Ian Perlungieri
Poderiam ser gotículas de água vindas do céu, introduzindo uma tempestade prestes a desabar, mas não. Poderia ser um buraco malfeito, fruto do raspar de unhas caninas, mas não. Poderia ser uma tarde de sexta em um sofá e Netflix, mas não. Era um domingo e ele teria que trabalhar no dia seguinte, mas estava ocupado derramando energia e lágrimas amargas no jardim com a pá em suas mãos. Na terra, o buraco para o seu cão se formando ao lado do corpo do animal.
Entre soluços, cada golpe da pá ampliava a profundidade do buraco e retardava a despedida inevitável. O nome do cão era Cão. Uma tentativa frustrada de não nomear o animal para reduzir o sofrimento que tarda, mas não falha. E quinze anos gera intimidade. Carinho. Amor. Seus melhores amigos, aqueles com quem se importava de verdade a ponto de compartilhar algumas dores, mas não todas, estavam próximos dele há menos tempo.
O nariz escorreu e ele usou as costas das mãos trêmulas para limpá-lo. Trêmulas como o corpo de Cão quando sentia frio. Engasgou com um novo soluço e teve um acesso de tosse. A pá atingiu uma raiz e ele teve que mudar um pouco o formato do buraco. Aos poucos, a terra foi ganhando uma forma disforme e adequada para o corpo do animal, que já não tremia mais como antes.
Entre lágrimas, soluços e um discurso amarrotado, ele puxou o pano sobre o qual estava o animal e o colocou dentro do buraco. A raiz ainda atrapalhava, obrigando-o a ajeitar o rabo de Cão. Não era necessário, claro. Afinal, a terra em cima do animal conseguiria cobrir tudo, mas ele fez questão de manter a parte inferior do quadril de Cão abaixo da altura em que estava o seu crânio. Talvez uma tentativa de facilitar a fuga do animal do seu túmulo se ele resolvesse despertar. Cão, no entanto, não despertou. E enquanto recolocava a terra no buraco que havia feito, a tempestade desabou, sem gotículas para introduzi-la.
Bateu os pés antes de entrar na sala. Úmido, ele tremia de frio e luto, decidindo tomar um banho e forçar a distração com sofá e Netflix. Uma tentativa frustrada de ignorar a dor que tarda, mas não falha. Foi quando entrou no banheiro e trocou de vez o banho natural pelo banho artificial que ouviu o barulho. Um latido.
O latido. Não um latido.
Decidiu desligar o chuveiro um pouco para reduzir os obstáculos dos seus ouvidos, mas apenas escutou a chuva. Não era necessário, claro. Já havia concluído que os diferentes jatos de água e o seu estado de espírito deviam lhe estar pregando uma peça. Religou o chuveiro, pois o frio estava prestes a fazê-lo tremer como Cão apenas para escutar, entre chuva e chuveiro, o latido. Mais audível. Mais concreto.
Desligou o chuveiro de vez e usou a toalha para se secar. Dessa vez, ouvira. Certeza. Cão? Um novo latido, vindo do jardim. Um latido mais ou menos próximo. Um latido mais ou menos familiar. Mas sentiu-se idiota. Cão estava no jardim, mas dentro de um buraco. Estava no jardim, mas soterrado junto a outros sentimentos. Devia ser um cão do vizinho. Um cão da rua. Um cão qualquer. Não Cão.
Pensou no latido familiar. Cães têm latidos diferentes. O de Cão é agudo e rachado. É alto e de longa duração. Para ouvidos desatentos, é um latido que se aproxima da lamentação, mas ele conhece seu Cão. Perdão, o latido do Cão era agudo e rachado. Era alto e de longa duração. O latido que escutei agora parece o de Cão, mas não é. Cão estava ocupado, derramando o que sobrou da sua energia no buraco do jardim.
Voltei a minha atenção para o sofá e Netflix. Espaçados, os latidos continuaram. Cada vez mais próximos. Pensei que o cão poderia ter fugido do vizinho e se infiltrado no meu quintal. Mas era o cão, não era um gato. Cães não têm a habilidade de se deslocarem sobre telhados. Isso é privilégio dos gatos. Pode ser que eu tenha deixado o portão aberto. Será que eu deixei
Latido.
Sofá e Netflix. Agora tive a impressão de escutar o raspar na porta que Cão executava com suas unhas caninas. Pode ser o cão da rua que, em meio à chuva, forçou sua entrada em minha
Latido.
Sofá. O raspar na porta persiste. E se for Cão? Afinal, deixei sua cabeça mais próxima da superfície caso ele decidisse despertar. Pode ser que ele tenha resistido ao tumor no fim das contas. Impressão minha ou a barriga dele se mexia sobre o pano? E se eu tiver cometido um terrível engano e ele está lá fora nesse exato minuto? E se ele estiver aguardando a minha recepção e, em razão da chuva, treme de frio?
Silêncio.
Ergo-me do sofá e me aproximo da porta, mas nada escuto além do som da chuva. Ele deve estar tímido, claro. Cansou de chamar seu dono e deve estar prestes a uivar no jardim, uma última tentativa de me despertar da letargia. Abro a porta pronto para recebê-lo em meus braços.
Mas ele não está lá. A chuva persiste e sua cova está remexida, claro. A ação da chuva deve ter dispersado a terra sobre ele. Algumas coisas são difíceis de enterrar.
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