por Américo Paim
A pequena e muito simpática sala de espera ainda estava vazia, o que deixava Mirtes bem à vontade. Demorei muito a vir conhecer isso aqui. Não faltou convite, é verdade. Só Dani me falou umas dez vezes. E esse café, então? Charmoso. Comprou um expresso, esforçando-se para não olhar os doces proibitivos. Seguia firme na dieta, orgulhosa pelas conquistas após quase um ano de muito sacrifício.
Tanto tempo sem ir ao cinema. Só mesmo uma mostra de filmes antigos para eu sair da toca. Achou lindo que resgataram cartazes da época dos filmes. Dava um clima de nostalgia que ajudava. Duas semanas de películas raras! Só não gostei de dois filmes no mesmo horário. Vai ter dia que vou perder algum bom. Que droga!
Ao sentar-se à mesa redonda com dois lugares, decorada com um vaso esguio de porcelana delicada com uma flor amarela que não identificava, olhou sem pressa à sua volta. Já havia mais gente agora. Um casal de idosos ria de algo no celular. Só pode ser foto de neto ou piada de sacanagem. Tia Vilma é bem assim. Devem ter a idade dela. Reparou no jovem bonito de terno com o notebook, que devia ter vindo direto do trabalho, mas fixou o olhar mesmo em duas moças na casa dos dezessete anos, de mãos dadas, que conversavam animadas apontando o cartaz de “Na teia do destino”, um dos filmes do dia.
– Lisa! – chamou o atendente, com voz de locutor, interrompendo suas lembranças.
Rindo discreta, Mirtes aproximou-se e recebeu seu café, divertindo-se com o nome que dera ao fazer o pedido. De volta a seu lugar, viu que o homem na mesinha à sua frente, do outro lado do corredor, a encarava. Coisa desagradável. Falta do que fazer. Não disfarçou o espanto e o desconforto quando ele veio em sua direção.
– Com licença. Você é Mirtes, não? – sua voz era doce e acolhedora.
– Como sabe meu nome? – gaguejou sem jeito e desconfiada.
– Fomos colegas no ISBA, ora! Mudei tanto assim? Salomão!
Ela agora o reconhecia. O menino que sentava calado nas filas de trás. Mais de vinte anos! Está bem melhor agora. O tempo fez bem a ele, mas a roupa está horrível. Nunca reparei esses olhos verdes. Será que são lentes?
– Claro que lembro agora! – sorriu burocrática.
– Posso? – apontou a cadeira.
– Sim, por favor. Você usava uns óculos fundo de garrafa, né?
– Não a culpo por me lembrar assim, sei que foi marcante – falou com ironia.
– Desculpe, não quis ofender, mas foi o que me veio à cabeça.
– Sem estresse. Com quase todos é sempre assim – retrucou sincero.
– Muito tempo, hein? O que faz da vida? – mudou ela, rápida.
– Sou jornalista. Trabalho para o Correio e em outros lugares.
– Que massa!
– Você fez Arquitetura, me lembro.
– Mesmo? Que vergonha. Eu não lembrava que tinha escolhido Jornalismo.
– Fiz Engenharia, mas abandonei. Não era para mim.
– Bem diferente! – disse, já relaxada. O jeito de falar dele a tranquilizava.
– Sim, ainda surpreende alguns, mas devemos seguir o que gostamos.
– Verdade. Vejo que temos um gosto em comum: filmes antigos.
Aquela evolução a surpreendeu. A conversa fluindo e ela a perder o medo. Ele lhe soava confiável e parecia interessado, mas era um estranho, claro que sim. Na época da escola nunca foram tão próximos e agora esse papo todo? Embora não tenha sentido vontade de cortar, pensou quais seriam suas intenções? Continuo falando ou devo dar uma desculpa? Vou ao sanitário? Sua ansiedade foi vencida por um comentário capcioso.
– Não perderia essa retrospectiva de Max Ophüls por nada. É um dos meus preferidos. Você deve gostar mais ainda, não é? Achei curioso dar aquele nome quando pediu seu café.
