
Quinta
Amanhã vai começar o Festival. Festival é o nome que dei pro encontro que estou há 15 dias combinando com Mauro e Maurício, que vai ser uma espécie de dias pra brincar de casinha, fumar maconha, beber vinho, cozinhar e transar. Como Maurício precisa ir visitar a mãe, levar comida e etc., ficamos nesse tempo respeitando 100% o isolamento pra ficar sem nóias juntos no final de semana. Óbvio que já estou mordendo a beirada do raque esperando esse dia, vai ser demais. Tudo começou quando Maurício disse que tinha convencido Mauro de que deveríamos nos encontrar. Amanhã eu vou pra casa deles e no domingo eles vêm pra cá.
Sexta
Ansioso com o momento em que vou pegar a bicicleta e ir ver meu casal. É engraçada essa rede de bichas aqui do centro. Antes da quarentena a gente tirava uma quinta ou fim de sexta e combinava de ir tomar uma cerveja no bar do Juarez. Maurício, antes de namorar e ir morar com Mauro, estava há 4 anos com Chico. Se separaram porque Chico não queria casar. Choque de ideologia romântica. Aí Maurício foi fazer mestrado fora e conheceu Mauro, sabe deus como, mas voltaram já juntos. Eu conheci Chico no Grindr, demos umas 3 ou 4 trepadas. Um dia ele me perguntou se eu conhecia um Maurício do meio das artes. Eu disse que sim e foi aí que eu descobri do namoro: quando ele perguntou se eu já tinha pegado o Maurício. Que também conheci pelo Grindr. Ou seja, o “bichas do centro” hoje é um grupo de fofoca, companhia e cachaça, mas todo mundo se conheceu pelo objetivo único e explícito de se pegar. Pelo que minhas amigas hétero falam, nisso o Happn ou o Tinder não são tão bons. Deu 16h, fui.
Sábado
Ontem, quando cheguei na casa do casal, fizemos bolo de fubá. A gente transou e voltou pra sala. Maurício me mostrou como ele está planejando a apresentação do edital de performance que ele tinha ganhado e que agora vai ter que ser apresentado via internet. No sofá, conversando, lembrei que tinha ajudado Mauro a comprar uma argila umas semanas atrás. Na loja, ele ficou em dúvida e me pediu ajuda. Eu perguntei para um amigo francês pelo zap e repassei a informação a ele. Ele me respondeu que não queria comentar do assunto naquele momento para não atrapalhar o “processo”. Depois ficou falando coisas etéreas e eu levantei pra ir na cozinha pegar vinho, mas como o cômodo fica a um metro e meio de distância do sofá da sala, continuei escutando, claro. Esse papo muito artista dele me cansa. É que sempre rola um deslumbramento de quem vem de outras áreas, tipo Mauro, querendo ser artista plástico e não entende que por trás de um suposto glamour dos pouquíssimos que conseguem vender depois de lobbies de caráter duvidoso, existe um mercado lixo e uma rede podre de relações.
Hoje Mauro acordou mais cedo e foi pra sala ficar sozinho.
Domingo
O sábado foi uma delícia. A gente cozinhou, ficou se pegando. Mauro às vezes fica com uma cara meio emburrada, meio blasé a la Jessie Ware que é difícil decifrar. Não dá pra saber se ele fica com ciúme de Maurício, que me contou, enquanto ele tomava banho, que a ideia de fazer trisal era do próprio Mauro. Mas é ciúme de mim? Então pra que pagar de desconstruído? Sim, eu já tinha pegado Maurício antes, mas foi Mauro quem deu a ideia de ir me conhecer na feira de livros. Aí parece que ele propõe as coisas e depois não sustenta.
Eles estão terminando de arrumar a mochila pois hoje é o dia de ir terminar o Festival na minha casa e amanhã cedo eles seguem direto pras compras da mãe de Maurício.
Segunda
Ontem, quando chegamos em casa, Mauro ficou passeando pela sala, tocando os livros na estante sem puxar nenhum, como quem olha os títulos que habitam na minha vida. Alguns dos catálogos que trouxe da França, em francês porque não poderiam estar em japonês, estão aqui. A maioria eu nem trouxe do período que fiquei em Bananal resolvendo onde ia morar, onde trabalhar e tudo. Daí que ele soltou, com um olhar de AK47, que eu sou uma bicha que quer se mostrar muito cosmopolita, viajada. Fiquei com cara de patê de atum, que vai deixar quem comer com bafo. Esqueci de olhar pro Maurício para saber o que ele pensa dessas tiradas de Mauro. Mas senti uma alfinetada desnecessária de quem está incomodado com alguma coisa, mas não consegue dizer o que. Talvez, e isso fiquei pensando agora, que quando a gente está incomodado com uma situação específica, é possível expor, do tipo: ah, tô de saco cheio do Maurício porque ele fica tirando caca do nariz enquanto vemos filme abraçados. Mas acho que a questão dele é propor o relacionamento e não dar conta da estrutura a três. Nem preciso relatar que ele xoxou a noite de domingo mais do que tirar a porta da esperança errada seguida de propaganda Jequiti.
Hoje a tarde Maurício mandou um emoji de beijinho sem coração no privado. Mauro nada.
Terça
É possível que eu tenha que esperar, respirando com aula de yoga da Pri Leite no YouTube, até semana que vem pra saber se vou sofrer um shadowban nessa relação.
