O Sonho das Imagens

O SONHO DAS IMAGENS

Helô Mello                                                                           17/08/20

Dia 3 de Agosto de 1966

Quarta feira

Comprar:

Chocolate granulado

Guaraná

Bexigas coloridas

Organizei os preparativos do aniversario de Gabriela. 

Minha filha fará 6 anos. Sua luz atravessa o silencio da casa e tempera minha vida com Antônio, meu marido. Conto com Maria, amiga e cozinheira. Nós duas achamos que sabemos, mas ambas, vítimas, fingimos.

Sonhei que a jabuticabeira que plantamos no jardim, amanheceu com slides pendurados em seus galhos. Eram slides órfãos, abandonados. Dançavam no vento, ligados por fios vermelhos, suas artérias. 

Dia 4 de Agosto de 1966

Quinta feira

Lembrar:
Passar a toalha da mesa

Separar os copos

Convidar a família de Antônio

Maria quer fazer bolo de chocolate e recheio de brigadeiro, desejo de criança. Ela mima Gabi mais que seu próprio filho, Nato, sem pai, quase sem família. 

Antônio, só sombra, mora no silencio, interrompido pelo clique da câmera Rolei Flex. Ele fotografa e eu recolho cacos de tempos para montar narrativas mais coloridas do que nossos dias em preto e branco.

Essa noite sonhei oque a jabuticabeira via através dos slides. Inventavam paisagens, criavam narrativas oníricas. 

Dia 5 de Agosto de 1966

Sexta feira

Não esquecer:

Passar o vestido de festa 

Pensar numa lembrança para Nato

Abrir as forminhas do brigadeiro

Montar a mesa

O jardim invadiu a casa pelas mãos coloridas de Gabi e Nato. Eles deram vida ao vaso da sala que ganhei de casamento. O perfume doce da jabuticabeira insiste em me iludir. 

Maria não gosta de que entrem na cozinha em dias de movimento. Acompanho sua vida em banho maria, as duas resignadas, espreitando se a panela de pressão uma hora irá explodir. 

Me conecto com Antônio pelas fotos que me revela. Colo no álbum a vida que não tenho.  Na noite, escura como as jabuticabas, breves uniões amadurecem e secam.  

No sonho resgato, através das imagens suspensas, passados longínquos. Elas trazem cores e opacidade para fundir tempos e espaços, que me preenchem e meus álbuns. 

Dia 6 de Agosto de 1966

Sábado

Fazer:

Varrer a sala

Lavar a tolha

Levar o TRI-X  para revelar

Rompeu papeis coloridos para abrir os presentes na cama. Gabi dormiu abraçada com a Boneca “Gui Gui, a boneca que ri”. Meu presente, meu desejo. 

Antônio, durante toda a festa, pretendia se esconder atrás do visor. Ele me sussurra um mundo que se revela só no filme. Maria guarda cores e opacidade da paternidade não dita. Por respeito ou por medo me mantenho na terceira margem e cozinhamos a vida. Passo noites cortando e recriando outras memórias. Talvez a jabuticabeira, que cresce também no álbum, saiba. 

Sonhei que pintava aquarelas com a tinta da fruta. As cores se diluíam criando outros contornos.

Domingo

Dia 14 de julho de 1985

Quarto escuro. 

Sem providencias. 

Hoje ponto.

Foi tudo rápido, um acidente. Não sei se desejei. De meu marido, restaram as imagens moventes nos álbuns de família. Não sentirei sua falta, ele mora nos retratos.  Mas sim de Maria que, anos atrás, o trânsito levou. Herdei Nato, dúvidas e conexões possíveis. Não há resposta que ilumine.  

Não me pareceu um pesadelo ao ver os slides se desprenderem. Estão soterrados, entre o formigueiro e cascas decompostas no chão.

Segunda Feira 

Dia 15 de julho de 1985

Preparar:

Missa de 7º dia

Organizar os armários

Lembrar Nato de varrer o jardim

Pegar Gabi no aeroporto

Gabi e meu neto, Mario, agora com 6 anos, vão chegar amanhã. Ainda não sei por quanto tempo. Nato, meu cumplice, faz companhia, mesmo quando revolve a terra. Os álbuns estão em uma caixa, criando mofos. Vão ficar guardados no fundo do armário, como Antônio.  A vida segue sépia. 

Sem sonhos, sem respostas. Só a vida suspensa.

Deixe um comentário