Por Filipe Masini
Zeca andava de cabeça baixa. Era como se um peso invisível o impedisse de andar ereto. Não sabia ao certo o que era, mas o acompanhava por todo lado e a todo instante. Vivia em um modo automático, sem grandes sobressaltos. Sua rotina, um tanto enfadonha, não se alterava. Às vezes, sentia uma vontade enorme de fazer algo diferente, mas logo a reprimia. Estava sempre sozinho. Suas únicas companhias eram três gatos: Jabá, Jerimum e Jenipapo. Mas estes não davam muita bola para ele. Eventualmente, recebia um arranhão de um deles. Sentia-se feliz, pois era o máximo de contato que tinha com alguém diferente dele.
Como de costume, terça-feira era o dia de sua caminhada ao redor do quarteirão em que morava. Durante uma hora inteira, dava treze voltas. Não se atrevia a mudar a rota. Escolheu um conjunto de moletom preto, que já tendia para o cinza, devido à quantidade de vezes que foi usado. O par de tênis também era cinza, mas por conta da silver tape que impedia as solas de se separarem do restante. Impaciente, preferiu não esperar o elevador, apesar de morar no décimo segundo andar, e desceu pela escada. Já no hall de entrada de seu prédio, olhou o seu relógio e ficou inquieto. Estava quatro minutos atrasados, o que lhe daria duas opções: ou teria que dar uma volta a menos para chegar na hora em casa; ou realizava o exercício completo, mas chegaria atrasado.
Uma sensação de pânico tomou conta de Zeca, mas respirou fundo e contou até dez, como a sua terapeuta o ensinara há tempos durante seu primeiro colapso. Um pouco mais calmo, resolveu que para não comprometer o resto da programação do dia, faria um novo caminho. Também não ficaria o sentimento de incompletude. Essa situação inesperada o fez ter medo. Olhando para o chão, nada além do chão, foi explorar um mundo novo.
Seus pés, em um ritmo constante marcavam o andamento dessa aventura. Era necessário que fosse dessa forma, apenas pensando em dar o próximo passo. Caso contrário, teria parado na primeira oportunidade e voltado para a sua zona de segurança. Ele tinha que provar a si mesmo que ainda possuía algum mínimo controle sobre sua própria vida. Mais alguns minutos em território desconhecido, ele ousou levantar a cabeça e olhar para frente. Como uma materialização de seus desejos mais íntimos, um rosto familiar passou por ele. Rapidamente, encarou o chão e seguiu em passos firmes, como se ao fazê-lo, aquela imagem que povoou seus sonhos por tantas noites, pudesse desaparecer. O esforço foi em vão. Ouviu seu nome uma vez. Depois outra. Apertou o passo. Até que uma mão encostou em seu ombro direito e ele foi obrigado a parar. Uma voz que ele não escutava há vinte anos soou do lado de seu ouvido.
– Zeca! Fiquei te chamando um tempão. Cheguei até a achar que não era você. Quanto tempo, meu amigo!
Um vazio se abriu dentro dele e a sensação era que estava em plena queda livre. Sempre imaginou este momento do reencontro, mas sabia que jamais estaria preparado para quando isto acontecesse. Demorou um segundo a mais do que deveria para se virar, mas era necessário para que o dono da voz não visse sua cara de espanto.
– Tonico… que surpresa. Desculpe, estava distraído e não percebi que você estava chamando.
Precisava ser o mais protocolar possível. Ele não podia abrir brechas para nenhum tipo de emoção. Suas pernas e mãos tremiam tanto que se medidos por um sismógrafo, daria algo em torno de 4 de magnitude na Escala de Richter. Tentava disfarçar seu nervosismo a qualquer custo. Para uma pessoa desavisada, os tremores facilmente poderiam ser confundidos com impaciência ou uma vontade desesperadora de urinar.
Antes que pudesse se preparar, Tonico se lançou sobre ele e lhe deu um forte abraço. Naquele momento, Zeca se viu com dezessete anos no sítio de um amigo da faculdade. As memórias vinham aos borbotões em sua cabeça: um hálito quente de cerveja; dois corpos se fundindo em um; um ninho reconfortante; um pacto de segredo selado através do olhar.
Quando Tonico se afastou, Zeca ainda estava imerso naquela regressão. Se fosse por ele, ficaria para sempre naquele dia. Mas a vida insistia em jogá-lo de volta ao maldito presente.
– Que saudade que eu estava! Há quanto tempo não nos víamos? Pelo menos uns vinte anos, né? Depois que você entrou na faculdade, cansou da gente!
Tentando ainda se recompor, Zeca se arrependia por ter tomado aquele caminho. Sabia que não podia ter saído da sua rotina e estava pagando um preço caríssimo por isso. Queria acabar com aquela situação o mais rápido possível. Não sabia por quanto tempo mais suportaria fingir que estava tudo bem.
– Pois é, muito tempo. Sabe como são as coisas… Muito estudo, muito trabalho.
– Mas me fala, como você está? O que você tem feito? Você sempre foi de poucas palavras, não mudou nada!
– Nada muito interessante. Desisti de ser engenheiro e agora tenho uma pequena loja de vinis no centro. Tenho três gatos que não gostam de mim. E você?
-Eu estou em um momento difícil. Me separei da minha esposa. Meus filhos não aceitaram o motivo da separação e ficaram do lado da mãe. Agora tenho morado de favor na casa de um amigo, mas ele já me deu um ultimato para achar um lugar. Acho que o namorado dele tem ciúmes de mim.
A sobrancelha de Zeca arqueou sem que ele reparasse. Da mesma forma quando um médico bate com um martelinho abaixo do joelho e a perna levanta. A sua expressão deve ter dado permissão para que o Tonico continuasse a falar.
– Sabe, Zeca? Ultimamente, tenho pensado muito naquela viagem que fizemos ao sítio do Carlinhos. Éramos muito jovens, mas me marcou muito. Você se lembra daquela noite?
Ele não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Era como se ele tivesse escrito aquele texto e pedido para Tonico falar. Tudo que ele sempre desejou, caindo em seu colo. Precisava responder à pergunta. Mas ele não estava preparado para isto. Veio à sua cabeça, o seu trecho favorito de Crime e Castigo: “Não sabia porque lhe era impossível confessar o seu crime, mas sentia-o e ficou esmagado pela dolorosa conveniência da sua fraqueza”. Entendeu ali o que Raskólnikov vivenciara. Por dentro, ele queria gritar de felicidade, mas só conseguiu responder:
– Lembro muito pouco daquele dia. Acho que foi o meu primeiro porre. Bem, foi ótimo te encontrar, mas preciso ir. Tenho um compromisso agora.
Não deu nem tempo de ver a decepção estampada no rosto de Tonico. Ele se virou e andou em direção ao seu prédio. Só parou de olhar para o chão assim que colocou a chave na fechadura de seu apartamento. Soltou um suspiro e deixou seu corpo cair sobre o sofá. Ao seu lado, Jenipapo olhava para ele com um certo ar de desprezo, como só os gatos sabem. Zeca o encarou de volta e, pela primeira vez, ousou acariciar a sua cabeça branca com manchinhas pretas.
