– Neyde, vai chamar o Joca, teu irmão, que com você eu não falo mais. Diz pra ele trazer esse desaforado do Adalto que pra botar chifre na minha cabeça teve coragem, quero ver se tem pra me olhar na cara e devolver a honra.
– Zé, não fala assim, vai acordar as crianças, guarda isso, não vai fazer besteira.
– Ô, Neyde. Besteira? A besteira aqui já foi você quem fez.
Uma Neyde chorosa e apressada bateu o portão deixando pra trás a porta da cozinha aberta e o Zé sentado, riscando o tampo da mesa com a faquinha de picar fumo. O olho embaçado se recusava a piscar. Tomou mais um gole de cachaça.
No fogão, a chaleira estranhou o atraso. Pela hora já era pra ter fervido a água do café. O coador de pano, impaciente, permaneceu imóvel pendurado no escorredor.
As têmporas do Zé palpitavam no compasso da torneira frouxa pingando na cuba de inox. O relógio parou um pouco depois da três mas já era quase cinco da manhã e os barulhos da cidade começavam a engrenar mais uma quarta-feira.
*
Neyde entregou a traição no confessionário antes de uma comunhão. O padre tinha fama de fofoqueiro, mas ele, um túmulo, era só uma vítima das viúvas desocupadas que se aproveitavam da má acústica do lugar pra se inteirar das novidades. Da confissão pros ouvidos do Zé precisou de umas duas semanas.
Adalto, pouco mais de dezoito anos, trabalhava como assistente de pedreiro na obra da casa nova do Seu Jair, na rua de baixo, atrás do açougue. Nos primeiros encontros a cautela era pra não marcar o corpo nas paredes de alvenaria recém erguidas. Agora, com a laje batida, já se improvisava um lugar pra deitar.
O Zé vivia de uns bicos que o obrigavam a viajar pelas cidades da região, os trajetos eram curtos mas já eram o suficiente pra atiçar a sua lombar beirando os cinquenta. Nessas idas e vindas, a fogosa Neyde se rendeu aos encantos de Adalto e ele lhe fazia tão bem que ela nem aparentava ter quase o dobro da idade do amante.
*
No dia anterior, por volta das cinco da tarde, Zé inventou um trabalho urgente em Lobato. Não tinha o que fazer, mas precisava pensar no que fazer. Chegando lá, não conseguiu levantar do banco tamanho o peso na cabeça. Seriam os chifres? Deixou o ônibus fazer o caminho de volta. Cinco filhos. A Neyde ia fazer isso depois dos cinco filhos? Sempre achou Pelé, o caçula, mais escurinho que os quatro irmãos mais velhos.
O bate e volta do convencional foi tempo suficiente para que o bate-estaca de Neyde e Adalto começasse na obra. Zé foi da rodoviária até a construção numa respirada só. A certeza de um flagra lhe secava a boca. Mas ainda não tinha pensado na abordagem a ser tomada. Estava tudo muito escuro. A luz da rua entrava pelos vazios das janelas ainda não fixadas. Precisava se aproximar em silêncio para não dar chance da fuga aos amantes.
Se esgueirou até os fundos do quintal, bem rente à casa. Parou antes de chegar no que presumiu ser o quarto. Ouviu um gemido que arranhou sua honra mais que do que o cimento exposto entre os tijolos machucava seu braço. Apertou a parede com tanta raiva que se ela tivesse sido erguida naquele mesmo dia um dos blocos teria saído na sua mão. A nova janelinha revelaria uma outra mão. A de Adalto. Que apertava a polpa de uma das nádegas de Neyde quase com a mesma força do ciúme do Zé naquela hora, mas era desejo. Só aquela parede separava o traído dos traidores.
O grito do Zé não passou pela garganta que já tinha um coração e um pulmão respirando difícil entalados nela. O ciúme bagunça a anatomia das pessoas. A curiosidade atravessou a fúria e instalou o Zé de joelhos espiando o ato. O que é que Adauto fazia tão bem pra Neyde gostar daquele jeito?
– Sério, Neyde? Olhando assim ele não faz nada de diferente.
Virou as costas e caminhou pra casa, sentindo a junta das rótulas. A calça ainda com um pouco da areia do chão. O vulto do casal assombrado na janela banguela da obra.
Com as crianças dormindo, Zé foi até a cozinha, abriu uma cachaça pra esperar a mulher aparecer. O tempo de duas doses. Agora Neyde tinha ido atrás o irmão, pra intermediar a conversa. Foi uma penúria pra arrancar o Adalto de baixo da cama, temendo o pior. Quando os três finalmente foram ao encontro do marido traído, o padeiro já estava subindo a porta da venda. E daí pra formar plateia não precisou muito.
Um Adalto tremendo, uma Neyde soluçando e um Zé calado cavocando a mesa com a faca. Joca, constrangido pelo silêncio e com medo de que tudo acabasse em sangue segura o ombro do cunhado impedindo um gesto que nem foi feito.
— Leva a Neyde daqui, fica com ela se ela quer sem vergonhice mãe dos meus filhos que não vai ser
Zé vai embora com as crianças pra Lobato.
Adalto e Neyde ficaram juntos mas Neyde morreu de tristeza, nunca mais viu os meninos.
Uma semana depois que Zé se mudou ora casa nova, chega Josefina, a costureira. Os dois já ficavam se paquerendo desde quando a Neyde estava grávida do Genésio, o do meio.
Josefina trouxe junto os seus gêmeos, eram da idade do Pelé, mas mais parecidos com o Carlinho, o filho mais velho do Zé.
