Por Filipe Masini
Quarta-feira, 19 de junho de 2019
Meu dia foi uma merda. Deu tudo errado.
Logo às seis e meia da manhã, fui acordada pelo maldito gato do Lucas. Como eu o detesto. Queria tanto poder sumir com ele. Muitas vezes me pego imaginando as piores torturas que eu poderia fazer. Ele me olha com tanto desprezo e indiferença. “Fofucho” é o escambau! Aliás, quem dá um nome desse para o gato?
Chegando no trabalho, piorou. Eu odeio trabalhar com publicidade. Ainda tenho que aturar o bosta do meu chefe. De novo ele soltou uma piadinha machista sobre mim, e desta vez na frente de todo mundo. “Lu, você está muito estressada! Está precisando de alguém que dê um jeito de te acalmar, se é que me entende.” Ele ainda não superou o fora que eu dei nele.
Para completar, a máquina de lavar roupa deu problema de novo. O que eu fiz para merecer isso?
A única coisa boa foi que finalmente consegui ir naquela lojinha nova de produtos veganos. O hambúrguer de quinoa é uma delícia!
Quinta-feira, 20 de junho de 2019
Ainda não me sinto à vontade na casa do Lucas. Às vezes me pergunto se fomos apressados demais ao decidirmos morar juntos. Eu sou tão impulsiva… Sempre me meto em roubadas por conta disso. Nem conheço a família dele. Eu, que sempre fui uma pessoa do time dos cachorros, me vejo presa em um conjugado com um gato maquiavélico. Mais cedo, quando estava saindo para o trabalho, ele começou a tentar pegar as franjas da minha bolsa de couro. Até que uma garra enroscou em uma das tiras e a arrebentou.
Meu chefe anda querendo me sacanear… Passou o cliente mais chato da agência para eu cuidar. Todo mundo não suporta o Dr. Arnaldo. Ele é dono de uma clínica especializada em “Saúde Sexual Masculina”, mas vamos falar em português bem claro: clínica para os brochas e os apressadinhos. Esse velho tarado sempre fica fazendo piadinhas de duplo sentido nas reuniões. “Não quero ver moleza, hein?!”, “Eu sempre ganhei a vida trabalhando duro”. Depois ele se vira para você e dá uma piscadinha cafajeste. Que nojo!
Eu fiquei tão envolvida na apresentação de trabalho que eu tinha para fazer, que nem reparei que já é quinta. Amanhã será um dia intenso: Apresentação deste projeto novo; almoço com a Aninha e Ju; happy hour da firma; por fim, aquela festa estranha que o Lucas adora ir.
Sexta-feira, 21 de junho de 2019
Ufa, deu tudo certo na apresentação. Meu chefe tentou me pegar de várias formas, mas hoje era o meu dia. Estava segura do que ia falar e tinha treinado tanto. No final, eu vi a cara de bunda dele sendo obrigado a dizer: “Parabéns, Lu. Excelente apresentação”. Foi uma delícia ver cada palavra que ele pronunciava arranhando suas cordas vocais.
O almoço com as meninas foi ótimo, mas a Aninha não para de falar de macho. Desde que o João terminou com ela, para fingir que está tudo bem, fica pagando de desconstruída e prafrentex, mas pelo inchaço dos seus olhos, deve ficar em casa agarrada a um pote de sorvete “zero lactose, zero açúcar e zero sabor”, vendo Gilmore Girls e chorando de soluçar.
Cheguei em casa há pouco. Fofucho, pela primeira vez, veio se roçar em mim. Fiquei tão feliz. Senti que a nossa relação estava começando a mudar. Tomei coragem e resolvi fazer um carinho nele. Resultado: dois arranhões na mão. Gato filho da puta!
Agora, vou me arrumar para a festa estranha com gente esquisita do Lucas.
Já ia me esquecendo. Tive um sonho bem estranho hoje. Sonhei com o Gato Listrado de “Alice no País das Maravilhas”, só que o corpo do gato era do Fofucho e o rosto do meu chefe. Eu ia atrás dele, mas ele sumia e aparecia em outro lugar. Não conseguia pegá-lo a tempo. De súbito, ele virou o Gato de Botas de Shrek e fez aquela carinha de gatinho inofensivo com dois olhos enormes para mim. Quando eu finalmente chegava perto, ele dizia,com a voz e o sotaque do Trump: You’re fired. Acordei angustiada depois disso.
Sábado, 22 de junho de 2019
Meu deus, que ressaca. Entendi finalmente o que Cazuza queria dizer com o verso “Às vezes os meus dias são de par em par”. Dia perdido.
Acordei às quatro da tarde com Lucas de um lado e um moreno gostoso do outro. Não lembro o nome dele. Demos um jeito de expulsar o carinha logo. Não tive forças para reclamar que Fofucho pegou o suéter de lã que minha avó Dulce costurou para mim e puxou vários fios com as suas patinhas demoníacas.
Lucas está estranho comigo… Pelo visto, não gostou da experiência.
Domingo, 23 de junho de 2019
Acordei cedo com o meu celular tocando. Era o meu chefe dizendo que o Dr. Arnaldo queria uma reunião urgente na agência. Vesti minha roupa correndo, avisei ao Lucas que chegaria mais tarde, para não me esperar para almoçar. Ele me olhou, bem frio, e disse que não tinha problema, pois já havia combinado de almoçar com a Bia, uma amiga dele. Eu sei que ele está querendo provocar ciúmes em mim. A culpa não é minha, foi ele quem deu a ideia. Como eu poderia imaginar que o cara tinha um pau imenso? Cada um com as suas inseguranças, me poupe…
Passando pela sala, Fofucho me lançou um olhar penetrante. Pude sentir a raiva dele. De alguma forma, percebi que ele também ficou recalcado com o tamanho do pau do cara. Os bichanos sempre compram a briga do seu dono, não é? Nos encaramos por um breve momento, até ele fazer um barulho estranho com a garganta. Fiquei aflita esperando o que ia acontecer. Finalmente, ele cuspiu uma bola de pelo do tamanho de um limão. Aquilo me pareceu a maior ofensa que um gato poderia fazer.
Ao chegar no escritório, não foi nem necessário abrir a porta do elevador para ouvir o Dr. Arnaldo. Gritava que o Boston Medical Group estava roubando todos os seus clientes. Dessa vez, não teve brincadeira e nem piadinha infame. Foi bom ver aquele velho babaca descendo a lenha no meu chefe. Em alguns momentos, me segurei para não deixar escapar um risinho.
De volta à casa de Lucas, eu já sabia o que me esperava. Bastei abrir a porta para ver que o ambiente estava todo preparado. Lucas sentado imóvel no sofá, com uma cara séria, e me dizendo que precisávamos conversar.
Segunda-feira, 24 de junho de 2019
Logo cedo, cansada por conta da discussão da noite anterior, coloquei minhas coisas na mala ridícula do Romero Britto que o Lucas emprestou. Era óbvio que daria errado. Como eu posso ficar com uma pessoa que tem uma mala dessas?
Na porta, me virei para dar uma última olhada na casa. Lá estava Fofucho, vigiando todo seu reino de cima do sofá, como um daqueles gárgulas da Notre-Dame. Orgulhoso via a sua maior inimiga batendo em retirada.
