por Américo Paim
Essa história é conhecida, mas, me pediram, então conto de novo. Pode ter um esquecimento aqui e ali, mas, acho que lembro quase tudo. Quando esse caso se deu, eu só tinha três anos como encarregado de empacotamento e ia bem. Meus amigos também não iam mal. Edvaldo, sério e observador, bom com os números, logo seria promovido. Já Justino, bruto que só, ia demorar. Trabalhava duro, mas era esquentadinho. Os mangangões não gostam de encrenqueiro. A gente tava sempre junto. Com esse meu jeito brincalhão eu já conhecia todo mundo e tudo que é canto na empresa.
Nosso chefe, Seu Walter, era caladão, de pouca brincadeira, mas, gentil na conversa. Você contava com ele. Tinha uns quinze anos no gato. Às vezes almoçava com a equipe, mas, se misturava pouco. Nunca tinha visto nada de estranho nele, até aquilo em 1994, vinte e seis anos atrás.
Foi Edvaldo quem atentou um dia no refeitório, mais ou menos assim:
– Reparou, véi?
– O que, rapaz?
– A chefia – falou apontando com o olho.
– Qual é?
– Muito calado, cara enfezada, pouco papo.
– Ué, e daí? Só você eu já vi assim umas mil vezes.
– Não, é diferente. Olhe bem. Mal sorri. Parece que nem tá aqui.
– Deve ter dormido na sala. A mulher dele é braba?
– É sozinho, tem mulher não.
– Deve ser nada demais. Vai caçar o que fazer, peão.
– Sei não. Ali tem coisa.
Não dei muita trela, mas como outras pessoas comentaram depois, passei a ficar esperto. No cafezinho, na oficina, no vestiário, catei daqui e dali e juntei as pedras. Tava era muito chateado com o chefe dele, o Gerente, Dr. Armando, homem mais grosso que parede de cadeia, com quem ele sempre se reunia.
Em junho, uma sexta-feira (lembro bem porque ia comprar lembrança de aniversário pra minha mulher depois do horário), Seu Walter me chamou para ir com ele na sala do chefão. A entrega em Alagoinhas tinha virado problema grande. Ele precisava dos detalhes do que aconteceu. Chegamos na sala, a secretária pediu para esperar. O homem chamou logo.
– É esse aí o encarregado? – falou sem cumprimentar.
– Sim, senhor, é o José Silva.
– Já vi por aí – a voz dele era seca, alta e firme, feito trovoada.
– A gente se falou uma vez, Seu Armando – respondi, nervoso.
– Vamos ao assunto, que é grave e está se repetindo. Mais da metade da carga chegou com danos nos pacotes e alguns estavam abertos. O que têm a me dizer? Quando isso vai acabar? – falou, já alterado.
– Doutor, estamos investigando e…
– Chega de desculpas! – interrompeu!
– Mas, senhor, já lhe expliquei que esse sistema automático de fechamento tem problemas sérios. Precisamos resol…
– Não quero mais ouvir! – gritou. Acha que vou dizer aos Diretores que um sistema que entrou em operação outro dia e custou milhões não funciona? – gritou ainda mais alto e bateu na mesa. Quero resultados e cabeças! Cansei de explicar a incompetência de seu setor! Você não tem pulso! Nem sabe fazer um “X” no papel, um “O” com um copo! Coloque sua equipe no eixo ou eu vou fazer isso! É só!
Saímos da sala e ele tava na beira de explodir, vermelho, mas, silencioso. Puto, mas não perdeu a linha. Mandou reunir o pessoal. Achei que eu ia morder a boca. Passou o recado com uma frieza que vou lhe dizer. Os problemas continuaram e eu participei de mais uma reunião com o Gerente, que foi ainda mais pesada e humilhante. Nem vou falar o que o casca grossa disse. Incrível o chefe se manter calmo. Eu tremia.
