por Américo Paim
No ponto do Quartel, em Amaralina, Heitor entrou no ônibus com a metidez habitual, desfilando sua beleza atlética e morena, como embarcasse em viagem de primeira classe. Miguel, seu equilibrado amigo, pegou antes, na Pituba, em um ponto perto de casa. Os dois com vinte e cinco anos.
– Não podia ser táxi, meu caro?
– Boa tarde pra você também. Sobra mais grana.
– Esse calor cansa minha beleza.
– Você se acha, né? – riu.
– Onde vamos mesmo? – ignorou a provocação.
– Já disse. Meu primo Osvaldo veio do Rio e vamos dar um giro no Pelô.
Já no Rio Vermelho, uma sinaleira fechada. Quando ele começou a mudar? Na escola era ótimo, mas desde a faculdade ficou deslumbrado. Sei que ele não é assim, mas agora só pensa no próprio umbigo.
– Vamos descer na Medalha Milagrosa?
– Vai atrasar.
– Nada. A gente bate um coco e depois pega um buzão mais vazio.
Enquanto bebiam assistindo ao futebol na quadra, o mar ao fundo e o vento aliviando os graus, chegou o Álvaro, que esperava para entrar no próximo baba.
– E essa dupla inseparável? – falou animado.
– Fala, Alvinho. Tá em forma, hein? – disse Miguel. Só ele falou.
– Vão jogar?
– Não, temos reunião de trabalho em duas horas – disse o marrento.
– Bons tempos dos babas da faculdade – aliviou Miguel.
– Sim, tenho saudade – disse Álvaro, olhando estranho para Heitor, que soltou a pedrada.
– Fiz muito golaço aí – falou com expressão superior.
– E o Beto, nosso grande craque? Onde anda? – provocou Miguel.
– Eu era melhor. Ele agora trabalha numa farmácia no Largo do Tanque, meu filho. Não deu em nada – a fala dele foi tão inesperada que os outros dois emudeceram.
– O que isso tem a ver? – indignou-se Miguel, após alguns segundos.
– Viemos da mesma lama, mas ele vai ficar lá, eu não – disse o marrento, puxando o amigo pelo braço. Até, Álvaro, estamos com pressa.
Entraram no ônibus que chegou quase ao mesmo tempo em que atravessaram a rua. Ainda não creio. Ele tá louco. O que foi aquilo com Alvinho?
– Pra que a mentira e os coices, véi?
– Não quero muito papo com pessoal que tá desempregado.
– Como assim? O cara é nosso! Era uma conversa à toa. Grosseria da porra!
– Tá sensível, né? Fica na sua. Ainda vai me agradecer.
A arrogância e o desprezo dele pela própria história incomodavam o amigo cada vez mais. Nascido e crescido longe das dificuldades, Miguel era solidário, talentoso e esforçado, ia bem na empresa, já líder de grupo. Logo teria promoção, todos apostavam. Seu amigo estava uma posição abaixo, mas agia como se fosse o oposto.
– Peguei muita mulher aqui, hein? – falou assim que passaram pelo Farol da Barra.
– Como?
– Concentração dos blocos. Passei o rodo geral. Não lembra?
– Recordo coisas diferentes.
– Não me inveje, reconheça e me supere, se puder – riu alto.
– Até parece. As melhores você passou batido e viraram namoradas de seus amigos – falou irônico, rindo também.
– A melhor sempre será a minha.
Quando o ônibus parou perto do Porto, Miguel, inocente, chamou a atenção para alguém no ponto. Era Aline, conhecida antiga, sempre linda com seus cabelos negros e sorriso de comercial de TV. Acenou para ela, que retribuiu efusiva, mandando beijos aos dois. Heitor nem sorriu, só murmurou que não queria dar muita trela, pois ela estava a fim dele. Esse cara pensa que é o último Ferry-Boat pra Itaparica! Fala sério! Precisa de um tranco. Que coisa! Depois do Campo Grande, já na Praça da Piedade, atiçou um assunto.
– Outro dia encontrei o velho Tenório ali – indicou o Gabinete Português de Leitura.
– Melhor que isso só atropelamento.
– Eu gosto dele. Cara correto, muito generoso.
– Incompetente recalcado, péssimo chefe.
– Por que fala mal assim? Quanto ressentimento. Ele é bom gestor há anos.
– É fraco. A promoção do Cristiano para aquela vaga no meu setor prova o que digo. Devia ter sido eu, mas ele influenciou contra mim. O dele tá guardado. Ainda vai beijar minha mão.
– Ele não teve nada a ver com aquilo, cara. Já falamos sobre isso.
