Silvia Argenta
É dia de festa. A família circula por toda a casa. Pela fresta da porta, Laura observa o objeto de gesso. Ela está na sala conversando com as tias, mas precisa ver mais de perto o bibelô que está pendurado na parede do quarto da prima aniversariante. Já nem presta mais atenção nos questionamentos sobre quando vai se casar, nas orientações de uso do amaciante na máquina de lavar roupa ou nas dicas de como fazer bife à milanesa. Não posso ser julgada por isso. As mulheres se movimentam. Ela espera, respira e sente o suor nas palmas das mãos. A adrenalina vem. Agora não tem ninguém por perto. Os passos firmes no porcelanato indicam que está determinada. Vai até o outro cômodo, pega o anjinho rezando e em um segundo ele está em sua bolsa.
Não se despede de ninguém. Sai da casa da tia com um andar cambaleante pela calçada quebrada. Sente culpa. A bolsa e a consciência estão pesadas. Pensa em devolver, mas poderia ser descoberta. Melhor não. A rua é bastante arborizada e se sente aliviada em respirar de novo. Na frente da igreja, escuta o sino tocar e faz o sinal da cruz. Atrasada, está a apenas cinco quadras do ginásio. No alto, o outdoor exibe a foto da Coca-Cola suando, com destaque para as gotas que dá para imaginar escorrendo na lata vermelha. Faz calor. Passa por uma lanchonete e decide comprar. O impulso volta enquanto observa os petiscos e chicletes, que não lhe interessam. A garçonete diz que as latas estão quentes. Aceito mesmo assim. Ela vira de costas. Laura prende a respiração, começa a suar de novo e joga o saleiro na bolsa. Paga pelo refrigerante e continua seu caminho.
Já quase no ginásio, entra na casa da colega de trabalho. Ali estão guardadas as roupas que todas as professoras da escola católica devem vestir para a Festa do Sorvete, a mais aguardada do ano pelas crianças. A diretora alugou as fantasias de princesas e de todas as outras histórias da Disney, o tema dessa edição. Laura não tem mais como escolher. Só sobrou a do Pateta. Enquanto está na edícula vestindo a roupa, vê o carretel de linha em cima da máquina de costura. As hélices do pequeno ventilador no chão mal conseguem girar. Está muito quente. No quarto do adolescente da casa, o som alto anuncia: um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar. É um sinal. Ao se mover, sente a quentura do piso de pedra e o frio na barriga. Alcança o carretel e o coloca na bolsa.
Lá do portão, a colega, fantasiada de Minnie, grita seu nome. Saem pela rua carregando as cabeças nos braços e chegam juntas ao ginásio. As arquibancadas estão fechadas para evitar a correria das crianças longe do alcance dos adultos. A quadra central é suficiente para as brincadeiras de pula-pula e de gincana, que já começaram. Laura Pateta é responsável pelo freezer dos sorvetes, onde já tem gente esperando. Faz um coque no cabelo, veste a cabeça de papel machê e se sente sufocada com o cheiro forte de cola. Tem dificuldade em ver as coisas ao seu redor porque os olhos da cabeça da fantasia não ficam na mesma altura dos seus olhos. Mexe a cabeça para tentar focar em algo e, de relance, enxerga que o amor de sua vida está no ginásio. É hoje! O coração bate rápido, assim como os passos no linóleo para organizar a fila.
O sinal toca. Mesmo em dias de festa, é preciso ter disciplina. A diretora, vestida de Cinderela, anuncia no microfone que chegou a hora da oração. Pais, alunos e professores ficam onde estão, viram o corpo para a caixa de som e começam a cantarolar o pai nosso. Com o rosto tampado pela fantasia, não dá nem para checar se Laura está rezando ou não. Só penso no meu amor. Depois de anos relutando, vou abrir o coração para meu benzinho, que vai aceitar. Certeza. Chega de solidão. A cantoria termina e a algazarra continua. Começa a tocar muito alto a música da turma da Xuxa, que ainda é sucesso entre as crianças. Impressionante.
A fantasia pinica a pele dos braços e das costas de Laura, que volta a servir os sorvetes. Repara no napolitano e se coloca no lugar do morango e seu amor, no do chocolate. É preciso tirar esse creme do meio para que possamos nos misturar. Quem seria esse creme? A igreja? A escola? Ou então deixar o napolitano de lado e assumir que seremos um casal flocos, em que o creme e os pedaços de chocolate se complementam. Os gritos da molecada a fazem voltar à realidade. Exige que respeitem a fila e esperem sua vez sem reclamar. A mãe de um dos alunos se distrai e coloca uma caneta em cima do freezer. Fica ali dando sopa. Antes que ela note, vou pegar. Só mais esse por hoje. Prometo. Laura sua mais uma vez e guarda a caneta no bolso da calça, por dentro da roupa de Pateta. Ninguém repara.
Em geral, os alunos são comportados, mas alguns meninos não se contêm. Dão socos em suas pernas e gritam que o Pateta é loser, solteirão e gay. Com raiva, Laura bate os pés no chão e empurra os garotos com força. Um deles cai estatelado e começa a chorar. Daí é aquela novela que ela já viu tantas vezes. Vem pai reclamar, diretora reclamar, bispo reclamar. Haja paciência. Quando olha para o freezer, flagra um outro aluno pegando o pote inteiro de sorvete, sem a menor cerimônia. O sorvete, que ajudaria a refrescar, tem o efeito contrário e inflama Laura ainda mais. Deve ser o cheiro de cola da cabeça da fantasia. Ela arranca o pote da mão do garoto e dá lição de moral, dizendo que roubar é feio. “Roubar é palavra forte”, alerta o pai do menino. Ah, mas vá para puta que te pariu.
A Minnie chega a tempo de evitar que os adultos saiam no tapa. As crianças já estavam quase aplaudindo o espetáculo. A diretora Cinderela manda Laura ir até o vestiário para esfriar a cabeça e depois conversarem a sós. A Pateta abaixa a cabeça e obedece, a passos surdos. Escuta o barulho de mensagem no celular. É um pedido de encontro fora do ginásio. Agora? É para já. Joga a cabeça da fantasia atrás da porta do banheiro.
O caminhar de Laura é atrapalhado. O sol de quase cinquenta graus a desidrata quase que instantaneamente. Sente os raios queimando seu rosto. O corpo começa a suar mais ainda embaixo da roupa de pelúcia. Sem óculos nem boné, não consegue enxergar direito. Coloca a mão direita acima dos olhos para tentar ver alguma coisa. A rua solta um vapor quente, que desfigura seu formato plano. Na calçada, nota a silhueta de uma mulher embaixo da única árvore, aproveitando o pequeno espaço de sombra.
Olha para os dois lados da rua e avança. A sola do tênis gruda e derrete no asfalto quente. Laura tira o sapato e as meias. Descalça, sente toda a sorte orgânica que nasce do concreto. Chega perto da mulher com quem sonhou a vida toda. Ela está de braços cruzados e diz que viu tudo que aconteceu dentro do ginásio. Percebe o olhar mais congelante do que o freezer de sorvete. A fantasia de Pateta enfim lhe cai bem. As festas são sempre para os outros. O anjinho de gesso não reza por ela, o sal não tempera sua vida, o carretel não arremata uma história feliz e a caneta não escreve um novo roteiro. Não sei mais onde pisar. Tudo é areia movediça.
