
Cadão Volpato é um escritor que nasceu como letrista – da banda Fellini, nos anos 80. O status cult da banda, espécie de Velvet Underground temperada com Nelson Cavaquinho, cresceu nos anos 90 enquanto Volpato virava jornalista (apresentou o Metrópolis) e contista (publicou, entre outros, Questionário, de onde tirei as perguntas para aquele exercício para microcontos, e Dezembro de um Verão Maravilhoso). Recentemente publicou livros infanto-juvenis (os quais também ilustrou) e o romance Pessoas Que Passam Pelos Sonhos (Cosac Naify). Em 2017 lançou nova coletânea de contos, Os Discos do Crepúsculo (Numa), de onde reproduzo o conto “Trio”, abaixo.
O que nos interessa na escrita de Volpato é sua adesão ao projeto de Tchecov: contar duas histórias como se fossem uma só, porém sem interessar-se com um final catártico, epifânico ou revelador, próprio aos contos do século 19 (Poe, Maupassant). A estrutura da ficção breve de Tchecov pede um final aberto – histórias que começam do nada e vão para o lugar nenhum. Histórias que meio que se desvanecem, o conflito é como um sopro.
Há também, no estilo, um apego à emoção contida, ao detalhe afetivo, à minúcia psicológica, presente na obra de Nathalia Ginzburg e Vilma Arêas. Na percepção aguda dos sentidos – em especial na criação das imagens surpreendentes -, nota-se uma leitura atenta do surrealismo de Apollinaire e de Boris Vian. O tom é quase sempre de confidência, quase puxado à crônica, como se o narrador estivesse dizendo um segredo ao leitor, e muitas vezes o não-dito ou o interdito é mais importante do que o que está sendo de fato contado. Há algum pudor em tocar em assuntos delicados.
Esta última seleta de contos gira quase sempre em torno de músicos dos anos 80 (Vini Reilly, Ian Curtis, a própria banda Fellini) e 70 (há uma noveleta hilária usando Jimi Hendrix como um protagonista que vira coadjuvante de um bando de brasileiros em NY), ou artistas como o desenhista uruguaio Troche, ou músicos, atrizes e cineastas que viraram professoras, gente que era artista e foi largado ou se largou por aí. Paira sobre todas as narrativas uma atmosfera de melancolia e nostalgia, numa tentativa de segurar pelo rabo o tempo que se foi.
PROPOSTA
E é isso o que você vai fazer. Inspirado na ficção acima, o seu conto narra uma história enquanto conta outra.
O seu conto será centrado em um encontro fortuito entre dois amigos que não se veem há muito tempo.
A segunda história é um segredo compartilhado pelos dois personagens, algo difícil de abordar.
Narre na terceira pessoa como se estivesse olhando por cima do ombro dos personagens (indireto livre), como se fosse amigo deles, como se fosse íntimo deles, mas tivesse algum pudor em falar neles.
Use cenas e diálogos.
Limite: 7 mil toques.







