
Há basicamente dois tipos de narradores não-confiáveis. O mais conhecido é o narrador na primeira pessoa. Os grandes autores que usam este procedimento contam histórias escondendo do leitor alguns detalhes, ou então mentindo descaradamente, ou ainda nos seduzindo a ponto de não conseguirmos ter certeza sobre o que estão narrando – e até acabamos amando alguns horríveis narradores.
Estão nesta lista Lolita, de Vladimir Nabokov, uma história de amor entre um europeu de meia-idade e uma adolescente americana, contada do duvidoso ponto de vista do tiozão sukita Humbert Humbert. Ou Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver, em que a mãe de um menino psicopata escreve cartas ao marido tentando mostrar que Kevin era um pequeno monstro desde o nascimento. Ou Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que Bentinho nos convence de que foi traído por Capitu e que o filho dos dois é, na verdade, filho de seu melhor amigo.
O outro narrador não-confiável é na terceira pessoa. Não confundir com o narrador onisciente “puro”, aquele classicão, na terceira pessoa, que se mantém afastado da psicologia dos personagens. Estamos falando aqui do onisciente intruso ou intrometido: narra de modo passional, envolvendo-se emocionalmente com a história que está contando. Quase sempre usando a técnica do discurso indireto livre, incorpora pensamentos, sensações e emoções do protagonista (primeira pessoa) na narração (terceira pessoa).
Este narrador volúvel e pouco confiável é uma alternativa estimulante à disposição do ficcionista que quer fugir do lugar comum. Ele narrador sonega informação e distorce certos fatos, a fim de melhorar sua reputação e ludibriar o leitor.
“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor. Habitamos simultaneamente a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem, e a ponte entre eles – que é o próprio estilo indireto livre – fecha essa lacuna, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a distância. Esta é a apenas outra definição da ironia dramática: ver através dos olhos de um personagem enquanto somos incentivados a ver mais do que ele mesmo consegue ver”, escreve James Wood em Como Funciona a Ficção (Cosac Naify).
Wood cita o clássico Pelos Olhos de Maisie, de Henry James (Penguin/Cia) como um dos exemplos máximos de indireto livre, bem como o conto “Os mortos”, de James Joyce – além de Flaubert, Tchecov, Faulkner, Pavese e o sobrecitado Nabokov. Os pós=modernos David Foster Wallace, Thomas Pynchon e Don DeLillo amplificaram o indireto livre, incorporando à narração, fora a voz do personagem, cacoetes típicos da comunicação de massa.
Outros craques contemporâneos no estilo são Ian McEwan, Jonathan Franzen e Julian Barnes: qualquer livro deles narrado na terceira pessoa é modelo de boa prosa em indireto livre. Por aqui, um ótimo exemplo recente é o romance Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera.
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No conto, temos Alice Munro como mestra suprema na arte de equilibrar a câmera sobre o ombro do protagonista – um jeito cinematográfico de explicar como funciona o discurso indireto livre. Ou seja, a câmera não está na primeira pessoa, está um pouco atrás, rodeando a cabeça do protagonista.
Para ver como isso funciona, vamos ler o excepcional “Com vista para o lago” (in Vida Querida, Cia das Letras), cujo final catártico demonstra como nunca devemos dar confiança a dona Munro.
BIBLIO
Caso queriam se aprofundar na teoria literária para entender os meandros do discurso indireto livre e do narrador não-confiável, vai aqui uma bibliografia especializada:
A personagem de ficção, de Antonio Candido e outros autores [Perspectiva]
A arte da ficção, de David Lodge [L&PM]
Os cem melhores contos brasileiros do século 20, em especial o prefácio de Ítalo Moriconi [Objetiva]
O foco narrativo, de Ligia Chiappini Moraes Leite [Ática]
A criação literária (volume 1), em especial o capítulo sobre o conto, de Massaud Moisés [Cultrix]
Teoria do conto, de Nádia Battella Gotlib [Ática]
PROPOSTA
Seu personagem fará uma pequena viagem cujo destino final esconde uma revelação crucial sobre sua personalidade ou sua vida.
IMPORTANTE 1: COMECE NO MEIO.
IMPORTANTE 2: planeje seu conto. Antes de escrever, saiba o fim.
Narre no presente, na terceira pessoa, usando o indireto livre.
Descreva os lugares por onde ele vai passando e as pessoas que ele vai encontrando ao longo do caminho.
RESTRIÇÕES
Seu personagem tem um transtorno psicopatológico (pesquise). Mas: a revelação crucial sobre sua personalidade ou sua vida não tem nada a ver com este probleminha.
- sonambulismo
- paranoia
- ansiedade
- anorexia
- fuga dissociativa
- narcisismo
- explosivo intermitente
- compulsão sexual
- síndrome de despersonalização
- hipocondria
- fetichismo
Escolha uma dessas paisagens como ponto culminante:
- praia
- viaduto
- árvore
- banheiro
- mata
- túnel
- lanchonete
- montanha
- motel
- deserto
Escolha um subgênero para sua narrativa:
- horror gore
- ficção científica psicológica
- policial escandinavo
- romance gay
- drama familiar
- comédia negra
- suspense sobrenatural
- faroeste caboclo
- drama de época
- falso documentário
Use uma destas epigrafes como inspiração:
- “Que eu não tenha medo de nenhuma humilhação tanto pode ser sinal de desespero como de esperança” (Kafka)
- “O essencial é invisível aos olhos” (St Éxupery)
- “Toda exibição é vaidade” (Virginia Woolf)
- “A única questão importante é o suicídio” (Camus)
- “Mas ali onde há o perigo cresce também o que salva” (Hölderlin)
- “É preciso ser sem escrúpulos: expor-se, arriscar-se, trair-se; comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio.” (Freud)
- “O ser humano é o único animal que sempre quer mais” (Millôr)
- “A partir de determinado ponto não há mais retorno. Este é o ponto que deve ser alcançado” (Kafka)
- “Quantas coisas há no mundo das quais não preciso!” (Sócrates)
- “Deixa os gay ser gay, deixa os gordo comer, deixa as mina dar, deixa eu fazer meus filhos, deixa as pessoas” (Mr Catra)
Em tempo real: ou seja, esta viagem deve ser curta – algum roteiro dentro de uma cidade, ou de uma cidade a outra. Ele pode ir a pé, de bicicleta ou de transporte público, mas não pode dirigir nem pegar um táxi ou um Uber.
Em mais ou menos 8 mil toques.
















