Fábio Kalvan
Eduardo passou a toalhinha pelo rosto suado e foi em busca de água. Esses segundos de êxtase, antes do próximo exercício, eram sempre prejudicados pelo bebedouro, que nunca fornecia água na medida desejada. Teve que aguardar porque havia como que um corpo sem cabeça curvado sobre o aparelho. Quando a cabeça enfim surgiu tomou um susto.
“Marcelo?”
“Edu? Caramba, que surpresa. E aí, tudo bem?”
“Tudo em ordem. Pô, quanto tempo?”
“Sei lá, uns 20 anos, acho”
Todos conhecemos a situação. Alegria e constrangimento. Fomos muito próximos daquela pessoa, discos, ideias, livros, valores, bebedeiras e segredos compartilhados durante longo tempo, mas e agora? Como ligar essa pessoa de pé diante de nós com aquela com quem tivemos tantas experiências em comum? Eduardo e Marcelo se conheceram adolescentes no antigo segundo grau, por volta de 1990, e a amizade pegou forte, dessas que acontecem poucas vezes, até que a vida adulta trouxe trajetórias distintas e o contato foi rareando.
“O que está fazendo aqui?”, perguntou Eduardo.
“Resolvi criar vergonha na cara e cuidar um pouco do corpo, estou precisando”, respondeu Marcelo enquanto passava a mão sobre uma barriga saliente. “Comecei semana passada, quero ver se dessa vez não desisto. Mas você está bem, pelo visto”, devolveu apertando o bíceps do amigo.
“Cara, a gente tem que se cuidar. Tem que ter disciplina, ainda mais nessa altura do campeonato. Antes que seja tarde”, Eduardo pontificou, satisfeito com a observação sobre o estado de seu corpo de 46 anos.
Foram se atualizando mutuamente enquanto cada um seguia sua ficha de exercícios: casamentos e descasamentos, filhos, atividades profissionais, essas coisas. Para alívio mútuo os assuntos se esgotaram ao fim do treino, na altura dos abdominais, quando prometeram um café ou um chope: “a gente vai se falando”. Sabemos que não haverá encontro algum, ao menos o desfecho da conversa serviu para que seguissem seus caminhos com a sensação de que assim honravam anos de amizade. Eduardo seguiu para o vestiário, dali iria direto para o trabalho. “Que legal encontrar o Marcelo? Ele está acabadinho mesmo, precisa se cuidar”, pensou enquanto vestia sua camisa polo importada. Marcelo, pelo contrário, saiu suado e cansado pelas ruas do Bosque, já que morava perto e preferia tomar banho em casa, que também era seu escritório de advocacia. Levava consigo uma sensação agridoce, satisfeito por ver o amigo bem ao mesmo tempo em que pressentia ressurgirem episódios indigestos.
Encontraram-se dias depois, também na academia mas sem o estranhamento da vez anterior.
“Firme no treino?”, perguntou Eduardo.
“Mais do que gostaria e menos do que deveria. Estou com o corpo todo dolorido”.
“Já já passa”, incentivou Eduardo. “E depois vira rotina, tanto que a sente falta do exercício. Começa a cuidar mais da alimentação, maneira na bebida, dorme melhor. Eu mesmo só como carne branca, dieta com nutricionista, pedalo no final de semana. A disposição para trabalhar é outra”.
“Eu descuidei, tenho que reconhecer. Muito preocupado com estudos, com o escritório, deu nisso”, disse Marcelo num mea-culpa e arrematou: “O muito estudar é enfado da carne”.
Curioso é que, sem que percebessem, reproduziam os papéis de antigamente: um mais afeito às atividades físicas, mais assertivo e laborioso, outro mais cerebral, chegado às palavras, às ideias e aos ideais. Talvez por isso tenham combinado tanto, talvez por isso foram se distanciando. De novo, a conversa ia sendo cadenciada conforme os exercícios e as pausas para descanso.
“E aí, Edu, voltou à fortaleza?”, perguntou Marcelo.
“Voltei sim, cara. Eu amo o Nordeste”.
“Mas estou falando da praia”.
A família de Eduardo, classe média confortável, tivera uma casa na praia da fortaleza, entre Caraguatatuba e Ubatuba. Para lá os dois amigos iam com frequência, em quase todo feriado prolongado ou férias. Muitos banhos de mar, algumas trilhas e caminhadas, várias festas. Marcelo sentiu que a menção à praia do passado nublou por instantes o semblante de Eduardo, mas não teve certeza. Certeza ele tinha de que sua lembrança do assunto não fora fortuita, jeito de preencher silêncio (silêncio tanto quanto possível em sala de musculação), mas sim o retorno a uma ferida pensada porém jamais cicatrizada e que voltou a latejar a partir daquele reencontro.
“Nunca mais voltei. Dizem que mudou, muito mais gente, mas continua bonita. E você?”, Eduardo perguntou retomando o movimento na cadeira extensora.
“Também não voltei. Mas ela me vem à mente de vez em quando”.
“Também, cada história louca lá”, Eduardo disse rindo e cedendo o lugar ao amigo no aparelho.
“Louca até demais. Nunca mais viu a … a … Tânia?”, perguntou um hesitante Marcelo.
“Tânia? Que Tânia?”
“Que Tânia? Como não lembra? Aquela caiçara com quem você ficava de vez em quando”.
“Sim, verdade. Não, nunca mais a vi. Bonita ela, não é? Mas era só um caso”, disse Eduardo. Após um silêncio, reconheceu saber aonde o amigo desejava chegar dizendo: “não vá me dizer que você ainda pensa nisso”.
Estivéssemos ali e veríamos que a exumação daquele nome estremeceu a segurança do exitoso comerciante do ramo de alimentação. Veríamos também o incômodo quase tátil que se instalou entre os dois a partir daquele momento.
“Não aconteceu nada de errado”, disse um Eduardo de novo assertivo, olhos nos olhos do amigo, rosto de súbito vermelho, talvez por conta do esforço exigido pelo leg-press, não sabemos.
“Será mesmo, Edu? Aí é que está, eu não tenho essa certeza. Não lembro quase nada daquela noite. E o pouco que lembro o tempo embaralhou”.
“Claro, nós dois travados. E a Tânia também, é bom lembrar”.
“Então! Isso é o que complica as coisas”.
“Marcelo, estávamos bêbados, éramos jovens e queríamos aproveitar a vida. Ponto”.
“Mas será que a Tânia queria mesmo? Você lembra de ter perguntado a ela?”
“Pelo amor de Deus, a Tânia era uma safada, gostava de uma suruba”.
“Não importa, Edu. A questão é: ela consentiu? Fico pensando se a gente não fez uma coisa errada, se não foi na verdade um….”
“Claro que quis, claro que quis. Não quisesse, não teria ido à festa com a gente, não teria bebido, muito menos teria se metido num quarto”. Fez uma pausa para finalizar: “Um conselho? Faça como eu, desencane”.
Marcelo odiou aquele cinismo mas invejou a segurança. Pensou que o amigo nadava num mar de certezas enquanto ele soçobrava em dúvidas. Mas era uma percepção errônea, já que a veemência de Eduardo se prestava menos a convencer Marcelo que a si próprio.
Eduardo alegou pressa e se despediu. Marcelo ainda ficou por ali, apoiado em um elíptico enquanto tentava fixar flashes daquela madrugada de verão de 1994.
Marcelo nunca mais viu Eduardo na academia.
