Por quem

O encontro entre Carolina e Marília não poderia acontecer naquele momento em que Carolina sabia que teria que ser a melhor das pessoas junto à amiga. Atender prontamente todas as mensagens que chegavam no WhatsApp, não deixar que o pontinho não ficasse azul, que não se passasse mais de três minutos entre uma chamada e uma resposta era seu papel. Não poderia falhar dessa vez. Depois de 7 anos, Lázaro tinha deixado Marília. Sem aviso prévio, sem uma briga estrondosa e nenhuma porta batida sem vento, às vésperas do natal.

Antes, bem antes de se mudar pra Londres, Carolina e Marília se conheceram através de uma amiga em comum. Uma fazia direito na PUC; a outra, arquitetura na Federal. A amiga em comum veio para uma através de um fã clube do Los Hermanos; e por um conhecido de outro conhecido para a outra. Talvez o que aproximasse mais as duas então amigas fosse o fato de que ambas tinham muitos segredos que tentavam esconder de si mesmas. Quando Marília contou que se relacionava há três anos com Caco, Carolina fez que tudo bem e marcaram de conversar como se fosse corriqueiro. Combinaram um almoço no shopping no domingo. A profusão de vozes na área de lazer minimizaria o impacto do conteúdo da conversa. Se tivessem marcado num café qualquer do centro, poderia aparecer um conhecido. Durante o almoço, nenhuma das duas conseguiu tocar no assunto. Marília queria desabafar, Carolina queria fingir que achava normal que a amiga estivesse num relacionamento com um cara dez anos mais velho e casado. Carolina, do alto de seus vinte e poucos anos, porque não lembra exatamente quando foi que ficou sabendo, não poderia ter maturidade para assumir o papel de conselheira. Esperava que Marilia começasse a desabafar para ser uma boa ouvinte.

O almoço no shopping foi um divisor de águas na amizade e na vida de ambas. Nem uma desabafou e nem a outra ouviu. Carolina carrega até hoje a culpa de não saber lidar com a situação. Não se lembra muito bem como foi que desfizeram o mal estar e colocaram o assunto como ponto de desabafo e despudores na amizade. Só sabe que aconteceu e que virou também, sem querer, amiga de Caco, já que o assunto morria ali sem ameaças. Caco foi uma virada de chave pela qual a amizade das duas se tornou um fluxo contínuo de conteúdos humanos dignos de deepweb. Namoros, dores, desejos – principalmente estes – e frustrações que só entre as duas eram verbalizados. Carolina se mudou para Londres, para trabalhar em uma agência de publicidade (é, a arquitetura não bancou as contes), depois do carnaval em que Lázaro apareceu para Marília. Foi o único capaz de arrancar ela do amor devoto, fiel e secreto que depositava em Caco, mesmo sabendo que jamais seria assumida. E, caso fosse, quem aceitaria? Marília, medindo 1,60, magrinha, namorando aquele homenzarrão, enorme e largo, divorciado, cujos gastos de vida familiar nunca foram exatamente compatíveis com a atividade de produtor cultural.

Lázaro parecia estranho também. Engenheiro, metido a engraçado, prático demais para ser boa pessoa. O estereótipo do hétero branco de classe média que não atraía nenhuma das amigas. Mas era um trampolim pra sair daquela situação, era o que Carolina achava, enquanto beijava quem queria e quem não queria no bloco para criar espaço para Marília vestir qualquer fantasia naquele dia. Quem poderia imaginar que, sete anos depois, ela estaria casadíssima com o cara que joga videogame e toma cerveja artesanal sem reclamar de quase nada. E que esse mesmo cara se sentiria a vontade para, vez ou outra, usar o computador da “namorida” (como Carolina odiava essa expressão) para comprar, ainda que na conta dele, da qual ele não deslogou, todos os eletrodomésticos da casa nova que ele decidiu ter sem avisar.

Quando Carolina foi para Londres, ela também tinha terminado um relacionamento longo e fechado uma casa dividida. No começo, achou que passaria ilesa. Antes só do que mal acompanhada. Já em Londres, fazia o papel da ex louca, que manda e-mail, que escreve de madrugada sem que ninguém tenha dado o gatilho a não ser a própria memória que uma hora dizia dentro dela mesma: você não acha injusto que ele guardasse os panos de chão sujos dentro do armário? Será que foi a mãe dele que ensinou isso? Como pode alguém querer ter uma casa sem fogão ou geladeira para não parecer adulto demais? Pelo menos Carolina sabia que Lázaro aspirava os pelos dos gatos que tinha com Marília. Só por isso não devia ser tão idiota quanto parecia naquele carnaval da libertação.

A vontade de Carolina era pegar um avião. E dessa vez dizer à amiga: grita aqui, comigo. Grita tudo pra mim, mas não deixa essa vontade de falar e resolver o que ele não quer te explicar te fazer ir atrás dele. Ele não quer explicar e a revolta é esse comprimido que fica parado no meio da garganta, mas eu te dou um copo d’água ou aperto sua barriga para destravar o caminho do ar. Não tem música que vai te fazer melhorar. Nem vontade de ficar gostosa que te erga, porque o ânimo de arrumar uma academia vai estar preso debaixo das cobertas que te envolvem dentro de um quarto escuro. Já tinha sido difícil a situação de Marília com Caco. Não por ser difícil abandoná-lo para ficar com Lázaro, mas por ter que lidar com ele não aceitar ser abandonado pela amante. E que palavra horrível de se aplicar para uma mulher de vinte e poucos. Nas novelas da Globo as amantes eram mulherões. Vera Fischer no alto de seus quarenta, loira, gostosa, sedutora, decidida, ainda que submissa. Quem olhava para Marília e Carolina, apesar da diferença de altura, via duas meninas que cresceram sem ficar com cara de mulher – ou seria de protagonista de novela das 21h na Globo? Era uma dúvida eterna na cabeça de Carolina, que via que as mulheres independentes levavam sua imagem muito mais a sério em Londres.

Chegaram mais três mensagens de Marília no celular de Carolina. Todas com o máximo de caracteres permitidos. Era ela contando que Lázaro repetia que o fim era definitivo. E pedindo que ela fosse madura o suficiente de não cobrar que ele pagasse, junto com ela, a multa de rescisão de aluguel. Ela sabia que ele não tinha esse dinheiro. Foi ela quem pagou o aluguel esses anos todos pra ele conseguir juntar dinheiro porque estava ganhando pouco como engenheiro civil na era Lava Jato. E que isso não fosse suficiente para que ela o pintasse de monstro para os amigos. Ele estava se mudando para Pinheiros, precisava morar sozinho. Quem pagaria o aluguel todo mês e as compras de eletrodomésticos novos?

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