Aos poucos a situação melhorou um pouco, mas ainda em junho, reparei pela primeira vez, aquele troço esquisito no refeitório, onde todo mundo se via. Seu Walter fez um bolo de comida no centro do prato e amassou como se fosse um paralelepípedo bem pequeno. Depois, com o resto da comida, fez quatro montinhos em volta, como as quinas de um quadrado. Tudo com uma cara sem emoção. Bebeu água e olhou o prato. Misturou a comida, levantou e foi embora. Esse ritual se repetiu quase todo dia em junho e julho. Sempre o mesmo padrão. Às vezes, parecia que tava rindo enquanto derramava molho ou ketchup no montinho do meio. Outras vezes, como que rezava ou falava sozinho, com umas risadinhas no meio. Eu não conseguia enxergar tudo que ele futucava no prato, mas, no fim, sempre misturava a comida de novo e ia embora.
Fui conversar sobre aquilo com meus amigos. Estava cismado.
– Você viu, magro (é como eu chamo o Edvaldo)! Eu sei que viu.
– Falei que ele tá meio besta das ideia.
– Tá um pouco demais, né? Será que é o Armandão enchendo o saco demais?
– Também acho, Zeca – me disse o Justino. Ele é problema puro.
– Ele é um cara legal. Queria perguntar se tá tudo bem.
– Pra que se meter? Fica na sua. Ainda vai sair de puxa-saco. Tô dizendo.
– Tá estranho. Fala cada vez menos. E essa coisa da comida? Sem pé nem cabeça!
– Velho, saia dessa lama aí. Deixa quieto – alertou Edvaldo.
Na última sexta-feira de julho, Dr. Armando saiu de férias. Fiquei aliviado que não rolou demissão. Começou agosto, o setor em paz e eu, ainda sem coragem para perguntar, olhei o sujeito repetir o mesmo ritual que me dava nos nervos! Tentei ignorar, mas aquilo já me desconcentrava. Chamei ele para almoçar no refeitório, mas, de forma educada, recusou. Mais de uma vez. Ficava sozinho. Sempre.
Segunda-feira seguinte, uma coisa mudou. Ele fez tudo igual, mas, depois de derramar o molho, sorriu mostrando os dentes e comeu tudo! Foi um nó na minha cabeça. Na terça, ele repetiu. Resolvi que ia perguntar no outro dia, sem falta.
Quarta-feira de manhã eu passava na rua do prédio administrativo e vi um carro da polícia em frente à Diretoria. Fiquei curioso e me juntei ao grupinho que já tava ali. Mal tinha chegado, saíram pela porta principal dois homens com jeitão de meganha e… Seu Walter! Um susto! O que poderia ser? Um homem bom e sério como ele? Devia ser algum engano. Fui na secretaria, mas não consegui nada. Ninguém sabia ou não queria falar.
Quinta cedo, na hora do café, Justino entrou no refeitório, corrido.
– Já viram o jornal? Viram? – estava que nem respirava direito.
– O que foi, homem?
– Dr. Armando! Mataram o home.
– Como assim? – peguei o jornal com pressa, surpreso com a notícia.
– Olha aí na primeira página! Tem até uma foto. É ele!
A manchete era bem clara: “Executivo da Transportadora Passos Dias Aguiar encontrado morto no Parque dos Flamboyants!”. Na reportagem dizia que a polícia já tava com um suspeito na delegacia.
– Olha na policial, olha! –Justino falou, nervoso.
No início da página, uma fotografia grande, muito boa, daquelas tiradas do alto, dizendo que era o lugar que encontraram o corpo. Outra foto tinha o nome da pessoa detida: Walter Cardoso Pinheiro. Era ele! Como era possível? Ainda meio besta, olhei de novo a foto. Meu coração quase saiu pela boca quando percebi que era uma praça, com um flamboyant em cada canto, como quinas de quadrado. No centro da praça, um monte alto de folhas secas, com quatro fileiras de gravetos saindo dele na direção de cada uma das quatro árvores, como que formando um “X”. Embaixo daquela pilha estava o corpo. Perdi a fome.
