Fábio Kalvan
Terça-feira, 13/08/19 – Estou moída, hoje foi pesado. Odeio tiros, parece que o coração vai sair pela boca ou que vou morrer afogada. Chega a dar ânsia de vômito. O Paulo, esse nunca está satisfeito, só fica gritando “mais, mais!”… diz que demoro na virada, que preciso forçar a braçada e melhorar a propulsão, mas como se estou no limite? O resultado é esse, o corpo todo desconjuntado, penso fazer uma coisa e a perna faz outra. E com esse sol onipresente, a água morna, chego em casa mole mole… Passei voando na padaria, louca que estava para chegar em casa, só peguei o leite e saí. Nem sei como estou escrevendo. Na verdade sei sim, botar as coisas no papel tem me ajudado a manter a cabeça no lugar. Bom, pelo menos amanhã só tenho técnicas e musculação, sessão mais tranquila, o Paulo não grita tanto e a ansiedade baixa um pouco. Agora deixe comer a gororoba que a nutri me passou antes que eu durma sentada.
Quarta-feira, 14/08/19 – Estava relendo o que escrevi ontem e hoje de fato foi mais tranquilo, graças a Deus, porque eu estava precisando. O Paulo fica pegando no meu pé por causa do meu ataque, diz que o ângulo não está bom, que não sei o quê… daí que fiquei fazendo uns educativos, uma repetição sem fim, um saco mas pelo menos tenho mais sossego. E teve a musculação… bom, musculação é musculação, eu preferiria uma surra de caibro, me sinto uma idiota mas não tem como escapar. Agachamento é um tipo de tortura, só pode. Mas gosto quando o dia é assim pois termino mais cedo. Tive sorte de pegar de cara o 3.70, vim conversando com o cobrador e quando dei conta já estava a dois pontos de casa. Pude sentar um pouco na padaria, tomei um expresso, comi um doce (que a nutri não me leia), conversei com o seu Américo, com o Dimas. Seu Américo é um fofo, sempre preocupado comigo, me ajuda muito, não teria dinheiro para tudo o que pego lá. Ele me incentiva, dá conselhos, sempre diz que devo estudar, que essa minha vida é curta, que tenho que pensar no futuro… ele tem razão. Já o Dimas só quer me comer, ele e as “cantadas de padeiro” dele. Às vezes fico de saco cheio, às vezes até que gosto. O que eu não entendo é a Sueli, sempre de cara fechada comigo, sempre me atendendo com má vontade. Nunca fiz mal a ela. Sei lá… Bom, deixa eu ajudar a mãe a terminar a faxina.
Quinta-feira, 15/08/19 – Nossa, estou com a cabeça cheia, parece que vai explodir. Cheguei do treino e estava a maior briga em casa, a mãe discutindo com o Antônio. O de sempre: que ele não estuda, que não quer saber de trabalhar, que fica vagabundeando o dia inteiro. Um inútil… Já falei para tomar cuidado com o Alicate, que todo mundo no bairro sabe com o que o Alicate anda metido, mas não ouve, diz que é amigo de infância, que vivia aqui em casa. Terminou que o Antônio saiu batendo porta e a mãe ficou chorando… Sonho sair daqui, dessa vida, desse lugar, mas com a bolsa que recebo da prefeitura, sem chance… Antes, quando passei na padaria, estava lá a Sueli querendo me fuzilar com os olhos. Sinto até uma coisa estranha quando ela vem me atender, uma energia pesada. Se peço um cappuccino, então, parece que o mundo vai acabar. Ela não fala nada mas nem precisa. Fiquei pensando se não é porque o Dimas fica todo cheio de graça para cima de mim… será que eles têm alguma coisa? Ela tem ciúmes de mim? Se ela soubesse… Para completar, o dia inteiro eu nessa ansiedade, o Paulo me cobrando, incentivando mas cobrando, a prova domingo agora, minha preocupação em fazer um bom tempo, talvez eu tenha alguma chance. Será uma puta experiência, mas estou com medo, reconheço. Medo que, engraçado, some quando estou na água, sobretudo naqueles segundos depois que mergulho e antes de começar os movimentos, quando estou submersa, quando tudo é paz, quando sinto o abraço mais apertado da massa líquida, quando o barulho do mundo some e ouço o silêncio quase absoluto. Gosto até do cheiro do cloro, da ponta enrugada dos dedos. Ali me sinto bem. Por isso que meu lugar é na água. É difícil mas é meu lugar.
Sexta-feira, 16/08/19 – Meu irmão não dormiu em casa, a mãe ficou desesperada e eu não consegui dormir direito. Uma merda… O bom é que, sem treino (a prova é depois de amanhã), pude ficar na cama até mais tarde, para compensar. Mas a ansiedade, essa continua, meu Deus… me lembra quando passei da piscina para águas abertas, o receio de não dar conta, de ser um fracasso, de rirem de mim. A mesma sensação agora. Se bem que dessa vez é prova maior, mais gente, chance de ser vista por um clube grande. E será minha primeira vez em Ubatuba. Até a Poliana Okimoto vai estar lá, quero uma foto com ela, sonho encontrá-la…
Fui há pouco pegar o maiô e a touca que vou usar domingo com o nome da padaria e me deu um estalo: será que a louca da Sueli tem inveja de mim? Será que ela me acha muita coisa e por isso me odeia? Que doida… Eu tive foi sorte de conseguir vaga na escolinha da prefeitura, de encontrar o Ricardo, que achou que eu levava jeito e me indicou para treinar com o Paulo… Não fosse isso e a balconista da padaria seria eu. Ou da farmácia. Ou caixa do mercado. Ou diarista, que nem a mãe. E se não conseguir um bom resultado na prova, quero ver o que vou fazer… Vida fácil? Só se for a dela, branquinha, bonitinha. Não sei de onde ela tira essas ideias… na escola ela não era assim…
Sábado, 17/08/19 – Estamos saindo para Ubatuba. Um iceberg mora na minha barriga.
Domingo, 18/08/19 – Fecho os olhos e o que me vem são flashes. Três braçadas, o sal queimando na boca, via alguém do meu lado, mais três braçadas, a escuridão abaixo de mim, o bote da organização, três braçadas ainda, sinto que chutei alguém, mas tudo em ordem porque apenas desconto aquilo que foi praticamente um soco na minha orelha esquerda instantes atrás. Entre uma respiração e outra, quando os sons estão distantes como em sonhos, vejo o Paulo exigindo mais, vejo todo o esforço da mãe, vejo a cama do hotel para onde quero voltar, me vejo pequena diante dessa água toda, me vejo grande no alto de um pódio. Vejo também enorme, gigantesca, a cara desagradável da Sueli. Numa braçada relo em algo e consigo perceber que é a boia, queria me agarrar a ela mas não, a praia está chegando, consigo vê-la já, tenho vontade de rir e engulo um oceano. Tudo some. Tudo reaparece quando alguém me ampara na praia, quando Paulo em abraça, quando alguém me diz que consegui. A mãe vai ficar contente, Seu Américo também, o Antônio não está nem aí e a Sueli terá enfim motivo para invejar minha medalha.
