Engolir o estrangeiro

Ian Perlungieri

E ele gritou. E eu gritei. E ele foi tomar um banho de mentira. E eu bati a porta de verdade.

Saí a passos firmes pelo corredor. De tão irritada, nada peguei. Nem celular, nem mapa e nem minha dignidade. Meu alívio era de que ele também havia deixado a dele no quarto quando se trancou no banheiro para chorar. A boa notícia é que a dele devia estar despedaçada no tapete do hotel enquanto a minha repousava placidamente na cama de casal. Ou era nisso que eu queria acreditar. Que ódio.

Passei pelo recepcionista solitário sem lhe dar muita atenção e saí, mergulhando no mar de pessoas noturnas. O frio acertou meu corpo e fiquei feliz por estar com as meias do Superman que ele me deu. Afinal, eu me recusaria a voltar para o quarto de onde saí apenas para manter meus pés aquecidos. Eles que congelem até a morte. A noite ainda estava iluminada e os muitos transeuntes me lembravam Nova York, mas seus olhos me diziam o contrário. Isso e o cheio diferente da fumaça reforçavam o estrangeiro.

Reforçava apenas para mim, claro. Meus olhos puxados de ascendentes que migraram para meu país e meu andar decidido lhes dava a mesma sensação de uma compatriota que retornava ao seu lar após mais um dia de trabalho. Um como tantos outros.

Eu queria comer. Comer para alimentar minha fuga, para saciar meu esquecimento. Não me considero gordinha, mas ele acha que eu sou. E eu queria jogar isso na sua cara e na minha boca. Queria mostrar para ele que eu decido o que eu quero engolir.

Confesso que desde o início da viagem apenas flertamos com o inusitado, preferindo sempre optar por uma versão oriental de um KFC ou de um McDonald’s. Usava a máscara deles, mas ainda eram velhos conhecidos, amigos fiéis. Hoje, não. Hoje era dia de tomar vergonha na cara e engolir o estrangeiro. Bicho-da-seda, escorpião, cachorro, o que fosse. A máscara já estava em meu rosto, restando apenas fazer meu papel.

Em meio a rostos iguais ao meu, fui indo não sei para onde comer não sei o quê. Mas você está enganado ou enganada se pensa que diminui a firmeza dos meus passos. Muito pelo contrário. Segui caminhos errados de modo consistente. E à medida que eu me entranhei em ruas tortas, eu me perdi e me misturei. Não me considero irracional, mas ele acha que eu sou.

Algumas pessoas e fumaças depois, eu estava no coração do oriente. O fluxo de transeuntes diminuiu e encontrei um restaurante tão perdido quanto eu. Entrei e sentei. Se eu estivesse com ele, as pessoas encarariam aqueles olhos ocidentais, mas sozinha não chamei atenção. Era apenas mais uma. Uma como tantas outras.

A garçonete chegou e falou na língua deles. Fingi que era surda-muda na tentativa de incorporar a máscara. Seria um crime passível de execução se eu deixasse o inglês escapar. Não podia desperdiçar a recepção rotineira no coração do oriente apenas para, em seguida, deixar claro que aquele não era meu lugar. Se isso acontecesse, eu poderia até gritar que meu coração era vermelho, mas eles não acreditariam.

Ela me entregou o menu e apontei para a imagem mais esquisita. Esquisita como ele, como os olhos dele. E eu mastigaria seu corpo, trituraria seus ossos e depois forçaria o vômito apenas para deixar claro que ele não merecia nem o privilégio de ser comido. Eu mereço esse privilégio, mas ele acha que não.

Pouco depois, a garçonete depositou diante de mim um prato com macarrão frio. Devo ter me equivocado com a imagem do cardápio, pois nem de longe aquela refeição se aproximava do estranhamento que eu estava disposta a engolir. Eu ainda conseguia fazer uma boa descrição do que estava na minha frente: um espaguete gelado. Eu queria comer algo que fosse indizível, indecifrável, inominável, algo que nem Lovecraft, o autor favorito dele, conseguiria descrever.

Ao ingerir, no entanto, veio o gosto do estrangeiro. Não sei explicar o que era. Se era o tempero ou a temperatura. Provavelmente nenhum dos dois, mas algo que só existia na língua deles. Apenas engoli aquilo sem saber o que era. Mordi, suguei e chupei com gosto. Se era bicho-da-seda, escorpião ou cachorro não me importava. Me senti em casa.

A dor de barriga acertou meu corpo e fiquei feliz por certas placas indicativas serem universais. A maior surpresa foi ao entrar no banheiro, já que o vaso estava enterrado no chão. Não era um banheiro de hotel ou uma privada de KFC, mas era o banheiro deles e a privada deles e eu estava lá. Se eu já estava no coração do oriente, agora navegava pelos seus átrios.

Não sei se era intuitivo ou se eu havia me tornado uma nativa, mas posicionei os pés de Superman na saliência que parecia adequada e flexionei meus joelhos em uma posição de agachamento que seria muito difícil se eu realmente fosse gordinha. Mas, naquele momento, eu não era.

De um lado, algo saía. Do outro, ele entrava. Será que ele ainda estava trancado naquele outro banheiro? Naquele banheiro que não é daqui? Será que os olhos dele haviam inchado de tanto chorar e ele estava parecendo um panda? Será que ele estava olhando o seu Rolex repetidas vezes se perguntando se eu havia me perdido ou não? Se eu voltaria ou não?

Eu me esforçava para responder a mim mesma de que eu merecia alguém melhor, de que ele já tinha tido mais chances do que o necessário. Mas ele acha que não. E uma parte minha concorda com ele. A parte ocidental quer abraçá-lo. Perdoá-lo. Amá-lo.

Mas ceder seria um crime passível de execução. A prova disso era não encontrar o papel higiênico. Pensar nele com tanto carinho justo no coração do oriente era uma traição àqueles que me receberam tão bem. Que me aceitaram como sou. Que me trataram como compatriota. Uma como tantas outras.

Como eu queria ver uma mão em cima da porta segurando o papel higiênico que eu tanto necessitava. Em cima ou embaixo, já que o vão entre a porta e o piso consegue ser maior do que a distância entre o eu que quer expelir e o eu que quer ingerir. Seria melhor ainda se a mão que segurasse o papel higiênico tivesse um Rolex no punho, indicando que ele me procurou. Que ele seguiu meus passos. Que ele me ama. Ou era nisso que eu queria acreditar.

Ninguém veio. A verdade é que ele e eu já falávamos línguas diferentes há muito tempo. Me lembrei do recepcionista no hotel. Como eu, ele era solitário e no limite entre o ocidente e o oriente, entre o nativo e o estrangeiro. Será que ele me ignorou como eu o havia ignorado? Provavelmente sim, mas havia uma diferença muito clara entre nós: era eu quem estava fora do hotel.

Saí do restaurante. Meus pés congelando até a morte.

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