EU SÓ QUERIA DORMIR

Silvia Argenta

A sala de paredes brancas e poucos móveis não me intimidou. Ao fundo, havia uma mesa grande de escritório, onde um homem, que parecia ser o chefe de segurança, estava sentado. À sua frente, seis cadeiras enfileiradas, três de cada lado, com uma pequena mesa entre elas. Do lado da porta, um passageiro que estava no mesmo voo que o meu entregava um pacote para um policial. Não desviei o olhar. Ao perceber que prestava atenção na conversa dos dois, eles saíram e não consegui descobrir o que tinha no embrulho. Em cima da janela fechada, um relógio quadrado de ponteiros e fora de prumo marcava três horas.

Quando entrei na sala, imaginei que logo tudo seria esclarecido e eu seria liberada. Além do chefe, havia outros três homens. Pediram que eu me sentasse. Na outra cadeira vazia, apoiei minha mochila, única bagagem que tinha naquele momento. Quietos, ficaram me analisando. Os homens, de cabelos, sobrancelhas e barbas pretos e espessos, olharam meu rosto, minhas mãos, meus pés, minha mochila. Dava para ouvir a respiração de todos eles. Os quatro acenderam cada um o seu charuto. Um quinto homem fechou a porta e a cortina, se sentou na última cadeira disponível e optou pelo narguilé, ou shisha, como eles chamam. Na primeira baforada, o ambiente ficou completamente tomado pelo cheiro de menta. Foi a primeira prova que de fato eu havia chegado ao Oriente Médio.

Ao passar pelo último raio-x do aeroporto, o segurança desconfiou de mim e enumerou os motivos. Mulher, sozinha, sem bagagem, passaporte brasileiro, escala em Milão. Pronto. Drug dealer. “Você tem de entender, né?”, ele me disse em inglês. Era madrugada e a viagem durou mais de trinta horas. Eu só queria dormir. Tentei explicar isso a ele, mas não teve jeito. De forma mais incisiva, mas sem encostar em mim, pediu que eu entrasse na sala.

No voo, me sentei ao lado de um homem mais velho, de camisa e calça social, barba feita e jeito de ser bem-sucedido. Tinha passado a semana em Istambul fechando negócios para a sua empresa de roupas masculinas. Abriu o celular de última geração, me mostrou fotos de sua filha de oito anos, contou como era a sua vida de uma década de casado. Parecia feliz. Depois me passou o número do seu telefone para que eu o chamasse caso tivesse qualquer imprevisto durante minha estadia no país. Na hora, achei estranho, mas depois descobri os códigos para proteger turistas. Não houve malícia. Com a economia em péssima situação, eles querem que os visitantes se sintam seguros para se divertir nas baladas da Rua Armênia, comer shawarmas e fumar shisha. Bem comum ouvir por todo lugar: welcome to Lebanon.

Já com o cérebro inebriado pelo cheiro da fumaça dentro da sala, pensei em ligar para o empresário, afinal ele ainda devia estar no aeroporto. Analisei cada um dos homens e desisti da ligação. Não havia o que temer, já que eu não tinha cometido crime algum. O chefe me fez a primeira pergunta, de um jeito intimidador. Queria saber se eu carregava dinheiro e eu respondi, sorrindo, que sim. Ele pediu para ver. Tirei um pouco da bota direita e o restante, da pochete na cintura, escondida embaixo da calça. Mais um motivo para a brasileira ser a drug dealer do ano. Todos acharam muito suspeito eu transportar o dinheiro dessa forma, mas expliquei que isso é comum no Brasil porque, se somos assaltados, o ladrão leva só uma parte da grana. Não se convenceram. Espalhei todas as notas de dólar em cima da mesa para que eles vissem que não tinha nada de errado.

