Paralisia

por Américo Paim

Quarta-feira, 10/05/2006

Faz um mês da carta dele. Aquilo foi um choque. Quanto tempo. Sabia de sua vida, mas por outros meios. Colocou muito ali: formatura, mudança para São Paulo, vida profissional, casamento, três filhos e seu momento atual. Respondi sem lhe contar tanto.

Falamos de novo pelo telefone hoje cedo. Me sinto a adolescente. Chega na segunda, de férias. Derramei suco no café da manhã! Julita não falou, mas reparou. Estou nervosa.

Preciso comprar uma roupa bonita!

Enfim fui ao Passeio Público, pela manhã. Queria muito. Ali, no banco perto do mirante e do Vila, me pediu em namoro. Ele suava e eu me sentia flutuando aos dezessete anos. Ele com vinte.

O chá com as meninas foi ótimo, mas não contei nada. Iam me encher de perguntas e não estou para isso.

Na volta, quando passamos pela frente da Igreja da Vitória, lembrei de painho implicando na missa: “Olha o vestido dessa menina, Marluce! Muito curto!”. Conversar com Seu Lírio? Inútil. Era coisa da criação dele. Eu tinha raiva, mas atendia, para não brigar. Mainha foi uma santa. Ele não gostava de mim, por ciúme dela, que me adorava. Só entendi isso bem depois.   

Quinta-feira, 11/05/2006

De manhã faltou energia e me atrasei para a aula de francês. Sem elevador não dá.

No telefonema de hoje eu quis, mas não toquei no assunto da viuvez dele. Me faltou coragem. Pode me achar indiscreta. Será que afinal nosso amor vai se realizar? Maria Isabel, não seja tonta!  Para que criar expectativas? Ele não foi explícito.

Que dia! Tantos problemas nas lojas! Franquia dá muito trabalho. Será que o pessoal do escritório tem notado que estou meio desligada? Estou dando muita bandeira?

O problema da luz de manhã me lembrou a conversa com painho quando ele soube do meu namoro com Eriberto. Que irônico conversar sobre aquilo à luz de velas. Perguntou sobre ele, a família, o que fazia. Fui ingênua de achar que iria se impressionar porque ele fazia faculdade. Logo ele, que não fez. Falou que não podia isso e aquilo, que eu era a sua única filha. Só regras e restrições, sem diálogo. Antes desse dia, quase sempre que tentava ser mais próxima ou lhe fazer um carinho, ele repelia, mas dali em diante, mudou de vez comigo. Me atormentava sempre que tinha chance. Tentei tantas vezes me acertar com ele. Deus sabe.

Sexta-feira, 12/05/2006

A praia estava ótima hoje! É tão bom logo cedo no Porto! Antônia é a melhor das companhias para conversar e tomar água de coco. Preciso marcar outra vez com ela.

E a moqueca do Bargaço? Continua maravilhosa! Foi bom encontrar Olga e Teresa. A conversa ficou só sobre as coleções novas e as lojas. Mesmo entalada para falar com alguém sobre meu segredinho, não seria com as mais fofoqueiras de Salvador!  

Encontrei uma roupa no shopping! Quem diria que iria rever Betinho após trinta anos com um vestido da cor que meu pai mais gostava? Justo ele, que impediu o romance.  Isso será homenagem ou deboche? Lembrei uma rara vez que sorriu leve para mim: na minha formatura, quando usei azul. Se ele aqui estivesse, acertaríamos os ponteiros? Não. Nunca me compreendeu ou respeitou.  

Sábado, 13/05/2006

Dia da liberdade para os escravos e do fim da minha. Ano após ano, me vem isso. Hoje não foi diferente. Lembrei cedo, sozinha à mesa do café. Uma tristeza que nunca superei. Ele me ligou logo depois, mas não mencionei a data. Será que ele lembra da história?

