
“Eu fui peregrino em terra estranha” é um famoso versículo do Êxodo que aglutina a um tópico onipresente na literatura. O exemplar mais famoso deste tema é Estranho Numa Terra Estranha, clássica ficção científica de Heinlein (Aleph), em que um homem nascido em Marte é enviado à Terra e não entende porra nenhuma. O tema está em diversas literaturas pelo mundo e às vezes se mixa a outros temas que são verdadeiros subgêneros, como o tópico “últimos homens sobre a Terra”, presente em diversos livros de FC (por exemplo Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson, ou Sozinho no Deserto Extremo, de Luiz Bras, ou A Estrada, de Cormac McCarthy).
Um dos livros fundadores da literatura brasileira, Hans Staden Ou A Verdadeira História dos Índios Devoradores de Homens passeia pelo tema do estranho-na-terra-estranha. Por conta das grandes navegações, muitos exemplares da literatura dos séculos 16, 17, 18 e 19, ao tematizar o choque entre civilizações distantes, Ocidente e Oriente, impérios e colônias, também usam este tema como norte, sempre tendo em perspectiva o conceito de “alteridade” (isto é, a construção do Eu na observação do Outro), como por exemplo Robinson Crusoe, de Stevenson.
Na literatura moderna, choques entre culturas têm ressuscitado o tema, como os contos “O informe de Brodie” e “O etnógrafo”, de Borges, e o terrível conto “Um episódio distante”, de Paul Bowles. Contemporaneamente, o tema tem sido tratado em contraponto a um comportamento onipresente em nossa cultura: o turismo. Daí temos livros como a sátira A Guimba, de Will Self. Os mal-entendidos tipicos do exílio, engrenagem que move o estranho-numa-terra-estranha, comparecem em filmes como Lost in Translation, de Sophia Coppola, ou romances como Estação Atocha, de Ben Lerner.
Um astro, um bárbaro, um inimigo, um zero à esquerda
Provocador e empreendedor, Dave Eggers é um dos escritores mais originais dos EUA. Após a fama mundial com Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, ele fundou a editora McSweeney’s, que publica a The Believer, talvez a melhor revista literária do mundo, e envolveu-se com o ativismo político. Um de seus livros mais criativos é O Que É O Quê, um romance não-ficção que biografa Valentino Achak Deng, líder dos Meninos Perdidos do Sudão, e recentemente teve adaptado ao cinema seu romance O Círculo. Com frequência Eggers transita entre não-ficção e ficção, usando a autoficção como apoio de sua vigorosa e bem-humorada escrita, sempre fluente e leve, por vezes estruturada com elementos de gamification.
É o que ele faz no conto abaixo, “Outro”, presente na coletânea A Fome de Todos Nós (Rocco) e baseado em uma experiência autobiográfica. Começa de um jeito leve e até meio clichê – um sujeito de meia-idade em crise faz uma viagem para um lugar exótico – , até que as coisas não dão muito certo. É interessante atentar aqui para o contraste entre o comportamento depressivo do personagem e a experiência de deslocamento geográfico, que o força a aproximar-se de pessoas estranhas. E também como a paisagem pode contribuir para a criação da psicologia do personagem. Outros pontos a destacar são os mal-entendidos, que fazem a narrativa avançar, e o humor que surge por causa da inadequação do protagonista com o ambiente. Note como as situações se repetem com pequenas variações, sempre piorando.

PROPOSTA
E é isto o que você vai fazer: escrever um texto em que seu personagem é um estranho em uma terra estranha.
Use experiências pessoais. Mas não é necessário ser 100% verdadeiro. Ou seja, você pode (e deve) usar sua experiência para mentir. Em outras palavras: o protagonista não será você, podendo preferencialmente mudar de gênero, idade, cor, classe social, profissão etc.
O seu conto deverá ser escrito na primeira pessoa e será uma narrativa traumática ocorrida durante uma viagem. O seu protagonista deverá interagir com outros personagens, terá problemas com animais, objetos e falas, redundando em mal-entendidos. Seria bom também ele ter algum desconforto físico.
Foque: a inadequação, os sentimentos de isolamento, angústia, desconexão, empatia e, é claro, maravilhamento, fascínio ou espanto para com a terra estranha.
Importante: entrelace as descrições da terra estranha com suas sensações e seus diálogos.
Toque: faça com que outros personagens descrevam o protagonista, ou seja, tente ser visto pelo olhar alheio.
Dica: comece já no meio da viagem e termine antes que algo impressionante aconteça.
Restrições
- proibido usar celulares ou gadgets eletrônicos
- proibido usar o dinheiro para se virar
- proibido pedir ajuda para compatriotas
- proibido recorrer ao consulado
- proibido ficar em silêncio
Tentações (escolher)
- um ser sexualmente atrativo
- uma paisagem sensacional
- um tesouro escondido
- uma comida muito rara
- uma experiência que nenhum amigo seu teve
Tretas (escolher)
- errar o caminho e perder-se
- falar com a pessoa errada
- envolver-se em uma confusão
- dar uma gafe cultural fatal
- cometer uma transgressão
Em 7 mil toques.










