exames. Fui medicado e estou sozinho num quarto. Acabei de ver um jogo de futebol americano. Buffalo Bills ganhou de Indianapolis Colt. Ao menos uma notícia boa. Estou ansioso para voltar para casa. Jeannie tirou a foto do dia.
Foto n. 6692

21 de outubro de 1997
Acordei enjoado, pensando em Sarah. Por um lado, estou triste por estar internado de novo, mas, por outro, estou feliz por estar mais próximo dela. Logo cedo, já fiz o cálculo de quantos passos de distância estamos. Se eu fosse pela escada, dariam 41 passos. Pelo elevador, acho que metade disso. Não sei se ela, como diretora do hospital, recebe algum relatório diário com todas as pessoas internadas. Se recebe, nem deve ler. Por isso, pedi para a enfermeira, Paty, avisá-la de que estou aqui. Um pouco antes do almoço, o telefone tocou e pensei que fosse Sarah. Era Jeannie, perguntando se eu precisava de algo. A Polaroid. E a caixa de fotos. Pedi que trouxesse para deixar aqui no quarto comigo. Não chegaram os resultados dos exames, então ainda não tenho perspectivas de quando saio daqui. Apesar das dores de cabeça, me senti animado. O dia estava claro, sem nada de nuvem e uma leve brisa balançava a cortina. Fiquei entretido por um bom tempo com o movimento do tecido. Cada vez que ele se mexia, a luz do sol dançava pelo chão do quarto. De tarde, recebi a visita de Jeannie e mamãe. Sempre animadas, contaram os causos de nossa vizinha barraqueira, que agora expulsou o marido de casa aos berros. Logo ele volta, como sempre. No início da noite, mamãe foi embora, e eu e Jeannie jantamos sopa de batata. Ter minha família por perto me faz muito bem. Pedi para Paty, a enfermeira, tirar a foto do dia.
Foto n. 6693

22 de outubro de 1997
Jeannie dormiu aqui essa noite, que foi agitada. Acordei várias vezes para vomitar. Estou comendo bem na medida do possível, mas me senti fraco para ir ao banheiro. Então, ela deixou um balde do lado da cama. A cada uso, ela levantava da poltrona onde dormia sentada, o lavava no box e o colocava de volta na mesinha lateral. Passei o dia deitado, até mesmo quando minha irmã e meu cunhado vieram até o quarto. Contaram das travessuras do meu sobrinho, que é o moleque mais alucinado que já vi. Dessa vez, ele, com só onze anos, pegou a moto do vizinho sem avisar e deu uma volta pelo bairro. Nada aconteceu, mas que susto! E eles contam dando risada… Aqui no hospital, tem restrição de visita. Por isso, minha família e amigos montaram o “cronograma Jamie”. A cada dia, um grupo vem me ver. É muito bom! Só Sarah que não aparece, apesar de a enfermeira ter me dito que passou o recado. Já era noite quando Jeannie foi para casa e minha mãe chegou para dormir comigo. Nessa troca de turnos, liguei para a direção do hospital pelo telefone do quarto. A secretária atendeu e disse que Sarah já tinha ido embora. Nada dos exames. Estou começando a ficar preocupado. Jeannie tirou a foto do dia.
Foto n. 6694

23 de outubro de 1997
O dia começou com muitas risadas. Contei para mamãe sobre o sonho que tive. Estava numa festa, e alguém teve a ideia de colocar hortelã no vinho tinto. Peguei a hortelã, fiz um chá e bebi muito rápido, antes de cometerem esse sacrilégio. Não sei por que não tomei o vinho, mas vai entender… Povo ficou possesso e veio atrás de mim. Saí correndo e fui parar numa fonte de água que jorrava sorvete de uva. Lambuzei o corpo de sorvete como se fosse creme hidratante e ninguém conseguia me segurar. Na verdade, sempre fui ladino mesmo. Quando conheci Sarah, nós dois tínhamos 22 anos. Papai tinha me dado uma Polaroid de presente, e foi ela que me deu a ideia de fazer uma foto por dia. Ela foi o objeto do meu primeiro clique, em 1979. Nem sei por quanto tempo namoramos. Reconheço que fui o cara mais babaca da vida dela. Eu era muito jovem, muita testosterona… Queria dizer isso para ela. Lembrar isso tudo. Pedir perdão. A enfermeira e o médico trouxeram os resultados dos exames, que me desanimaram bastante. Saí do quarto para fazer mais exames para confirmar e era isso mesmo. Pela terceira vez, o tumor no cérebro voltou. Amanhã devo reiniciar a quimioterapia. No “cronograma Jamie”, hoje foi o dia de receber os amigos cinéfilos para conversarmos mais uma vez sobre o grande lançamento do ano: MIB – Homens de Preto. Escrevi um bilhete para Sarah liberar uma das salas de descanso dos profissionais do hospital e pedi para a enfermeira levar para ela. A resposta foi rápida, me autorizando. Fiquei feliz porque senti que de alguma forma ela começou a ceder para deixar o orgulho de lado. Passei a tarde com John, Peter, Grace, Andy e Carrie, esperando que ela viesse me ver, mas não apareceu. São 19 horas. Vou dormir bem cedo. Estou cansado.
Foto n. 6695

24 de outubro de 1997
Hoje a vontade foi de andar pelas ruas de Nova Iorque. Conversar com os turistas, contrair o corpo por causa do ar gelado do outono, ver os ratos correndo pelas calçadas, ouvir o barulho do trânsito e sentir o cheiro do café que sai dos trailers. Mas me sinto fraco até para escrever aqui. De manhã, fiz a primeira sessão de quimioterapia. Doeu muito. Não conseguiram me colocar sentado e aplicaram comigo deitado mesmo. Voltei para o quarto e dormi mais um pouco. De tarde, Rony trouxe seu alaúde e tocou “Walk on the Wild Side”. Ele sabe que Reed é o melhor. Na televisão, só se fala nos 50 anos de Hillary Clinton. Me interessa mais que Jeannie me prometeu que amanhã vou comer sua famosa cheesecake, que ela só faz em ocasiões especiais. A cobertura vai ser surpresa! Jeannie virá ao hospital com mamãe e meu padrasto para comemorarmos meus 41 anos. Pedi para que convidem Sarah também. Preciso mostrar o resultado da ideia dela. Não falhei nenhum dia e registrei imagens com a Polaroid por dezoito anos. A foto do dia foi tirada pela Paty.
Foto n. 6696

25 de outubro de 1997
Foto n. 6697