A imagem daquele café da manhã, trinta anos atrás, sempre ficou na minha cabeça. Meu pai na cabeceira, com sua camisa branca e gravata azul e eu à sua esquerda. Mainha tensa, o que percebi logo. Ele falou comigo de forma fria e calculada, como para um estranho. Bem curto e muito grosso. Falou que o namoro tinha que acabar pois “o rapaz” – nem tinha direito a nome – só estava comigo porque minha família era rica. Eu mal tinha dezoito anos. A frase ainda martela a minha cabeça: “Ele não é para você, Maria Isabel”. Para ele, nunca ninguém seria. Foi a nossa pior discussão. Prometi que faria tudo que ele quisesse, mas ele me ignorou. Implorei, gritei, esperneei. Nada adiantou. Dona Marluce, sempre submissa, calou-se. Lutei para reverter durante dias. Ele me ignorava ou era agressivo. Me prendeu em casa. Só voltei a encontrar Betinho uma semana depois, com aquele desfecho que eu não esperava. Em vez de me apoiar, ficou tão ofendido com aquele absurdo, que preferiu se afastar, terminou o namoro e sumiu da minha vida. Chorei por semanas. Às vezes o entendia, outras só pensava nele com decepção.

À tarde, resolvi que colocaria isso no diário pela primeira vez. Nunca me senti à vontade antes, mas agora queria matar esse assunto. Após todo esse tempo, ele estará aqui e tudo que eu queria era ouvir: “Belinha, te amo até hoje”. É uma maluquice pensar isso, mas ajudaria a fechar a ferida.

Domingo, 14/05/2006

Hoje resolvi passear de carro, eu mesmo dirigindo. Queria passar por alguns lugares da minha história com ele, para as memórias me invadirem. Estava nesse clima.

Comecei lá longe, na Praia dos Coqueiros, onde nos conhecemos. Fez um dia lindo, como foi aquele. Ele, todo atlético, um gato de sunga verde. Eu de maiô preto, me achando estranha. Era um torneio de futebol do time da escola e ele se aproximou de mim. Estava lá para o futebol e o surfe com os amigos. Deu liga na hora.

Depois fui ao Bella Napoli, onde minha família às vezes se reunia para almoçar. Meus cinco tios e aquela montanha de primos. Foi lá, seis meses depois do fim do namoro, que, em mais uma previsível discussão entre nós, disse a meu pai que eu nunca teria ninguém ou me casaria. O tempo fechou naquele dia. Largamos o almoço e ele seguiu bem alterado no carro, de volta para casa. Pensei que ia me bater de novo. No fim das contas, tive outros, mas não me casei. Não me guardei para ele – achei que nunca mais o veria – mas, meu amor nunca morreu. É a verdade.

À tarde, fui à Praça Municipal, tomar sorvete na Cubana. Mainha me levava lá quando eu era menina. Também acontecia de outra forma. Argemiro, motorista da casa e meu cúmplice, me buscava na frente dos Maristas, pegávamos Betinho do lado de fora da escola, e íamos para lá. Tantas conversas românticas diante daquela vista linda da Baía de Todos os Santos. Como esquecer?

Fechei com uma parada no Farol da Barra, para ver o pôr do sol. Ali eu contei a meus pais do meu aborto espontâneo; estava com vinte e seis anos. Minha última chance de ser mãe. Ele me olhou com nojo, em choque de decepção. Sua única filha, “desonrada”, grávida sem casamento. Acho que foi um de nossos últimos combates. Ele morreu poucos anos depois, com pouco mais de setenta. Mal nos falávamos na época.

Fui dormir mais leve.   

Segunda-feira, 15/05/2006

Passei a manhã no salão, sonhando com a noite.  

Me sinto saindo de uma paralisia. Agora vai fazer sentido.

Queria Seu Lírio aqui, para lhe mostrar que minha vida não lhe pertencia.

O voo chega à noite e só eu estarei lá. Ele não tem mais ninguém em Salvador.

Me sinto tão segura que resolvi encerrar aqui esse diário.

Amanhã, começo um novo. De outra vida.

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