Me indagaram umas trezentas vezes onde eu ia, com quem, por quanto tempo. Colaborei e dei trezentas vezes as mesmas respostas. Queriam entender por que não desisti da viagem, já que nenhum dos meus amigos topou me acompanhar. Depois, me questionaram o porquê de eu estar sem bagagem. Contei que quando troquei de avião na Itália, minha mala foi extraviada. Em Milão mesmo fiz a queixa no aeroporto. Mostrei o documento ao chefe. Nada tirava da cabeça dele que eu era traficante de drogas. Pegou o papel e meu passaporte e os entregou a um funcionário que estava no corredor, para que checasse as informações. Perguntei se ia demorar, afinal eu só queria dormir, e ele me disse que era para eu não me estressar. Falei que estava tranquila e quase me entregando ao sono. Ele argumentou que por isso mesmo eu era mais suspeita ainda. Achou que eu tinha recebido treinamento para agir assim. Na verdade, esperava que os cinco homens altos vestidos com roupas militares e coturnos deixassem nervosa uma mulher sozinha, sul-americana, balzaquiana e de um metro e sessenta. Sou calma nessas situações extremas, fazer o quê? Nem vontade de chorar eu tive.

Mudei de estratégia. O chefe me ofereceu água e café e eu neguei. Isso é uma ofensa para a hospitalidade libanesa! Fechei a cara. Perguntou de futebol. Ah, sempre o futebol. Falei que não gostava e eu só queria dormir. Se irritou com minha antipatia, bateu as palmas das mãos na mesa, se levantou da cadeira e gritou: “Você tem de entender, né?”. De novo essa frase! Sem pensar, também me levantei e respondi: claro, assim como você tem o direito de achar que todo brasileiro é suspeito de ser traficante, também tenho o direito de achar que todo árabe carrega uma bomba no bolso. O chefe me fuzilou com seu olhar. Fui atingida. Por um segundo, achei que tinha cavado a própria cova. O aeroporto fica bem na região dominada pelo Hezbollah, eu não entendia direito quem eram aquelas pessoas e imaginei o meu fim. Mal cheguei, e a viagem já era.

Meu corpo acordou. Pela primeira vez, senti tremor nas mãos e no queixo. Nem conseguia mais fechar a boca. Não pisquei, esperando a próxima reação do chefe. A fumaça espessa da shisha e dos charutos me fez tossir. Teria de dar a última cartada e chamar alguém do consulado. Até que, atrás de mim, ouvi um barulho. O homem que fumava shisha começou a gargalhar. Os outros não aguentaram e também riram. O chefe esboçou um sorriso amarelo. Aprendi rápido que no Líbano tudo é superlativo. Respirei. Bem na hora, o funcionário voltou confirmando que eu contei a verdade. O chefe me entregou o passaporte, disse que ficaria de olho em mim e me dispensou. Juntei o dinheiro e coloquei na mochila. Não havia mais sorrisos. Saindo da sala, falei para o chefe alinhar o relógio, que marcava cinco horas.

O taxista do hostel onde eu iria ficar hospedada ainda estava me esperando. Eu o encontrei sozinho no saguão segurando um cartaz com meu nome escrito. Ele não parou de reclamar do meu atraso até chegarmos ao carro. Assim que tive chance de me explicar, ele me pediu desculpas e me deu de presente um passeio noturno por Beirute, onde, de cara, já me esqueci de todo o perrengue e me deslumbrei com a imponência da Mohammad Al-Amin, a famosa mesquita azul e a maior da cidade, toda iluminada. Já nem lembrava mais que eu só queria dormir. Ele me deixou no hostel às seis da manhã, e a chave do vigia não abriu a porta do meu quarto, mas aí é outra história.

A mala apareceu após três dias. Para pegá-la, tive de passar mais uma vez por vários procedimentos de segurança no aeroporto. Foi um alívio ver que estava intacta. Um mês depois, de volta ao Brasil, recebi a ligação da advogada da companhia aérea, que pediu para eu desistir da ação judicial que entrei contra sua cliente, alegando que o extravio da bagagem me causou vários problemas. Ela prometeu que depositaria o dinheiro na minha conta no mesmo dia. O valor cobriria todas as minhas despesas. Acertamos os ponteiros e foi assim que ganhei uma viagem. Tive de me beliscar para acordar.

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