por Bruno Vicentini
Joaquim se obrigou a sair, mesmo sem querer. Sua mulher viajara e ele tinha que aproveitar a oportunidade, a chance banal de fazer algo diferente numa noite de sexta-feira, só pra não se arrepender depois. Encontrou o Basílio, sozinho, sentado no balcão do bar. Porra, o Basílio! Faz quanto tempo? Tava igual, nem mais gordo tava. Foram colegas de classe, depois amigos, na adolescência viviam juntos, bebendo, namoraram a mesma garota, quantos episódios tinham passado antes do amigo se mudar pra Curitiba – primeiro pra estudar cinema, mas depois arrumou um emprego, como jornalista, e ficou. Atualizaram-se rapidamente, tentando de alguma forma recuperar a velha intimidade.
– Se a gente soubesse, heim, Joca, se a gente soubesse que ia se trombar, depois de tantos anos, num boteco flozô como esse aqui, a gente teria achado que venceu na vida? Ou ia achar deprê total? – e deu uma risada espalhafatosa, uma risada nova, que lembrava o barulho de um porco. Pelo jeito ele achava que tinha vencido na vida.
Conversa vai, conversa vem, o amigo perguntou o que ele andava fazendo. Respondeu que ainda escrevia, sim. Tava sempre com três ou quatro livrinhos de poesia na mochila, pra entregar por aí, ou vender, quando conseguia, pra pelo menos ajudar com a gráfica. Mas justo naquela noite, merda, tinha saído sem nenhum. Foi buscar. Morava perto, foi correndo, pra não deixar o amigo lá plantado. Basílio apoiou o pequeno volume no balcão, molhado dos copos de chope, e o folheou sem nenhum interesse, como um cardápio qualquer, depois perguntou se isso de escrever dava um arame. Joaquim respondeu. Não foi resposta atravessada, mas fez com que Basílio olhasse pro amigo e o percebesse aborrecido.
– Você parou de fumar? Se importa se a gente for ali fora pra eu acender um?
Joaquim não se importava, imagina. Respondeu que a mulher ia bem, que não tinham filhos, que quase não tinha contato com a turma antiga, entre outros assuntos que o amigo se forçou a puxar, uma conversa fiada que ele foi aguentando apenas, e antecipando o fim da noite, que veio logo, muito antes do que ele imaginava, o bar ainda cheio, mas ele explicou que no dia seguinte tinha que acordar cedo, mentiu que batia ponto na repartição, uma desculpa para fugir do silêncio que se instalou entre os dois e sepultou a sexta-feira de forma precoce. Basílio não se incomodou, ia ficar mais um pouco, esperar pra assistir às portas do bar baixarem, em nome dos velhos tempos.
– Todo mundo bebe pra virar outra pessoa, Joca, mas você não, você sempre bebeu pra virar você mesmo.
* * *
Dias depois Joaquim encontrou o Basílio numa rua do centro, perto do sebo onde os dois iam garimpar livros e discos quando jovens. Um fingiu que não havia visto o outro, ambos conscientes da peça que encenavam, meio envergonhados. Isso foi de manhã. De tarde se encontraram de novo, num auditório da prefeitura onde iam exibir um filme de Jim Jarmusch. Já tinham se ignorado uma vez, duas no mesmo dia seria demais. Sentaram-se lado a lado. Quando o filme acabou, Joaquim saiu meio tonto, como acontece com as pessoas que ficam duas horas no escuro, ou talvez fosse efeito do filme, ele não sabia. Supôs que o amigo se sentia da mesma forma. Recordou que antigamente os dois adivinhavam até mesmo o pensamento um do outro, de tanto tempo que passavam juntos.
– Bora tomar uma? – Basílio convidou.
Como a mulher ainda não havia voltado, ele podia demorar um momento a mais na rua, não fazia mal. O boteco, o mesmo do outro dia, apesar de afetado tinha bom chope. Rumaram para lá, vacilantes, olhando as coisas da rua como se as vissem pela primeira vez, achando tudo estranho. Caminhavam como quem vai ser vítima de um golpe.
– É verdade aquela história, Joca, de que você quando era criança gostava de chupar as roupas molhadas do varal?
– Como você sabe disso? Eu nunca te contei isso.
– Contou, sim. Você não lembra porque tava bêbado. Você, quer dizer, a gente, a gente tava sempre bêbado. Normal você não se lembrar de muita coisa – respondeu enquanto batia a cinza do cigarro de uma mão usando a outra, com um peteleco, um tique antigo.
– Nunca. Eu lembro de tudo. Lembro até do que não queria.
Doze chopes depois, repetiram a cena: Basílio saiu pra fumar, Joaquim junto, sem saber o que fazer com mãos, que enfiou nos bolsos da calça. Basílio apontou para uma parede caiada na esquina oposta ao bar, onde se via uma pixação – “Deus tem” – já meio apagada.
– Se lembra?
– Do quê?
– Aquele pixo… é nosso, foi você que fez.
– Tá maluco?
– Foi, sim. Era pra ser “Deus tem caspa”. A lata tava no fim, começou a falhar. Alguém gritou e a gente correu. Mas eu gosto, acho que ficou até melhor assim. O muro é de uma igreja, os fiéis devem gostar também, porque até hoje ninguém apagou.
Joaquim ficou olhando pro tal muro como quem assistia a um filme sem legendas, falado numa língua que não existe.
* * *
Um mês depois teve outro Jarmusch, num festival de cinema alternativo da Universidade. Basílio ligou convidando, sabia que era um dos filmes preferidos do amigo. Mas o dia e o horário da sessão eram muito ruins, e Joaquim achou estranho ter que explicar pra esposa que iria ao cinema, numa quarta-feira à tarde, com um velho amigo, alguém que ele não via há tanto tempo e que ela sequer conhecia. Entre outras coisas, tentava se lembrar se, na primeira noite, haviam trocado telefones.
* * *
Quando viu que o cinema local – contrariando todas as probabilidades, cinema de cidade pequena é uma merda – estava passando Paterson, àquela altura um lançamento, Joaquim lembrou do amigo. Procurou-o nas redes. Ele agradeceu, disse que não iria – já tinha visto o filme. Joaquim mentiu que também já tinha visto, mas que queria ir de novo, tinha gostado muito. Imaginou que o amigo estava contrariado com ele por ter furado na última vez, e que queria de alguma forma se vingar. Mas com o filme já começando ele apareceu, os olhos apertados, procurando Joca no escuro.
– Resolvi vir, sei lá, acho que você tem razão, o filme é bom.
Os dois mais uma vez saíram meio tontos, de ficar muito no escuro. Tinha uma confusão formada na frente do cinema. Um flanelinha havia arremessado um pedregulho no vidro de um carro, com gente dentro. Chegou uma multidão pra acudir e segurou o rapaz, que se debatia, em pânico. Joaquim reconheceu a senhora que era dona do carro, tinha sido professora de gramática no colégio em que eles estudaram.
– A Dona Neiva, olha – apontou com o queixo.
– Quem? Não, não conheço – Basílio respondeu.
Joaquim achou estranho. Subiram a rua devagar, deixando toda aquela confusão para trás como se fosse um quadro num museu. Na esquina em que seus caminhos se separavam, Joaquim pensou em convidar o amigo pra um chope, como das outras vezes, mas hesitou por um momento e a ocasião passou, acabou não dizendo nada.
– Te vejo por aí.
– Sim.
Quando se cruzassem na rua, iam fingir que não se conheciam.
