Terror doméstico

Unheimlich é um termo alemão que designa um oxímoro: o estranho familiar. Um personagem, um evento, uma ocorrência ou uma situação que traz elementos muito íntimos de nós, mas, por se encontrarem de algum modo deslocados ou levemente fora de ordem. O unheimlich é a base do realismo fantástico. Por exemplo, contos como “Carta a uma senhorita em Paris” ou “Ninguém tem culpa”, de Julio Cortázar: no primeiro, o narrador vomita coelhinhos, este ser tão doméstico, e no segundo o protagonista cai de uma janela porque simplesmente não consegue sair de dentro de seu suéter.

Os contos da argentina Mariana Enríquez são terríveis. Ficam na fronteira entre o horror e o fantástico, mas jamais lidam com a fantasia ou com o sobrenatural. Ela narra concretamente coisas que acontecem, coisas rotineiras. Mas que de algum modo vão ficando mais sombrias à medida que ela relata. Algumas coisas concorrem para o efeito: seu registro sóbrio, tranquilo e sem espanto, a ausência de justificativa para os eventos terríveis que ocorrem – e o unheimlich, a presença de um elemento familiar, mas que, por estar descolado de seu lugar de origem, ou pela presença cada vez mais vigorosa ao longo da narrativa, vai contaminando a história de suspense. O conto abaixo foi tirado do premiado As Coisas Que Perdemos no Fogo; ela também tem um romance de fantasia muito divertido, com uma atmosfera pós-punk, chamado Este é o Mar (ambos da Intrínseca).

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer: um relato realista-fantástico. O sentimento do fantástico, tal como proposto por Julio Cortázar, pede um narrador direto, objetivo, claro, com consciência daquilo que está narrando, ainda que seja algo muito esquisito. A ação fantástica pode e não pode estar acontecendo, e esta hesitação entre o real e o irreal é que alimenta o sentimento do fantástico. Mantenha este sentimento em foco.

Seu conto será ambientado em sua casa, em sua escola, em seu trabalho – ou algum lugar que você frequenta.

Sua narrativa obedecerá à rotina do que você faz todo dia em algum desses lugares.

No entanto, um determinado elemento de sua casa, de sua escola ou de seu trabalho – ou de algum outro lugar que você frequenta – estará ligeiramente fora de ordem. Deve ser um elemento que você conhece muito bem.

Importante: este elemento fora de ordem não pode estar no campo da fantasia. Não vai aparecer uma assombração, um ET, um vegetal falante nem nada do tipo. Tem que ser um elemento realista ligeramente deslocado de seu próprio contexto. Pode ser um objeto, um personagem, ou o comportamento de um personagem.

É este elemento que vai colapsar toda a sua narrativa. O que acontece com sua rotina quando este elemento ligeiramente fora de ordem aparece? O que acontece com os personagens que circundam o protagonista? Eles acham estranho ou se habituam? Você se habitua? O elemento estranho deixa o narrador mais feliz? Como é este elemento fora de ordem? Como o narrador percebeu que ele estava fora de ordem? O fato de ele estar fora de ordem influi no comportamento do narrador?

Narre na primeira pessoa. Mas o protagonista não precisa ser você. Pode ser um personagem totalmente diferente. Você só usará elementos da sua própria vida para compor o espaço, o tempo ou o personagem.

Estruture seu conto em cenas. Podem ser poucas cenas – no máximo uma meia-dúzia. Mostre os eventos acontecendo, em vez de contá-los. Lembre-se sempre que seu conto não precisa de começo nem de final. Um conto é apenas um meio.

Não precisa ficar explicando tudo. Não justifique nada, mesmo que pareça estranho. As coisas são assim mesmo, às vezes somente padrões de coincidências, como diria David Lynch.

Em no máximo 7 mil toques.

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