Helô Mello
O que salva?
“Mas ali onde há o perigo cresce também o que salva” (Hölderlin)
Está quase lá. Paulo odeia dirigir. Tenta se convencer que foi um chamado. Não podia negar o pedido. Até podia, mas algo o atraiu. Agora já não tinha tanta certeza se vai valer a pena.
Escaneia na memória detalhes sobre Gonçalves. A cidade, com um pouco mais de 4 mil habitantes, costuma receber visitantes, atraídos por uma vida mais saudável, e escritores, como seus amigos, Reinaldo Moraes e Marcelino Freire, que se refugiam, nessa suposta tranquilidade, para trabalhar. Foi lá que conheceu Camila. Ela tinha uma loja de produtos artesanais próxima a igreja matriz, Nossa Senhora das Dores. Ele, que nem se interessa por qualidade de vida e muito menos por artesanato, mergulhou até nas quedas d’agua geladas da Trilha das Bromélias, para seduzi-la. Ficou uns dois dias dolorido, já que seu maior esporte era acompanhar os jogos de futebol pela TV em seu apartamento. Se esforçou para adaptar sua vida de sofá e delivery ao estilo natureba, dessa garota, que conheceu no Namaste, bar que costumavam experimentar as pingas da região, com seus amigos escritores.
Precisa prestar atenção na estrada. Quase ultrapassa sem ver o caminhão vindo na outra direção. A luz, ao entardecer, envolve as montanhas mineiras com um verde suave, mas engana. Ele também foi enganado. Passou por Cambuí, segue para o Córrego do Bom Jesus. Camila mora no Campestre, poucos quilômetros do centro. Não sabe como será o encontro, depois de tantos anos sem se ver.
O impacto foi enorme, por isso o transtorno. Decorrência do trauma, disse o médico. Por isso segue mergulhado nas fotografias abandonadas. Seu trabalho, uma obsessão? A fronteira entre realidade e fantasia nesse caso é quase tão suave como o final do dia na Serra da Mantiqueira. O carro na estrada de terra chacoalha como sua cabeça, relembrando o dia que descobriu que ela tinha outro namorado, que estava para chegar. Cai no buraco. Espera não ter furado o pneu.
Ainda tem recaídas. Os distúrbios começaram logo que voltou para São Paulo. Paulo Cintra, repetia. As vezes esquecia letras do próprio nome. Elas se embaralhavam com as imagens. A relação com Camila foi curta, mas intensa, nisso devem concordar. Estava disposto a largar a feirinha no Bexiga, o garimpo de fotos, álbuns e cartões postais, para ajuda-la na venda de artesanato e mergulhar na pinga, à noite, com os amigos escritores. Foi passar uns dias e se instalou de vez na casa dela. Nem sonhava voltar. Ia se habituar. Ele era amarelo. Ela azul. Juntos, formavam as cores da Mantiqueira, costumava brincar.
Foram dias, como as ruas de Gonçalves, que pareciam calmas, mas nunca planas. Quase parou de fumar, só um ou outro cigarro, no final da tarde, depois de uma transa ou de um
almoço orgânico, sem pressa nem carne. Começou a escutar o som dos pássaros, dos micos, do vento, do silencio e de um ou outro fantasma. Mas esses, ele ignorava. Deviam ser por conta do baseado, mais saudável na serra.
Não falavam do futuro, ignorava sua vida em São Paulo. Mergulhou na bolha que criou para ele e Camila. Pouco sabiam da vida um do outro. Alta e magra, contrastava sua agilidade com a barriga de chopp e a falta de coordenação. Não tinha jeito para trabalhos manuais, mas podia ajudar nas vendas. Conversa era sua especialidade. Passaria as tardes batendo papo com os clientes, contando da vida alternativa que estavam construindo em Gonçalves, só omitindo detalhes, que poderiam contaminar a história, para os ouvintes e para si próprio.
Descobriu, de véspera, a chegada do outro namorado. Não era adepto ao amor livre. Compartilhava, com dificuldade, umas cervejas e poucos amigos. Camila, ao contrário, insistia nessa prática, ainda que nem sempre com grande sucesso. Foi a primeira grande briga dos 5 meses que não se desgrudaram. Chovia fora e dentro a tempestade. Depois de uma noite de discussão, quando amanheceu já estava na estrada de volta para São Paulo. Saiu tão transtornado que levou sua geleia artesanal preferida do café da manhã e a roupa do corpo. Dormiu na pista e seu carro capotou. Saiu melhor de que o carro, perda total. Camila tentou algumas vezes contato. Sem sucesso, desistiu rápido, ele avalia.
Foi depois disso que a síndrome começou. Se assustava quando saía de seu corpo e interagia com os personagens de suas fotos. Ficava fora de controle. Durava muito tempo, como se estivesse num sonho acordado. Os personagens, todos preto e branco, como sua vida, conversavam e ele buscava Camila pelas páginas em todas as pilhas de fotos. Ninguém a conhecia. Ela devia ter ido para outro álbum? Se sentia, de novo, abandonado. Quando recobrava a consciência, podia passar alguns dias olhando para aquelas fotos, e recordar as conversas descoladas. O que sentia era pânico? Permanecia dentro do álbum, fora de si. Talvez por isso ele cuidava tanto desse material, que se acumulava pela casa. Alguns ele levava para vender aos domingos, onde encontrava colegas das outras barracas e alguns clientes que compartilhavam sua paixão na feirinha. Chega em Gonçalves. Bem na hora. Não quer se desconectar do corpo. Ha tempos que não sente mais nada, mas a lembrança da separação, de rever Camila tantos anos depois, o deixa tenso. O médico tinha alertado que poderia haver recaídas. A cura não estava garantida.
O pai da Valeria, amiga da Camila, tinha falecido em Gonçalves e descobriram, em um quartinho, muitos álbuns e fotos de família. Ninguém se interessava por elas, e queriam dar um destino a essas tralhas, como Camila descreveu na mensagem que mandou por ele via Instagram. Ela nem tinha mais o seu contato?! Explicou que tinha convencido sua amiga a doar para Paulo, mas a condição era que ele fosse buscar lá. Por isso teve que voltar. Ele achava que não conhecia a amiga. Nessa época só focava em Camila, sorrindo, vestido solto, despenteada, de rasteirinha. Sempre azul, sempre dele.
Paulo cruza a pequena cidade, que permanece igual, passa pela padaria São Francisco, onde ia comprar a sua manteiga preferida e pela casa das geleias, Nossa Senhora das Especiarias. Nunca mais comeu a sua geleia. A que ele carregou, herança da sua relação, se estragou na
dispensa. Lembra do dia que experimentaram todas as geleias, que são muitas, até ficarem enjoados. Jamais saíram de lá de mãos abanando. Finalmente chega na casa da amiga. Cruza a porteira e sente uma sensação estranha e conhecida. Camila e Valeria o esperam. Vê Camila na porta, os álbuns, várias caixas empoeiradas sobre a mesa. Camila sorri. Toda azul. De rasteirinha, despenteada. Ficou preto e branco. Escapou de seu corpo. Mergulhou nas fotos. Agora de vez. Bem que o médico alertou. Agora sim, vai morar nos álbuns. Está se diluindo, recortando. Não é mais Paulo, pau. Só Camila, estará sempre lá olhando para ele, no álbum de retrato.
