BANG-BANG

Silvia Argenta

A porta da cozinha da Kibelândia é como aquelas dos filmes de faroeste. Estilo bang-bang. Para abri-la, os cozinheiros e os garçons fazem a força bem no meio das duas folhas independentes. Empurram com a barriga, com o ombro, com a bunda. A projeção do corpo na porta depende da pressa ou do que carregam nas mãos. Depois que alguém passa por ela, as folhas ficam balançando até se alinharem novamente e fecharem. Num desses movimentos, vejo o que não quero acreditar.

Havia pedido um kibe caprichado, bem temperadinho, bem fritinho, bem crocante, acompanhado de um chopp servido na caneca guardada no freezer. Já estava com o limão e a pimenta preparada em cima do balcão antigo de madeira. Espetáculo de serviço. Podia ir almoçar num buffet a quilo para comer uma salada, já que a barriga anda mais saliente do que o normal, mas preferi salivar pelo quitute árabe.

O dono gosta de ser chamado de habib e passa o dia no caixa. A maior parte do tempo fica sentado na banqueta, arrumando os acrílicos expositores de Trident e Halls. O bigode amarelado denuncia o vício. De vez em quando sai do restaurante para fumar na rua. Aproveita para circular pelo salão e cumprimentar os clientes com mais idade. Com esses, joga conversa fora com seu sotaque não sei bem de onde. Fala sobre futebol, política e essa geração perdida. Quando algum cliente mais novo puxa papo, só resmunga algumas palavras e ninguém se entende. O que mais ouço ele dizer é: só aceitamos dinheiro ou cartão de débito.

A garçonete Neide é minha preferida. Tem cabelo escuro curto e está sempre de calça jeans e blusinha branca de uniforme do restaurante. Também usa uma gargantilha preta no pescoço. Ela diz que é pega-rapaz. Não tem erro. Jamais deixa um cliente com copo vazio na mesa. Às vezes a pessoa nem quer mais beber e ela chega com a caneca anunciando: “esse é por conta da casa!”. Nem sei se o chefe dela sabe disso. O fato é que ninguém resiste à sua simpatia. Tem fã-clube cativo a danada. Inclusive acho que o habib não pode bobear e perder a prata da casa. Corre sério risco de ficar sem alguns clientes.

Um colega de trabalho chega. Não havíamos combinado o encontro, mas ele se senta ao meu lado. O assunto não poderia ser outro. Pela manhã, ao entrar no carro oficial para levar o desembargador para casa, me deparei com um cachorro sentado no banco de trás. Ele era bonitinho, branquinho e pequeninho. Parecia calmo. Esperei alguns minutos pelo magistrado, mas nada de ele aparecer. O bichinho ficou o tempo todo com a língua para fora, mas paradinho e bem comportado. Meu medo era ele cagar no banco de couro. Ia sobrar para mim.

Falei com meu chefe sobre a demora, e ele confirmou que eu deveria levar o “dogzinho” de Florianópolis para Balneário Camboriú. Mais de uma hora de viagem para carregar um cachorro com dinheiro público? Achei que já tinha visto de tudo. Me neguei a ser motorista de pet. Juiz vá lá, é o que tem, mas cachorro, sem chance.

Deixei uma fresta da janela aberta, tranquei o carro e fui falar com o chefe do chefe. Expliquei a situação e ele ficou furioso. Daí, o chefe do chefe foi falar com o chefe do chefe do chefe. O chefe do chefe do chefe olhou espantado para o chefe do chefe e disse que não sabia o que fazer. O chefe do chefe do chefe resolveu tirar a dúvida com o chefe do chefe do chefe do chefe, que, então, ligou para o desembargador para entender o que estava acontecendo.

Ele confirmou que durante a semana trabalharia na sua casa em Balneário e não poderia ficar longe do cachorro porque ele é parte da família e não merecia ficar abandonado sozinho com a empregada na casa da capital. O chefe do chefe do chefe do chefe se desculpou pela ligação, afinal como rebater um argumento desse? O problema é que ele não concordou com a justificativa, apesar de não ter tido coragem de falar alguma coisa. Foi para o gabinete do chefe do chefe do chefe do chefe do chefe, que ficou uma arara e disse que não era para ninguém perder tempo com isso. Ele mesmo ligou para o desembargador, negou o transporte do cachorro e disse que era responsabilidade dele ir lá retirar o dogzinho do carro oficial. É isso. Chefe bom é chefe que resolve, não é?

No restaurante, o colega se acaba de rir com a história e diz que não faria igual a mim. Simplesmente levaria o cachorro para não ter complicações. Conta que chegou a notícia de que o desembargador ficou arrasado por causa da decisão, mas que prometeu nunca mais fazer esse tipo de pedido. Entendo o ponto de vista do colega. Se a situação tivesse acontecido com outro desembargador, talvez a gente recebesse uma ligação até do presidente da República mandando acatar a ordem. Sim, tem desses.

Escuto o tilintar da campainha. Não demora muito e vejo Neide empurrar a porta com o ombro esquerdo e carregar a bandeja com a mão direita. Bastante habilidosa com a porta de faroeste, se desvencilha rapidamente das folhas, que começam a se bater atrás dela. Por entre as frestas que se movem, vejo a mesma cena de novo. Não é possível! Ela me serve o kibe e imediatamente me concentro para degustar os sabores da hortelã e dos outros temperos. Por alguns instantes, me distraio da cozinha.

Termino o salgado e o chopp e olho novamente para a porta que se mexe. Agora não tenho dúvidas de que há algum problema. De início, achei estranha a cor acinzentada que havia notado no chão, mas não tem como negar. A cozinha está tomada por ratos. Não é um nem dois nem três. É uma família inteira embaixo do balcão da pia. Eles estão à vontade, andando pra lá e pra cá entre os pés dos funcionários, que parecem não se importar. Quase conto para o colega. Penso em ligar para a vigilância sanitária. O habib está concentrado contando o dinheiro. Passo a língua entre os dentes para limpar os restos do kibe que ainda estão na boca. Olho para a garçonete e aponto as mãos fechadas com o indicador e polegar em riste, fazendo o gesto de quem está atirando. Bang-bang. Por fim, decido: “Neide, minha deusa, manda mais um kibe”.

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