– Como assim? – balbuciou, desconversando.
– Bem, eu já estava aqui. Você falou baixo, mas achei que tinha ouvido certo. O moço gritou o nome e eu confirmei.
– Estou aqui procurando um lugar para enfiar minha cabeça – disse, com riso nervoso.
– Bobagem. É um nome bonito. Imagino que falou por causa do filme, não é?
– Como?
– “Carta de uma desconhecida”! Não é o filme que vai assistir? É o nome da personagem de Joan Fontaine. Acertei?
– Claro… isso mesmo… Você é muito ligado! – estava constrangida.
– Lindo demais. Vi algumas vezes, mas hoje vou para o outro – falou devagar, a estudar a expressão de quase aflita que ela mostrava.
– Pois é. Faz tempo que vi. Nem me lembro direito da história.
– Sério? Engraçado, pensei o oposto.
– Acho que não entendi.
– Sabe, Mirtes, sentar no fundo da sala ajuda a ver muita coisa, se formos atentos. Eu não era popular, exceto por minha esquisitice, claro, mas observava tudo.
– Continuo perdidinha – falou tentando disfarçar sua apreensão.
Acho que vou cortar isso agora. O que esse cara quer comigo? Tá ficando estranho aqui. Queria sair, correr, fugir, gritar. Nada veio, porém e ele continuou.
– Sempre via vocês juntas. Célia, Patrícia, Mila, você e ela.
– Ela, quem? – seu olhar foi de quem está à beira do fim.
– Sua Elisa – falou com ternura e firmeza.
Como assim “Sua”? Mirtes emudeceu, sem ação pelo golpe. As pernas fraquejaram, sentiu uma onda fria. Meu Deus, o que é isso? Nunca ninguém soube. Enquanto seus olhos viravam água, ele, muito sutil, puxou sua cadeira para mais perto dela. Pegou-lhe as mãos paralisadas com segurança.
– Não tenha medo. Desculpe. Não pensei que fosse mexer tanto com você.
– É que… Como… – não conseguia terminar as frases que nem existiam.
– Seus olhares e gestos nunca deixaram dúvidas. Todas juntas eram como uma entidade, mas entre vocês duas era especial. Eu achava bonito, devo dizer.
– Era uma outra época. Eu não sabia o que era aquilo. Tinha medo – falou em pausas, sentiu-se estranha pela confiança que estava dando.
– Sim, mas hoje podemos falar e fazer.
– Demorei muito para viver o que sou – fitou-lhe melancólica.
– Quando disse Lisa no balcão não foi por Joan Fontaine, certo?
Não lhe respondeu. Apenas apertou-lhe as mãos, olhando-o com seus restos de lágrimas. Um gesto inesperado diante de quem deveria ser visto como um estranho, mas que já lhe parecia diferente agora. Quem dera ter alguém como ele naquela época, para conversar, contar. Será? Vivia tão só com tudo aquilo dentro de mim.
– Peço desculpas pela cena, mas não estava pronta para algo assim.
– Esqueça. Veja, nossos filmes vão começar – murmurou, consultando o relógio.
– Será que podemos continuar depois da sessão? – arriscou, corajosa.
– Claro que sim, Tita. Era assim que lhe chamavam, né?
– Sim! – disse, encabulada.
– Opa, temos um sorriso!
– Você também tinha um apelido, né?
– Que é melhor nem falar… – disse, resignado.
– Desculpe-me por nunca ter visto além das lentes grossas. Quem sabe recuperamos?
– Tenho certeza.
Trocaram telefones e cada um seguiu para seu filme. Sentado na poltrona, Salomão tomou um gole da água com gás e, vendo o título do filme na legenda, pensou nas coincidências que a vida enredava, com em uma teia. Ao mesmo tempo, na outra sala, quando o título do filme apareceu na legenda, Mirtes suspirou, descobrindo-se feliz porque foi lida por alguém, como em uma carta.
