por Américo Paim
Era um sábado em julho de 2016. Depois da nossa primeira vez na encantadora Alemanha, onde encontramos o filho mais velho, e passados cinco dias ótimos em Londres, minha cidade preferida no exterior, pegaríamos o trem bala para Paris, viagem de pouco mais que duas horas, mas Leo não iria. Tinha que voltar às terras teutônicas para concluir o intercâmbio universitário de dois anos. Eu, Jane e os mais novos, Tiago e Luma, seguiríamos as férias. A viagem vinha perfeita.
Não era a nossa estreia em trens, contudo havia uma diferença importante por ser um trecho internacional: o obrigatório raio x nas malas. Entre as nossas, havia uma com coisas que Leo nos deu para levarmos ao Brasil, para diminuir seus volumes quando retornasse em definitivo, dali a um mês. Dentro dela uma machadinha preta de camping com uns trinta centímetros de comprimento, lâminas dos dois lados. Fiquei tenso, mas os meninos se fartaram em piadas com minha ansiedade.
Chegar às estações de King’s Cross e St. Pancras foi fácil e o impacto visual me impressionou. Achei tudo lindo e com cara de moderno e funcional, jeito de lugar em que tudo dá certo. Mal arriamos as malas e Luma me chamou a atenção para o físico Stephen Hawking em uma das filas de embarque! Fiquei ainda mais animado. Era o segundo famoso que eu admirava que víamos na viagem. Antes, em São Paulo, dentro do sanitário masculino, dei de cara com o mestre George Benson! Era ou não uma viagem perfeita?
Fomos para a nossa fila de embarque. Como sempre faço, fiquei por último no grupo familiar, com minha bagagem e a tal do meu filho. Eu imaginava e aconteceu: o fiscal pediu que abrisse a mala. Após examinar tudo com um colega, falou comigo de forma arrogante, sem preliminares e em inglês nada bom. Ele, como eu, não era nativo:
– O que o senhor pretende com esse machado?
– Nada – respondi comprando problema, reconheço.
– Isso não poderá viajar. É uma arma.
– É uma ferramenta de camping.
– Não são permitidas armas.
Já ali bateu no meu limite. Ele não me escutava e isso me tirou do sério.
– O senhor me ouviu? – falei, olho no olho.
– Por favor, afaste-se e libere a fila.
– Não saio daqui de jeito nenhum – a voz subiu um pouquinho, já puto.
Ele olhou em volta e chamou um terceiro, que foi gentil na abordagem, mas com a mesma dificuldade de diálogo. Esperei empatia em vão.
– O senhor é estrangeiro e talvez não tenha compreendido o que lhe foi dito.
– Engano seu. Entendi muito bem, mas não tem lógica! – meu estômago revolvia.
– Vamos reter a bagagem.
– De jeito nenhum! Que absurdo! – falei em português, retado com a falta de bom senso.
– Em inglês, por favor. O senhor parece desequilibrado. Quer um copo com água?
Aquilo me deixou no ponto de ebulição. Nem respondi. Me sentia oprimido e vítima de preconceito. Chegou mais outro. Juntos, discutiam, falavam em idioma que eu não reconhecia e olhavam para mim. Às vezes riam. Eu queria matar um por um. Minha família, já do outro lado, sem saber em que pé as coisas estavam, também me olhava. Pedi que embarcassem pois o horário de saída se aproximava. A essa altura eu pensava que só sairia dali expulso ou preso, o que iria acabar com nosso passeio. Meu corpo tomado por pressão abdominal, suores e tudo mais. Quando chegou uma quinta pessoa, com cara de chefe, eu, com todos eles à minha volta, apelei:
– Senhores, eu preciso ir embora. Alguém aqui vai resolver? – a voz alta, frases em inglês intercaladas com palavrões em português.
– Poderá deixar o objeto aqui e seguir com a mala.
– Claro que não! Como lidam com quem acampa? Ou viaja com ferramentas manuais?
– Podemos despachar no vagão de carga – disse o chefe, vendo-me irredutível.
– Ninguém aqui sabia disso até agora? – retruquei irritado.
Desconfiado, acompanhei o despachar da mala até onde me deixaram. Embarquei a cinco minutos da saída do trem, com cara de bicho, disseram depois meus filhos. Meu corpo tremia, coração disparado. Só me acalmei perto de o trem chegar ao trecho sob o Canal da Mancha. Já na França, as belas paisagens me aliviaram um pouco.
Chegamos à Gare du Nord informados que estaria muito quente, mas não naquele nível. O capiroto devia estar se abanando por lá. Pense no calor de quase quarenta graus! Havia distribuição gratuita de garrafas de água mineral! Logo descobri que a retirada da bendita mala era em um lugar distante, ainda dentro da estação. Caminhei muito até chegar lá. Transpirava e praguejava. Minha cabeça doía. Após mais espera, dificuldades com meu pobre francês, alguma discussão e bastante burocracia, retirei a mala. De volta à família, eu era uma massa disforme de suor, raiva, cansaço e impaciência. Luma me olhava com expressão de medo e Tiago curioso, em silêncio. Só Jane verbalizou: “Não estou lhe reconhecendo!”. Fiquei mudo. Era melhor. Nem notei ou admirei a beleza da Gare.
Como o hotel era perto, decidimos ir a pé, no calor impiedoso do início da tarde. Uma vez lá, descobrimos que nossas reservas não funcionaram – falha da empresa, não nossa – e, claro, não havia vagas. Eu era o barril de pólvora aguardando a faísca! Jane percebeu, tomou a frente e evitou o pior. Aconteceu algo que comigo nunca seria: ela e a recepcionista se comunicarem em português! Depois de consultas por telefone, a moça, gentil, sugeriu um hotel próximo e ainda destacou um dos atendentes, um rapazinho luso, que nos acompanhou. Caminhamos todo o trajeto. O hotel era simples. Após o check-in, nos alojaram em dois quartos próximos.
Cansados, fomos comer algo por perto. Relaxamos, a apreciar o cenário à nossa volta, retomando um pouco o clima de férias, mas Jane e os meninos não perdoaram: “você parece um tanque de guerra, tiro para todo lado”. Até uma cachorra a latir em uma mesa próxima na calçada eu achava que era para mim, o que causou risada geral. Os meninos a batizaram de “machadinha”! De volta ao hotel, depois de ouvir um sermão de Jane por causa dos meus excessos, fomos dormir, na expectativa do dia seguinte.
Duas e meia da madruga, acordamos com uma campainha alta. Conferi o celular, não era. Sonolento, pensei na porta e me levantei, mas antes de chegar a ela, outro toque forte e aí entendemos: o alarme de incêndio! Com medo, saímos os quatro, descendo rápido pelas escadas. Muita gente de camisola, pijama, descalça, cabelos desgrenhados e pressa. O saguão estava cheio com as pessoas gritando por informações, em uma salada de idiomas. Era para sair do prédio ou não? Quais as orientações? Me juntei a eles, mas não progredíamos. Quase quarenta minutos de espera depois, confirmaram: alarme falso. Ninguém se machucou, ainda bem, porém a quantidade de eventos do dia inteiro foi demais e eu me sentia esgotado quando de volta ao quarto.
Tomei um banho frio e voltei a me deitar. Começamos a conversar sobre tudo que aconteceu e acabamos em risadas nervosas. Na cama, olhando para o teto, veio um barulho seco, um pipoco, o ar condicionado parou e as luzes apagaram. No escuro, em silêncio, a um segundo de gritar, só deu tempo de ouvir a voz de Jane, rápida:
– Calma, amor!