– Você é muito ingênuo. E ele tentar me incriminar na história do assédio àquela representante comercial ano passado? Esqueceu?
– Foi o contrário! Ele lhe defendeu! – falou e se exaltou.
– Tá louco? E ficar falando dos meus erros toda vez que me encontra, com conselho de botequim? Velho intrometido.
– Você não tem sentimento, seu animal. Ele tá sempre querendo ajudar. Lhe falei muitas coisas que aprendi com ele e você aceitou as dicas como minhas.
– A velha Praça Castro Alves… – desconversou Heitor.
O trânsito engarrafou em frente ao Cine Glauber Rocha. Chateado, Miguel calou. Eu devia contar a esse ignorante só pra ver a cara. Pouco depois do retorno na Misericórdia, desceram na Praça Municipal, perto da esquina da Ladeira da Praça. Seguiram a pé pela Sé até o Terreiro, Heitor em silêncio, um mecanismo conhecido. Não vou adular. É tudo que ele quer. Chegaram ao Terreiro e entraram no famoso Cantina da Lua. Ainda no primeiro copo de cerveja, Miguel acenou e sorriu. O amigo virou-se esperando ver Osvaldo, mas chocou-se ao ver sua mãe, Dona Manuela, senhora elegante por natureza em seu vestido branco e Tenório, cabelos alvos, bigode fino e postura um pouco arqueada. Após os cumprimentos, sentaram-se.
– O que é isso? – encarou o amigo com raiva.
– Fui eu. Pedi a Guel que ajeitasse, sem lhe contar. Tenho assunto sério – disse Dona Manuela. Pede água para nós, meu filho? – falou para Miguel.
Heitor percebeu rápido que havia algo mais ali e lhe veio uma aflição, que tentou disfarçar. O que tem esse velho tem com minha mãe? Ela começou.
– Com tudo que venho observando, decidi lhe contar a verdade sobre seu pai.
– Que papo é esse? O que é que eu não sei? – falou tenso.
– Seu pai não morreu em um acidente. Ele foi morto – a frase, crua como um tiro, assustou o filho. Éramos jovens e pobres, em Belém do Pará e namorávamos tinha uns seis meses, mas as famílias não queriam. Eu vivia com minha mãe viúva quando seu pai se meteu com o povo do tráfico, atrás de dinheiro.
– Belém do Pará? Ele não era caminhoneiro? Quanta mentira é essa, mãe?
– Não julgue tão fácil. Me deixe terminar.
Heitor tomou um copo de uma vez. Seu amigo o olhava com alguma pena. O velho seguia mudo. Ela bebeu um gole e retomou.
– Um dia, em um bar, um rapaz rico que tava drogado provocou, rolou briga de faca e seu pai levou a pior. A polícia foi atrás, ele capotou o carro e morreu também. Sobrei no mundo, grávida e sozinha.
– O que a senhora fez, tia? – perguntou Miguel. Heitor sem forças para falar.
– Não sabia o que fazer e o pouco dinheiro tava acabando. Semanas depois, um homem me procurou; era o pai do assassino – disse para o filho.
Heitor fitou o velho. Ela continuou.
– Sim, o filho dele matou seu pai.
– E você nessa calma, como se não fosse nada? – sua voz subiu, mas ela foi enérgica.
– Ainda não acabei. Sente aí. Ele ofereceu ajuda assim que soube que eu tava esperando. Queria pagar pela criação da criança. Me contou sobre uns amigos em Salvador e eu vim para cá fazer minha vida com trabalho honesto. Se você chegou até aqui, também foi por causa desse homem – Heitor não conseguia uma palavra.
– Ué, mas ele não é rico – falou Miguel.
– Sim, não mais – falou Tenório, afinal. Minhas lojas de materiais quebraram porque gastei muito com tratamento de saúde de minha esposa, por causa de tudo. Quando ela morreu, eu vim para Salvador, já sem muito.
– E foi trabalhar no mesmo lugar que ele…
– Os amigos ajudaram. Como Heitor já tinha mais de 18 e Manuela se mantinha, meu dinheiro não era mais tão importante. Resolvi ajudar na carreira dele, entrando na mesma empresa, para ficar perto, influenciar. Ela sabia, mas pedi segredo.
– Quando você começou essa maluquice de falar mal dele, reclamar que lhe perseguia e prejudicava, chegou a hora de ter essa conversa – falou a mãe, olhando o filho.
Seu Tenório suspirou e Manuela deixou suas lágrimas descerem livres, exorcizados seus demônios. Com a mão do amigo sobre seu ombro, Heitor olhou a mãe e o velho e tentou beber mais um gole. O copo e ele estavam vazios.
