BOCA DE CALANGO

Silvia Argenta

A água dentro do copo de plástico borbulha. As bolinhas efervescentes alaranjadas salpicam rápido, pulando acima do líquido e gerando um som único, que só existe quando a pastilha se derrete. Martin coloca o copo na boca, inala o cheiro adocicado do remédio e sente algumas gotas que batem no nariz. Decide prender a respiração, jogar a cabeça para trás e engolir tudo de uma vez. As narinas se dilatam, o bigode branco fica molhado e os olhos, avermelhados, marejam – não se sabe se por causa do sonrisal ou por outro motivo. Parado na porta da farmácia, passa a mão para secar a boca e encontra o amigo Rafael com quem não fala há trinta e três anos.

Era 1987. As praias de Florianópolis ferviam com os biquínis asa-delta e os campeonatos internacionais de surfe. Fosse só por isso, a temporada já seria icônica pelo fato de a cidade despontar como destino turístico, mas veio a calhar que os tripulantes de um navio internacional jogaram a carga toda em alto-mar porque estavam sendo perseguidos pela polícia. As imagens do momento em que encontrou os objetos de alumínio na praia da Joaquina voltam com tudo à cabeça de Martin. O mar estava gelado como sempre, só que a curiosidade naquela noite foi maior.

Rafael está a caminho da farmácia para comprar algum remédio que o faça parar de espirrar. Não importa se o tempo está seco ou úmido, o espirro vem, normalmente sem aviso. Meu corpo está cansado de tanto impacto. Já fui em vários médicos e nada de solucionar o problema. Não é rinite, não é gripe, não é resfriado, não é covid. É espirro. E só. Quando olha para a porta da farmácia reconhece o homem parado. Apesar da careca, confirma em pouco tempo que é o antigo amigo. Tenta desviar, mas é tarde demais.

– Rafael, de volta à ilha?
– Pois é… Me aposentei e decidi voltar a morar com minha mãe. Sabe como é, né? Solteirão, sem filhos.
– Como está dona Nadir?
– Nada bem. Os 88 anos já pesam demais.
– Ah, mas é da natureza. Tem que ficar numa naisse.
– Então… Difícil é take it easy. Atchim!
– Entre, meu caro, vou te ajudar.
– Você trabalha aqui?
– Sim, farmácia ficou de herança. E essa barriga tanquinho?
– Tô no shape. Mais um mês de treino e fico trincado de novo.
– Tem surfado?
– Não muito. Atchim! O swell não anda bom.
– Melhor não entrar na água por um tempo. Tó esse remédio aqui. Toma dois comprimidos por dia durante um mês. É por conta da casa.
– Poxa, valeu. Essa vai ser minha última tentativa. Se não der certo, vou partir para as benzedeiras, terapias holísticas, hipnose, o que aparecer.
– Pode confiar. Funciona.

Apesar da aparente simpatia, os dois estão incomodados. Medem as palavras para tentar evitar o assunto e se policiam para que não falem nada que remeta ao último dia como melhores amigos. Os olhares são discretos, mas atentos a todos os movimentos e expressões. A última vez que um confiou no outro foi naquela noite na Joaquina. Não havia poste na praia nem outro tipo de iluminação. Até hoje o lugar é meio deserto, com poucas construções nas redondezas. Estava um breu. Algumas latas encalharam na praia e chamaram a atenção dos dois, que estavam sentados nas moitas da restinga fumando um e encolhidos por causa do vento forte. Já na brisa, de cabeça feita, desceram até o mar para ver o que era aquilo. Dezenas, talvez centenas de latas de alumínio repousavam na areia branca e fofa depois de dias de viagem. Pensaram que era atum ou algo do tipo. Riram um monte porque a larica estava garantida.

Martin tirou o canivete do bolso, escolheu uma delas aleatoriamente e abriu. Daí, o riso ficou frouxo de vez. Cheirei para ter certeza de que não era delírio. E não era. Mesmo! Que maré de sorte! Ela estava socada de maconha mergulhada no óleo de haxixe. Maconha de primeira, não aquela que os dois pé-rapados estavam acostumados, misturada com bosta de vaca e sabe-se lá mais o quê. Depois chegou a notícia das quinze mil latas de maconha tailandesa, fechadas a vácuo, que boiaram pelo Atlântico e acabaram por inundar de juanitas o litoral do sudeste e sul do país. Os policiais não conseguiram apreender nem três mil delas. Foi o verão da lata.

Sozinhos na praia, nem hesitaram em puxar a seda para experimentar a novidade. A alegria por terem encontrado o tesouro era evidente nas bocas de calango, secas de tanto fumar. Depois de horas saudando o Bob, a questão era: como carregar aquilo tudo para casa? Colocaram o que deu no agasalho com zíper fechado, na cueca e na bermuda, de um jeito que pudessem movimentar as pernas para pedalar. Como não queriam dar sorte para o azar, decidiram enterrar na restinga as latas que não iam conseguir levar. E assim foi. Combinaram que não venderiam nada e que iriam aproveitar o presente de Iemanjá até a última ponta. O mar raramente chegava àquela altura da areia, e eles não demorariam a buscar o restante das latas.

No outro dia, Rafael pediu o carro do pai emprestado. O fusca ia ficar chapado de tanta marofa. O sol estava nascendo, as ondas eram perfeitas, mas nem levou a prancha. O foco do dia era outro: buscar as latas e dividir com o amigo. Foi seco na restinga, que estava com a areia toda revirada. Por um instante achou que foi ao lugar errado. Refez o trajeto na cabeça e era ali mesmo. Não havia lata nenhuma. Na praia, também não tinha mais nada de resquício da carga abençoada. Desesperado, dirigiu até a casa de Martin. A mãe dele disse que nem viu ele sair de casa, de tão cedo que foi para a rua. Ele só voltou dias depois.

A essa altura, surfistas e pescadores da região já sabiam até do apelido da maconha tailandesa: Mike Tyson. Quando lhe avisaram que o amigo havia retornado, Rafael foi até a casa dele, e Martin contou que conseguiu vender todas as latas em Garopaba. Nem precisa dizer muito. Caíram na porrada. Martin recebeu tanto soco que ele desmaiou e teve de fazer uma cirurgia de emergência para tirar o apêndice. Já Rafael tomou muitos tapas na cara que não dava nem para reconhecê-lo de tanto sangue. E ainda se achavam galera good vibes. Como as famílias dos dois são muito religiosas, combinaram pela última vez: ninguém poderia saber o que tinha acontecido. A amizade se esvaiu como fumaça. Martin deu uma parte da grana para Rafael, que decidiu sair da cidade. Fumar os becks que sobraram em outros ares lhe faria bem. Não dava para alimentar mais essa relação tóxica. Fez rituais de agradecimento ao navio e aos tripulantes todos os dias até a maconha acabar, pouco mais de um ano depois. Salve, Solana Star.

Na farmácia, Rafael encara Martin e muda de ideia. Não quero mais o remédio. Pressente que, se tomar os comprimidos, vai surgir a maré de azar. Do nada, a boca de calango volta. A amizade, que antes parecia fumaça, agora vira deserto. Pensa no dia que foi traído e afasta a caixa em cima do balcão. Prefere deixar a natureza agir como quiser. Dá um espirro e sai com o nariz escorrendo sem falar nada. A dor no estômago de Martin fica mais forte, e ele vai de novo para a prateleira. O sonrisal sabor laranja ajuda a digerir melhor.

Deixe um comentário